Guerra e conflitos

Notícia : Guerra e conflitos

Refugiados trocam insegurança na Síria por dificuldades econômicas no Egito

CAIRO — Há um mês, o vendedor Ahmed, de 40 anos, deixou Damasco com a esposa e três filhos, temendo estar sob a mira do Exército sírio após um de seus quatro irmãos ter sido detido e outro, morto. Ele desabotoa a camisa para exibir seu braço esquerdo, com queimaduras após a explosão que destruiu sua casa e parte de seu bairro no subúrbio da capital síria.

— Eu perdi tudo — diz ele, com uma pequena sacola de documentos em mãos enquanto aguarda para ser registrado como refugiado em um centro de apoio no Cairo. — Todos os dias, soldados vão às casas procurando por jovens, para recrutar ou prender. Eu sofri muito.

Foguetes também destruíram a casa da professora Laila, de 37 anos, que há três meses saiu de Damasco com o marido e os três filhos.

— Em um posto de controle, um soldado mostrou uma faca à minha filha mais nova, e disse que todos nós seríamos mortos a facadas. Minha filha não pode ver qualquer soldado que grita.

Laila diz desconhecer o paradeiro de seus pais, que deixou para trás. Eles tentaram buscar refúgio na Turquia, mas não conseguiram cruzar a fronteira. Impedidos de retornar a Damasco devido ao conflito entre forças leais ao presidente Bashar Al-Assad e rebeldes opositores, estão no Norte do país, mas perderam contato com a filha.

Subúrbio com cara de Damasco

Ahmed e Laila são duas caras de um crescente êxodo entre dois países atingidos de maneira distinta pelas revoltas da chamada Primavera Árabe, que eclodiu há dois anos. No Egito, protestos levaram à rápida queda do ditador Hosni Mubarak — seguida de uma ainda turbulenta transição para a democracia. Na Síria, manifestações pacíficas deram lugar à rebelião armada contra o regime de Assad, que degringolou numa guerra civil que já deixou quase 100 mil mortos, segundo os balanços mais recentes.

Para Ahmed e Laila, deixar a Síria era a única maneira de sobreviver ao conflito. Num subúrbio do Cairo, em meio ao deserto, encontraram uma “pequena Síria”, onde as bandeiras da oposição exibidas nas ruas, nas janelas dos apartamentos e nas fachadas das lojas não deixam dúvidas de que é aqui que sírios montaram uma filial de seu país.

Cerca de 140 mil sírios estão no Egito, mais de 62 mil deles cadastrados ou aguardando registro como refugiados no escritório local da Organização das Nações Unidas. “Dimashq” — Damasco em árabe— virou nome comum entre lojas de sírios que, com algum dinheiro, montaram negócios na “pequena Síria”, como o marido de Laila, que abriu uma padaria. Perto dali, estão cafés de narguilé e outros pequenos restaurantes que vendem os tradicionais doces, esfihas e falafel sírios.

Sírios escolhem o Egito por diferentes razões, mas a maioria é atraída pelo baixo custo de vida no país, que não exige visto e permite acesso a escolas e hospitais públicos. Uma vez lá, dizem escapar do elevado custo de vida no Líbano ou de serem forçados a viver nos abarrotados campos de refugiados da Turquia e da Jordânia, os destinos daqueles que não podem pagar pela viagem ao Norte da África. Mais de 1,5 milhão de sírios já deixaram o país nos últimos dois anos.

O recomeço, no entanto, é frustrante para tantos outros sírios. O motorista Saed, de 30 anos, perdeu trabalho e casa em Aleppo, uma das cidades mais afetadas pelo conflito. Ele conta ter sido capturado por soldados ao resgatar corpos de crianças sob os escombros de prédios destruídos por foguetes.

— Um dos soldados me conhecia e me libertou. Se não, estaria morto — diz.

Deixou na Síria a mulher e duas filhas, uma de três anos e outra de três meses, e com dinheiro emprestado, embarcou para o Cairo. Trabalhou e morou num lava-rápido por um mês, ganhando menos de R$ 3 por dia. Desistiu.

— Preciso de dinheiro, preciso de dinheiro. Eu preciso voltar para a Síria — diz ele, em tom de desespero, antes de encerrar a conversa. — Qual vantagem eu terei em conversar com você?

Críticas ao regime e à oposição

A falta de trabalho é apenas um dos problemas para os refugiados sírios, numa realidade distante do otimismo vivido pelos pequenos empresários. O país sofre com sua própria crise econômica, com desemprego e inflação crescentes, o que afeta o preço de alimentos e moradia. Segundo a ONU, a maioria dos refugiados no Egito precisa de trabalho, mas não há números oficiais.

Ahmed, o vendedor, também está desempregado. Há quatro semanas no Cairo, vive no terceiro apartamento. Em todas as vezes, foi despejado pelos proprietários, interessados num aluguel maior.

— Muitos sírios chegam aqui com pouco dinheiro. Moradia é um problema, com os preços em alta. Alguns sírios estão abrigados em mesquitas e estão mendigando nas ruas. A crise humanitária exige uma solução urgente — afirma o representante regional da agência da ONU para refugiados, Mohamed Dayri.

A maioria dos refugiados se diz contrária a Assad, mas mostra desconfiança com os rebeldes.

— Todos os sírios estão sofrendo dentro e fora da Síria, enquanto todo o mundo só fica conversando ou dando risada do nosso sofrimento. Eu não confio em ninguém. Nem no regime, nem na oposição — diz Ahmed.

Laila dá um sorriso amarelo quando perguntada sobre o futuro da Síria:

—Ninguém sabe para onde estamos indo. Precisamos de oposição, mas não da maneira que existe. Da maneira que existe, é muito ruim.

(webremix.info)


Kofi Annan: ‘Eu queria mais a paz do que os protagonistas do conflito sírio’

RIO — Na última década, um diplomata nascido em Gana passou a ter voz ativa nas soluções para praticamente todos os conflitos sociais e militares que o mundo presenciou. Como secretário-geral da Organização das Nações Unidas, cargo que manteve por dois mandatos, de 1997 a 2006, Kofi Annan ajudou a reverberar a voz de uma entidade criada em 1945, após a Segunda Guerra Mundial, e que vinha buscando se reposicionar no cenário internacional após o fim da Guerra Fria. Com Annan à frente, a ONU esteve presente em negociações nas guerras do Iraque e do Afeganistão, bem como nos conflitos em Kosovo, Bósnia, Timor Leste, Palestina e África.

Foram experiências que alteraram a política mundial e cujos detalhes surgem em “Intervenções - Uma vida de guerra e paz”, livro que Annan escreveu com a ajuda de seu ex-assessor Nader Mousavizadeh, que está sendo lançado no Brasil pela Companhia das Letras. O livro terminou de ser elaborado no primeiro semestre de 2012, quando Annan, já após ter deixado a função de secretário-geral, atuava como enviado especial da ONU à Síria, ainda hoje um país em conflito entre opositores e o governo do presidente Bashar al-Assad.

Em entrevista ao GLOBO, por telefone, Annan explicou o que motivou sua saída da Síria: a incerteza quanto aos anseios por paz dos envolvidos. Ele falou também do papel de Sérgio Vieira de Melllo, o diplomata brasileiro morto em serviço pela ONU, num atentado no Iraque em 2003, e defendeu uma reforma no Conselho de Segurança da ONU, para que novos países se tornem membros permanentes - uma aspiração do Brasil.

O GLOBO: O senhor terminou de escrever o livro alguns meses antes de renunciar como enviado especial da ONU à Síria, com o objetivo de mediar o conflito. O que aconteceu nesse período que o levou à renúncia?

Kofi Annan: Quando eu aceitei a missão na Síria, todos diziam que era uma tarefa impossível ou, pelo menos, muito difícil de realizar. Mas eu me sentia preparado, achava que poderia, se tivesse o apoio do Conselho de Segurança da ONU, ajudar no processo de paz. Nossa meta era pôr pressão em ambos os lados para que se sentassem à mesa e dialogassem. Então, nos seis meses em que eu fiquei na função, chegamos a várias propostas. A primeira foi o Plano de Seis Pontos, o qual todos os lados pareciam endossar. Mas não houve um entendimento, faltou pressão do governo para que os partidos trabalhassem com base no Plano de Seis Pontos.

Mas houve algum estopim para a decisão de renunciar?

Kofi Annan: Eu organizei um encontro em Genebra, onde juntamos os representantes dos cinco países com assento permanente no Conselho de Segurança, mais ministros de Qatar, Iraque e Kuwait. Nós tiramos dali uma estrutura que serviria como alternativa para evitar a guerra. A solução seria um acordo político, mas precisávamos aprovar um governo de transição que abrangesse os interesses de todos os grupos, inclusive as minorias. Basicamente, era um sistema que, acreditávamos, poderia ajudar a Síria a acabar com os conflitos. E todos concordaram. Mas, dias depois, nós fomos para Nova York, e achei que todos eles apoiariam a proposta, mas eles não o fizeram. Foi aí que percebi que eu queria mais a paz na Síria do que os protagonistas do conflito e até do que o Conselho de Segurança. E decidi me retirar.

E hoje? Como o senhor enxerga a situação do país?

Kofi Annan: Eu fico animado ao ouvir que existe uma possibilidade de uma reunião em Genebra, na qual representantes da Rússia e dos Estados Unidos vão discutir para tentar chegar a um acordo. Porém, honestamente, eu não vejo uma solução aparente.

O senhor viu as imagens de um rebelde sírio mordendo o coração que seria de um combatente de um grupo rival?

Kofi Annan: Eu não vi, mas li a respeito. É uma demonstração de como a situação na Síria está. É horrível o que acontece lá. Ver seres humanos chegando a esse ponto dá um gosto amargo do nível de depredação ao qual a Síria chegou.

Quando o senhor foi secretário-geral e também em períodos anteriores, não pareceu haver muitas reservas, sobretudo dos EUA, para invadir países que supostamente ameaçassem a paz mundial. Hoje, isso não tem acontecido mais. O senhor acha que a tarefa da ONU de evitar guerras, hoje, tornou-se mais simples?

Kofi Annan: Eu acredito que todos aprenderam lições com o que ocorreu no Iraque, inclusive os Estados Unidos e seus aliados. Nós vemos os resultados daquela guerra hoje. Algumas decisões fizeram, por exemplo, com que as pessoas passassem a questionar a legitimidade do Conselho de Segurança da ONU. Por isso, não só o mundo ficou mais hesitante quanto às intervenções militares, mas também o governo americano, hoje na figura do presidente Obama, teme repetir o que fizeram no Iraque.

Passados alguns anos da Guerra do Iraque, como o senhor analisa o que aconteceu?

Kofi Annan: As armas de destruição em massa foram a justificativa oficial, eles diziam querer ir para o Iraque para encontrá-las e destruí-las. Mas, no fim, eles perceberam o que todo mundo imaginava, que não havia armas de destruição em massa. Não deram tempo suficiente para os inspetores da ONU fazerem seu trabalho. Os Estados Unidos e seus aliados também não tiveram paciência para esperar que o Conselho de Segurança debatesse. Eu suspeito que eles perceberam que o Conselho não iria endossar a ação no Iraque sem uma confirmação sólida de que havia as armas. E, no fim, claro, não havia armas.

Por tudo o que ocorreu na última década, alguns líderes mundiais defendem uma reformulação no Conselho de Segurança da ONU, com a inclusão de novos membros permanentes. O senhor concorda que o Conselho precisa mudar?

Kofi Annan: Não há dúvida de que algo precisa mudar. A estrutura do Conselho de Segurança da ONU reflete a situação geopolítica de 1945. Mas o mundo mudou, a ONU precisa mudar junto com o mundo. É difícil justificar para os jovens que um Conselho de Segurança, que supostamente deveria representar o mundo, não tenha integrantes permanentes da América Latina e da África. Eu defendo uma reforma do Conselho de Segurança para que ele seja mais democrático e representativo. Quando fui secretário-geral, eu fiz propostas e me empenhei bastante para mudar o Conselho, mas não foi possível. Poderes novos de países como Brasil, Indonésia, Índia, África do Sul e outros têm todo o direito de exigir um assento permanente na mesa. A reformulação é essencial e vai ajudar a evitar novas tensões no mundo.

Como o senhor vê o papel do Brasil no mundo hoje?

Kofi Annan: O Brasil se tornou um país extremamente importante no cenário internacional. Vou dar um exemplo do que acontece no meu continente, a África. O Brasil tem políticas de cooperação com países africanos essenciais. A experiência do Brasil em cuidar de questões sociais e econômicas pode servir para o desenvolvimento dos países africanos, e espero que essa cooperação continue e seja expandida.

O senhor foi muito próximo do alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos Sérgio Vieira de Mello, que morreu quando era enviado da ONU a Bagdá, em 2003. Como a morte de Vieira de Mello afetou o senhor?

Kofi Annan: Sérgio não foi apenas um colega de ONU. Ele era um amigo. Nós estivemos juntos em muitas situações. Ele era um diplomata brilhante, e tenho certeza de que Sérgio poderia assumir qualquer cargo nas Nações Unidas. Ele estava a caminho de se tornar secretário-geral.

Que momento o senhor considera o mais difícil em sua trajetória como secretário-geral da ONU?

Kofi Annan: Foi a Guerra do Iraque. O que aconteceu ali dividiu demais a ONU, de uma forma muito negativa, ao ponto de eu não ter certeza se aquela ferida já cicatrizou completamente. Foi bastante duro tentar prevenir a guerra, discordar de amigos e acompanhar tudo o que aconteceu em seguida.

No livro, o senhor fala de como o escândalo relacionado ao programa Petróleo por Alimentos, que envolveu seu filho, Kojo, e que fez com que até mesmo o senhor fosse investigado, o afetou. O que o senhor aprendeu com aquele episódio?

Kofi Annan: Aquele foi um escândalo fabricado. Na época, faltavam muitas informações, e veio a público o fato de que meu filho trabalhava para uma das companhias que tinha contrato no Iraque. Mas o verdadeiro problema é que havia centenas de empresas de todos os países, inclusive dos cinco países com assentos permanentes no Conselho de Segurança, que fizeram acordos com Saddam Hussein para fechar contratos de petróleo. Mas é claro que não houve tanto interesse nisso quanto houve no que envolvia as Nações Unidas. A imprensa, especialmente a imprensa americana, ficou mais interessada no que dizia respeito a meu filho.

(webremix.info)


Conflito civil na Nigéria deixa pelo menos 30 mortos, diz polícia

ABUJA - Conflitos entre etnias rivais mataram pelo menos 30 pessoas no Estado de Taraba, no leste da Nigéria, desde sua irrupção na sexta-feira (4), informou a polícia local.

Membros do grupo étnico Jukun rumavam a um enterro na pequena cidade comercial de Wukari, quando se iniciou uma discussão com jovens das etnias Hausa e Fulani que rapidamente degenerou em batalhas com armas de fogo e facões. Agressores também atearam fogo a cerca de 30 casas, disse a polícia.

— Agora retomamos o controle total, embora a crise tenha tirado 30 vidas — afirmou Joseph Kwaji, porta-voz da polícia do Estado de Taraba, acrescentando que 40 suspeitos foram presos.

O Estado de Taraba é parte do volátil "Cinturão Médio" nigeriano, onde o sul majoritariamente cristão e o norte de maioria muçulmana se encontram. O Cinturão Médio testemunha atos violentos frequentes entre comunidades semi-nômades pecuaristas, como os Fulani, e povos agricultores assentados, como o Jukun, na disputa de terras.

O fato de que os Fulani tendem a ser muçulmanos e outras etnias, incluindo os Jukun, são em grande parte cristãs às vezes dá uma dimensão religiosa ao conflito no Cinturão Médio.

A Nigéria é a maior produtora de petróleo da África e o país mais populoso do continente, com estimadas 170 milhões de pessoas. A maioria vive em áreas rurais pobres e dispõe de poucos meios formais para arbitrar suas disputas.

(webremix.info)


Malária ainda desafia comunidade mundial

RIO - Em toda História da Humanidade, apenas uma doença já foi erradicada: a varíola, cujo último caso foi registrado em 1977 em um habitante da Somália depois de uma campanha de dez anos promovida pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Antes disso, porém, a OMS havia tentado erradicar a malária. O esforço foi suspenso antes de lograr seu objetivo e, hoje, a malária continua sendo endêmica em mais de cem países, que abrigam metade da população mundial. Enfermidade que pode ser inteiramente prevenida e curada, ela todavia causa mais de 600 mil mortes e tem 219 milhões de novos casos a cada ano, atingindo particularmente as populações que mais sofrem com a pobreza, da qual é considerada tanto causa como consequência.

Após a II Guerra Mundial, o acesso a um novo inseticida — o DDT — e a um novo remédio — a cloroquina — deu a sensação de que tínhamos as ferramentas que precisávamos para acabar definitivamente com a malária, e lançar o que na época foi a primeira campanha para erradicar uma doença que jamais havia sido empreendida a um nível global. E embora ela não tenha dado certo em termos gerais, não só conseguiu importantes avanços como deixou lições que estamos aproveitando neste momento, quando a erradicação da malária voltou a aparecer como uma prioridade na agenda internacional.

As razões do fracasso da campanha dos anos 50 e 60 continuam sendo hoje muito discutidas, mas sem dúvida incluem um planejamento inadequado, a falta de um projeto sobre o que fazer na África e um financiamento que resultou de todo modo insuficiente. Além disso, a confiança no êxito levou ao abandono dos esforços nas pesquisas. A consequência nefasta de tudo isso foi um retorno maciço da malária, que nas últimas décadas do século XX causou dezenas de milhões de mortes.

Se o objetivo último da medicina é fazer desaparecerem as doenças que maior sofrimento e mortes causam nos seres humanos, se possível de forma permanente, frente às patologias infecciosas ou transmissíveis cabem duas abordagens possíveis: ou bem controlá-las, diminuindo ao máximo suas consequências, mas aceitando o esforço que terá que ser mantido por toda vida; ou fazer desaparecer o agente causal de todo o planeta e de forma permanente, o que conhecemos como erradicação.

No caso da malária, as dificuldades para se chegar a este ponto são verdadeiramente enormes. Enfrentamos um problema de maior complexidade, que inclui desde as bases biológicas do parasita, seus mecanismos de evasão e os determinantes da imunidade, até o mecanismo de transmissão por meio de um mosquito e o fato de que a malária é endêmica quase sempre em países com uma infraestrutura sanitária muito débil.

A História nos mostra que para chegar à erradicação da malária precisamos contar com conhecimento, determinação política e base financeira suficientes. Há que se reconhecer, ademais, que uma vez iniciado o caminho não há volta atrás: ou se logra o objetivo último ou a malária voltará associada a uma grande vingança.

A última década tem sido uma época de ouro para a pesquisa sobre a malária. Desenvolvemos tratamentos de primeira linha com a artemisinina, as redes impregnadas com inseticida estão sendo usadas de maneira massiva e estamos mais próximos do que nunca de ter uma primeira geração de vacinas, que podem estar registradas em menos de 24 meses.

Após uma época de abandono e pessimismo com a suspensão da primeira tentativa de erradicação da malária, vista como um fracasso, a comunidade internacional voltou a assumir este objetivo. E não é porque hoje sejamos conscientes das dificuldades para fazer sumir da face da Terra este parasita que causa esta terrível doença que vamos renunciar ao que representaria uma das maiores vitórias da História da medicina. Com nossos melhores esforços, o apoio de doadores e da opinião pública, altas doses de imaginação e o maior dos compromissos, trabalhamos a cada dia com a esperança de que atingiremos este objetivo.

(webremix.info)


Parque Nacional da Gorongosa: “o homem sonha, a obra nasceâ€

A restauração do Parque Nacional da Gorongosa é hoje um projecto emblemático para a conservação da natureza em África, depois de ter sido destruído durante a guerra civil em Moçambique. (webremix.info)


O lado ‘soft’ da Dama de Ferro

LONDRES - O primeiro volume da biografia autorizada para ser publicada apenas após a morte de Margaret Thatcher traz revelações sobre a vida privada da Dama de Ferro. Relacionamentos amorosos, o convívio com a família, a vaidade e até mesmo um possível divórcio fazem parte da história revelada pelo jornalista Charles Moore em “Margaret Thatcher: uma biografia autorizada”.

A vida amorosa da Dama de Ferro não foi contada por ela para o jornalista: foi necessário pesquisar em cartas e documentos, além de entrevistar parentes e amigos. Segundo o livro, o primeiro noivo de Margaret foi um jovem, um ano mais novo do que ela, chamado Tony Bray, que foi enviado pelo Exército para ficar seis meses em Oxford. Thatcher definia para sua irmã, em cartas, que Tony era um “jovem com aspecto estranho” e “baixo e não muito bonito”.

Em uma das cartas, a então Margaret Roberts, contou com entusiasmo um dia que começou com um piquenique com Tony e terminou com os dois dançando no Hotel Randolph.

“Nós tivemos um grande momento. Tony alugou um carro e fomos para o campo. Consegui que me emprestassem um casaco azul que combinou perfeitamente com o meu vestido”, escreveu a futura primeira-ministra.

O relacionamento não durou muito. Para ele, bastou um fim de semana na casa dos Roberts, em Dartford, para perceber que aquele ambiente austero não era o que queria naquele momento. Em todo o caso, os dois nunca chegaram a falar sobre casamento.

De pretendente a cunhado

Quem parecia querer se casar com ela era um fazendeiro escocês que Margaret conheceu em 1949, que ela não se lembrava como ele se chamava, apesar de tê-lo encontrado algumas vezes, segundo cartas enviadas para sua irmã Muriel. Ela nunca se interessou muito por ele, mas pensava que poderia ser um bom marido para sua irmã. E, no final, acabou que seu pretendente, Willie Cullen, acabou se casando com Muriel.

O autor acredita que Margaret só se deu conta de que nunca poderia se casar com Willie quando, ao visitar sua casa pela primeira vez, viu que todas as mulheres de seus amigos haviam se tornado donas de casa. E ela queria uma carreira profissional e também queria entrar para a política. Logo após o distanciamento de Cullen, surgiu um médico chamado Robert Henderson, de 47 anos, o dobro da idade de Margaret, e muito famoso por seus êxitos.

“Nas cartas de Margaret para Muriel, Robert Henderson é o único noivo que ela sempre se refere de forma respeitosa, às vezes, até com ternura”, escreve o autor ao descrever o romance que durou até 1951.

Quase ao mesmo tempo, Margaret conheceu, em uma reunião do Partido Conservador, um empresário local, que em uma carta para Muriel descreveu como “um tal comandante Thatcher (36 anos de idade, cheio de dinheiro), não muito atraente, muito reservado, mas bastante agradável”. E foi assim que a Dama de Ferro conheceu seu futuro marido.

O autor não acredita que tenha sido amor à primeira vista, mas que a relação foi crescendo. Denis, que sofreu muito com o fracasso de seu primeiro casamento, levou as coisas com calma. Ela ainda esperava que Henderson a pedisse em casamento. Mas, finalmente, foi Denis quem fez isso. Ela não disse “sim” na primeira vez.

“A proposta de Denis foi uma surpresa e veio num momento em que seus sentimentos por Robert Henderson, provavelmente, não estavam resolvidos”, escreve Moore.

Segundo o autor, Margaret o “admirava como um soldado”, e “gostava de ter alguém para compartilhar seus interesses e opiniões políticas e, para ser franco, alguém que tinha um bom emprego e podia pagar um belo apartamento em Chelsea”.

A crise no casamento com Denis

De acordo com o livro, Denis Thatcher, marido da ex-primeira-ministra britânica, não gostava de “qualquer aspecto de ser casado com uma política” e chegou a pensar em divórcio. Em 1964, Denis teve um colapso nervoso devido ao excesso de trabalho que tinha em uma empresa do setor de pintura. Uma situação que o fez refletir sobre a sua vida e seu casamento.

Aparentemente, Denis teria sentido a pressão de administrar o negócio da família para ajudar financeiramente a mãe, a irmã e a tia e, ao mesmo tempo, não queria culpar a carreira política da mulher pela situação que estava atravessando.

De acordo com o depoimento de Carol, filha de Denis e Margaret, os amigos achavam que a obsessão da mãe pela sua carreira deixou o marido em uma situação de isolamento, especialmente, porque não encontrou um papel adequado como marido de uma política.

No final, Denis se recuperou de seus problemas emocionais fazendo uma viagem à África do Sul, onde passou dois meses, e vendeu sua empresa para aliviar a carga de responsabilidade que tinha.

Segundo o jornalista, Thatcher não tinha certeza de que o marido iria na viagem. O casamento dos dois durou mais de 50 anos e foi interrompido pela morte de Denis, em 2003, aos 88 anos de idade.

Relacionamento distante com a mãe e a filha

Sua obsessão por roupas e pela aparência, suas afeições inconstantes em relacionamentos antes do seu casamento, sua ingenuidade de como funcionava o Whitehall - centro administrativo do governo - ao se tornar primeira-ministra e a simplicidade do subúrbio onde a menina de classe média vivia antes de virar política também fazem parte da investigação do jornalista para a biografia da Dama de Ferro. Porém, um tema que se torna constante é a relação entre mãe e filha.

Margaret poderia ser vista como uma garota simples quando jovem. Os gostos literários eram tradicionais e rotineiros: de Shakeaspeare a Kipling. No verão de 1944, ao final da Segunda Guerra Mundial, uma Margaret aos 18 anos escreve para a irmã, Muriel:

“Você acha que quem faz as bolsas poderia me fazer uma de couro marrom em vez desta azul? Eu decidi que marrom seria a melhor cor para o meu guarda-roupa.”

No entanto, não se deve achar que Thatcher era uma pessoa comum. Em momentos de crise, como a guerra travada na Europa, em 1960, e a doença e morte de sua mãe, Beatrice, ela continuou se correspondendo com a família e amigos, porém, não escreveu sobre nenhum dos assuntos.

A frieza de Thatcher com sua mãe, e às vezes, com sua filha, impressiona, sugere o livro.

“Depois que eu fiz 15 anos, não havia mais nada que uma pudesse dizer para a outra”, afirmou Thatcher em entrevista para o jornalista, manifestando, porém, um arrependimento: “Eu não acho que agradeci a minha mãe o suficiente , porque a gente não compreende...”

Moore observa que Thatcher estava “mais feliz quando o foco de atenção era o seu ponto de vista e não seu sexo”, mas há uma abundância de evidências no livro que mostram que ela gostava de ser uma mulher admirada por homens poderosos, igualmente inteligentes.

O primeiro volume publicado abrange o período de seu nascimento até o conflito das Malvinas, em 1982. Outros momentos importantes da vida da ex-primeira-ministra como a greve dos mineiros e a votação do imposto que iria acabar resultando em sua saída do poder, ficaram para o segundo volume.

Um comentário de Thatcher acerca de ser mulher e estar na política foi escrito para o “Liverpool Daily Post” enquanto sua mãe estava extremamente doente. No texto ela afirma que “charme não é suficiente”, mas que deve ser acompanhado de “coragem e convicção, pois sem essas qualidades as outras se tornam vazias e inutéis”. No dia seguinte, Beatriz Thatcher faleceu.

(webremix.info)


Exposição na Alemanha traça paralelo entre apartheid e história da fotografia na África do Sul

Maquiadas, de salto alto e vestidos formais, senhoras permanecem eretas e plácidas, lado a lado. Estáticas, elas seguram cartazes de caligrafia impecável: "Protestamos contra a deprivação de direitos humanos básicos“. "Legal agora mas imoral para sempre“. Seus cabelos são bem penteados, algumas usam chapéus. Todas vestem uma faixa negra cruzando o tronco. Todas têm a pele branca.

As senhoras de elite que nos anos 1950 fundaram o movimento "Black Sash“ ("Faixa Negra“) para protestar contra o apartheid na África do Sul são um entre dezenas de grupos que, a partir de 1948, deram diferentes formas à resistência contra a institucionalização da segregação racial, desde a desobediência civil até os conflitos armados. Junto com eles, uma geração de fotógrafos sul-africanos desenvolveu um olhar sobre o próprio país que antes fora atribuição de holandeses e britânicos, os colonizadores.

A história dessa luta e a história da fotografia sul-africana são inseparáveis, é o que mostra a exposição "Rise and fall of apartheid“ ("Ascenção e queda do apartheid“), em cartaz até 26 de maio na Casa de Arte, em Munique. Em dois mil metros quadrados, mais de 600 fotos, filmes e slides – a maior parte de criadores sul-africanos – percorrem o início da política de Estado do apartheid em 1948, com a eleição do Partido Nacional, até o fim, com a libertação de Nelson Mandela em 1990, quase 28 anos após sua prisão, e sua vitória nas eleições de 1994.

– Temos uma premissa: o que conhecemos hoje como fotografia sul-africana foi inventado em 1948. Antes desse período havia uma representação antropológica dos sul-africanos, dos chamados estudos nativos. A fotografia depois do apartheid teve que inventar o cidadão – diz o historiador de arte Okwui Enwezor, diretor do museu e curador da mostra junto com Rory Bester.

Para inventar o cidadão, fotógrafos sul-africanos retrataram não apenas os movimentos de resistência e protesto, mas também buscaram as rotinas instituídas por leis que usurparam a cidadania dos negros no país. Nos primeiros anos do apartheid, proibiram-se os casamentos interraciais, e a separação de brancos, negros e coulored ("de cor“, mestiços) nas cidades atribuiu à palavra seu significado literal em holandês: separado (apart) e bairro (heid). Se a discriminação racial já existia na estrutura colonial, sua institucionalização como sistema político-jurídico criou um espaço de resistência e tensão social que impulsionou o desenvolvimento de uma nova fotografia no país.

Um dos mais proeminentes fotógrafos do período, Ernest Cole, precisou reinventar a própria identidade para poder se locomover em locais onde os negros precisavam de um passe para entrar. Ele conseguiu ser classificado como "de cor“ e registrou espaços a que não teria acesso. Cole captou o que Enwezor denomina petit apartheid, as normas de segregação inscritas nos signos urbanos, que regulavam a vida em seus aspectos mais banais, determinando quem podia sentar-se num banco, usar o banheiro ou o transporte público.

Outro importante fotógrafo da rotina de segregação é Peter Magubane. É dele a foto da menina branca sentada num banco com a inscrição "Só para europeus“, enquanto sua babá negra a acaricia, porém do outro lado, reservado aos negros. São fotos que lembram o período das leis Jim Crow em estados do Sul dos Estados Unidos, do fim do século XIX aos anos 1960. Com o subtítulo de "Fotografia e a burocracia da vida cotidiana", a exposição quer mostrar o lado rotineiro do apartheid, pouco noticiado pela mídia, que se concentrou nos protestos e conflitos violentos, sobretudo a partir dos anos 1970.

– A mudança do político para o normativo precisa ser discreta, mas a mídia sempre quer algo que seja equivalente ao evento, e no caso a violência era o meio mais impactante para contar as histórias. Isso ofuscou os elementos do apartheid com mais nuances. Na exposição mostramos como algo essencialmente político se tornou normalizado. Apesar de sempre ter havido resistência, foi necessário um grau de normalização social para que o apartheid pudesse funcionar – afirma o curador.

Imagens dos diferentes movimentos de resistência também são um importante núcleo da exposição, como as manifestações cujo símbolo eram polegares levantados. O sinal discreto foi substituído por punhos erguidos à medida que os protestos se tornaram mais agressivos, após o assassinato de 69 pessoas no Massacre de Sharpeville, em 1960, durante um protesto contra a obrigatoriedade do passe para os negros; e sobretudo desde 1976, quando quatro estudantes foram mortos numa manifestação em Soweto. Outros grupos de resistência continuaram com a mesma estratégia do início até o fim do apartheid. Foi o caso da "Faixa Negra“ – que se apropriou da linguagem do sistema, usando a mesma tipografia modernia dos signos urbanos de segregação.

– Aquelas senhoras tinham uma consciência do valor da propaganda, de que sua representação tinha que funcionar para se contrapor à função comunicativa do apartheid. Tinham uma atuação coreografada, num gesto de não violência e confronto passivo – diz Enwezor, curador da documenta de Kassel de 2002 e ex-curador adjunto do Centro Internacional de Fotografia, por onde a mostra já passou.

Em seu texto no catálogo, Enwezor faz uma divisão de abordagens dos fotógrafos sul-africanos da época: havia os que usavam a fotografia como instrumento de transformação política e os que percebiam a imagem como meio de análise social. O próprio curador reconhece, porém, que a crítica do sistema é um elemento central em fotógrafos emblemáticos como David Goldblatt, cujas imagens quase abstratas simbolizam segregação e abandono. A mostra traz ainda obras de artistas que também usaram fotos relacionadas ao apartheid, seja de forma sutil, como o sul-africano William Kentridge, ou irônica, como o alemão Hans Haacke, que se apropriou de propagandas de empresas com negócios na África do Sul.

Apesar de se concentrar na luta antiapartheid, a exposição reúne alguns retratos da elite da sociedade sul-africana, como as fotos da americana Margaret Bourke-White, e dos movimentos nacionalistas brancos que se intensificaram nos últimos anos de aparhteid. Porém, segundo Enwezor, a maior parte das imagens do universo pró-apartheid não se destaca pela qualidade fotográfica, e sim pela informação histórica:

– Era a imagem da civilidade, do liberalismo em face de políticas não liberais.

Grande parte dessas imagens faz parte do Arquivo Nacional da África do Sul, que pertencia ao antigo Ministério da Informação. Em oito anos de pesquisa, Okwui Enwezor e Rory Bester vasculharam ainda os arquivos da revista "Drum“, do coletivo de fotógrafos Afropix, do Museu da África e da Galeria de Arte de Johanesburgo e do Mayibuyi, arquivo da Universidade do Cabo Ocidental, com mais de meio milhão de imagens sobre o período. Para além dos registros históricos, o curador quis ainda deixar uma espécie de epílogo sobre a recepção desse legado histórico e fotográfico pelas novas gerações, com imagens de 2010, 2011 e 2012.

– Fotógrafos como Thabiso Sekgala e Sabelo Mlangeni têm um estilo e formato influenciado por David Goldblatt, com uma certa distância crítica e interesse por cidades pequenas despovoadas – afirma.

Por fim, um banner sintetiza a extensa luta de resistência, reprimida e reativada, como se vê no longo percurso da exposição. Refeito pelo Centro de Reencenações Históricas, em Johanesburgo, a partir de uma fotografia de um protesto em 1985, que teve 25 mortos, ele diz: "They will never kill us all“ ("Eles nunca matarão todos nós“).

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Número de pedidos de refúgio aumenta 254% no Brasil em três anos

BRASÍLIA — O Brasil é um país que recebe cada vez mais pedidos de refúgio, mas a maioria continua sendo indeferida pelo governo brasileiro. O número de solicitações cresceu 254% entre 2010 e 2012, e 76,4% entre 2011 e 2012. Pela legislação nacional, pode pedir refúgio quem sofre perseguição motivada por raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas, ou quem vive em países onde há grave e generalizada violação de direitos humanos, caso de uma guerra. Isso exclui, por exemplo, os haitianos, que vêm ao Brasil por motivos econômicos.

Em 2012, houve 2.008 solicitações de refúgio, das quais 823 foram apreciadas pelo Comitê Nacional para os Refugiados (Conare). Dos pedidos apreciados, 596 foram indeferidos, 199 foram aceitos, e 28 — que não atendem o critério para o reconhecimento de refúgio, mas que necessitam de proteção humanitária — encaminhados para o Conselho Nacional de Imigração (CNIg). Em 2010, foram 566 solicitações, das quais 299 foram analisadas pelo Conare. Dessas, 167 foram indeferidas, 118 aceitas e 14 encaminhadas para o CNIg. Em 2011, das 1.138 solicitações, 426 foram analisadas, mas apenas 89 foram aprovadas. Para 2013, o Conare estima que haverá 2.580 novas solicitações.

Atualmente vivem no país 4.262 pessoas com status de refugiado, em geral provenientes da América Latina e da África. Os principais grupos são os angolanos (1.060), colombianos (738), congoleses (570), iraquianos (214), liberianos (211) e sírios (138). Esses números devem mudar porque, além dos novos pedidos de refúgio ainda sendo analisados, os angolanos e liberianos serão excluídos da lista. Seus países de origem não sofrem mais com conflitos e não dão motivos para a concessão de refúgio. Mas, como em geral vivem há muitos anos no Brasil, eles estão sendo notificados e poderão, se quiserem, receber um visto de residência permanente. A partir do ano passado, os sírios passaram a se destacar, em função da guerra civil pela qual o país passa.

O representante do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) no Brasil, Andrés Ramirez, diz que o Brasil tem duas características históricas que o tornam mais propício a receber estrangeiros. Uma delas é o grande número de imigrantes que vieram para o país. A segunda é experiência da ditadura militar, que levou brasileiros a outros países, ajudando a fazê-los entender a situação de pessoas que têm que deixar sua terra. Quanto ao crescimento recente do número de pedidos de refúgio, ele disse:

— Claramente tem que considerar o crescimento que o país tem tido nos últimos anos e a boa imagem do país no cenário internacional. Isso ajuda a entender porque está aumentando de um jeito expressivo o número de solicitantes. Mas em comparação com outras regiões do mundo, ainda são números modestos.

O secretário nacional de Justiça e presidente do Conare, Paulo Abrão, afirmou que a economia ajuda a explicar os números, mas não diz tudo.

— O fenômeno econômico não consegue explicar tudo. Existem outros países em crescimento econômico, mas não atraem imigrantes. Temos que agregar na análise, para além das questões econômicas, o fato de termos hoje maior integração regional, o fato de termos hoje um número recorde de investimento direto estrangeiro. Temos que agregar um elemento cultural: o fato de sermos tradicionalmente um país receptivo, aberto, democrático, plural, que rejeita a xenofobia. E há os aspectos de ordem política, com uma maior inserção do Brasil nos foros internacionais e a vinda de grandes eventos, que fazem as pessoas enxergarem o Brasil como uma terra de oportunidade.

Entre os solicitantes de refúgio, predominam os homens (82%). Também são majoritariamente adultos (92%). Por região, eles buscam refúgio principalmente no Sudeste (66% do total), seguido de Centro-Oeste (16%), Norte (11%), Sul (6%) e Nordeste (1%). A maioria dos casos está em São Paulo (45%), seguido de Rio de Janeiro (20%) e Distrito Federal (14%).

Abrão explica que a negação do pedido de refúgio não significa necessariamente a expulsão do estrangeiro do Brasil. Nesses casos, eles podem buscar outros órgãos governamentais para conseguir algum outro tipo de visto. O Brasil, por exemplo, é um dos poucos países que deixam o solicitante do refúgio trabalhar, antes mesmo de seu pedido ser apreciado. E o emprego é um dos critérios que levam à concessão de visto por outras formas.

— As pessoas que têm seu pedido de refúgio indeferido são notificadas a deixar o país em oito dias. Mas pode ser que elas se enquadrem em outras hipóteses de concessão de visto: se já têm trabalho, mais de quatro anos de residência. Acontece muito isso, eles se enquadram em outras hipóteses que extrapolam o Conare — disse Abrão.

Houve também um aumento também no número de refugiados reassentados, ou seja, pessoas que antes de chegar ao Brasil já tinham recebido refúgio em outros países. Foram 28 em 2010, 25 em 2011, e 39 no ano passado. Segundo o presidente do Conare da Argentina, Federico Augusti, apenas 30 países fazem o reassentamento, entre eles o Brasil e a Argentina.

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Funeral de Thatcher será encontro de líderes sobreviventes da Guerra Fria

LONDRES — Enquanto muitos líderes atuais escolheram não participar do funeral de Margareth Thatcher, o velório deve ser o último encontro dos mais velhos estadistas do tempo em que o Muro de Berlim ainda existia. A segurança da cerimônia será aumentada em resposta ao ataque terrorista ocorrido na maratona de Boston na segunda-feira, segundo a Scotland Yard.

Barack Obama será representado pelo Secretário de Estado do ex-presidente Ronald Reagan, George Shultz, e o seu chefe de gabinete, James Baker, ambos contemporâneos de Thatcher. Além disso, o mais famoso Secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger, também aceitou o convite, assim como o ex-vice-presidente americano Dick Cheney, que foi Secretário de Defesa nos anos finais do governo da Dama de Ferro na Inglaterra. Os conservadores expressaram irritação com o fato de que ninguém do governo Obama compareça ao funeral.

O último presidente da África do Sul antes do apartheid, F.W. de Clerk, também estará em Londres, assim como, o primeiro-ministro do Canadá da segunda metade da década de 1980, Brian Mulroney.

A Guerra Fria na Europa terá sua história representada também pelo ex-presidente da Polônia, Lech Walesa, um dos poucos sindicalistas que tiveram a admiração de Thatcher, e Vaclav Klaus, o ex-presidente da República Tcheca. Do Reino Unido, todos os secretários ainda vivos do governo Thatcher são esperados.

Porém os líderes estrangeiros atuais serão bem menos representados. Apenas dois chefes de Estados e onze que servem o primeiro-ministro irão comparecer. Talvez uma lembrança do difícil relacionamento da Dama de Ferro com a Commonwealth.

No total, 170 países estão enviando representantes para o funeral, com exceções do Irã, Coreia do Norte e Argentina. O embaixador da Argentina em Londres rejeitou o convite após o cerimonial não estender o mesmo à presidente Cristina Kirchner.

Liam Fox, ex-secretário de Defesa da Inglaterra, comentou, na terça-feira, a ausência de Obama no velório. A expectativa era pela possível ida da Secretária de Estado, Hillary Clinton, uma das primeiras convidadas, mas ela também recusou.

- Eu acho que muita gente vai ficar desapontada e surpresa, dada a forma como o presidente Barack Obama elogiou Thatcher, mas ninguém (de seu governo) vai estar lá - disse Fox.

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James Bond atua 'Solo' em novo livro de William Boyd

LONDRES - O romance mais recente de James Bond será intitulado "Solo" e trará o espião mais famoso do mundo em uma missão não autorizada, no auge da Guerra Fria, disse o autor do livro nesta segunda-feira. O enredo se passa na África, mas se estende à Europa e aos Estados Unidos, enquanto revela uma versão realista de Bond, de 45 anos, baseada na riqueza de detalhes biográficos retirados dos romances originais de Ian Fleming, disse o autor britânico William Boyd.

"Eventos conspiram para fazer Bond sair em uma missão autodesignada, sem aviso prévio e sem qualquer autorização. E ele está totalmente preparado para assumir as consequências de sua audácia", afirmou Boyd. "Ele sai em uma missão real para países reais e o mundo em que ele está é 1969. Não há truques, é uma história de espionagem real. Há uma razão muito precisa pela qual eu escolhi esse ano", acrescentou Boyd, sem fazer mais comentários.

"Solo" será publicado na Grã-Bretanha em 26 de setembro pela Jonathan Cape, a editora original de Fleming, e estará disponível nos EUA e no Canadá pela HarperCollins, subsidiária da News Corp, a partir de 8 de outubro. Embora sublinhando a influência duradoura do trabalho de Fleming, Boyd descreveu "Solo" como um de seus livros que, por acaso, tem Bond como personagem.

A versão cinematográfica do espião continua a ser um sucesso de bilheteria, com "Skyfall" tornando-se o primeiro filme oficial de Bond a arrecadar US$ 1 bilhão em ingressos após seu lançamento no ano passado. Boyd deve agradar os fãs dos romances originais, não apenas porque ele já tem dois de espionagem em seu nome, mas também porque ele pesquisou o personagem e seu criador meticulosamente.

"Bond não é apenas um super-herói. Ele tem defeitos, ele tem fraquezas, ele comete erros. Isso foi a genialidade de Fleming", disse Boyd na Feira do Livro de Londres. "Eu estou interessado no homem, no ser humano. Eu tive que inventar um vilão e diversos antagonistas. Tive que criar duas mulheres muito interessantes para ele conhecer e ter um relacionamento. Tive que povoar o mundo com criaturas da minha imaginação, não apenas as que Fleming tinha."

Fleming escreveu seu primeiro romance de Bond, "Casino Royale", em 1953, e escreveu mais 13 antes de morrer 11 anos depois, aos 56 anos. Mas, para manter a marca literária de James Bond viva, o responsável por seu patrimônio convidou vários autores para continuar a história. O catálogo Bond é um dos mais apreciados no mercado editorial, com vendas globais de mais de 100 milhões de cópias. Mais recentemente, o escritor de suspenses norte-americano Jeffery Deaver escreveu "Carte Blanche", em 2011, e o romancista Sebastian Faulks escreveu "Devil may care" para marcar o aniversário de 100 anos de Fleming, em 2008.

Boyd ganhou aclamação por escrever páginas com enredos complexos, muitas vezes passados em ambientes históricos, desde a África Oriental da era da Primeira Guerra Mundial até a Los Angeles de 1936. Quando lhe pediram para continuar a série de Bond, em 2011, Boyd disse que imediatamente aproveitou a oportunidade. "É bastante divertido, mas você tem que levar muito, muito a sério."

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Investigador não acredita que deflagre uma guerra entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul

Luis Mah, investigador no Centro de Estudos sobre África e do Desenvolvimento no Instituto Superior de Economia e Gestão em Lisboa e professor auxiliar convidado no Instituto de Estudos Orientais da Universidade Católica, indica que "apesar do comportamento parecer ser um pouco mais agressivo segue o padrão do passado", no entanto, alerta que se trata de uma situação muito delicada porque tanto a Coreia do Norte como a Coreia do Sul têm novas lideranças e a presidência Obama acaba de ser reeleita, e finaliza dizendo, "que nunca se sabe o que vai na cabeça da Coreia do Norte". (webremix.info)


Mandela teve domingo tranquilo no hospital, diz comunicado do governo

JOHANNESBURGO — O ex-presidente Nelson Mandela, de 94 anos, teve um domingo tranquilo no hospital e apresenta melhora no tratamento contra a pneumonia, de acordo com comunicado divulgado pelo governo sul-africano. Mandela, líder do movimento anti-apartheid e primeiro presidente negro da história do país, está internado com problemas pulmonares desde a noite de quarta-feira. No sábado ele chegou a passar por um procedimento médico para drenagem de fluidos na pleura, a membrana que reveste os pulmões. Segundo a nota,em nome do presidente Jacob Zuma, os médicos relataram uma melhora nas condições de saúde de Mandela. Zuma afirma ainda que o Madiba, como Mandela é chamado pelos sul-africanos, está recebendo os melhores cuidados médicos possíveis.

“O Presidente Zuma agradece aos milhares de sul-africanos que oraram por Madiba em várias cerimônias de Páscoa nas igrejas durante o final de semana”, informa o comunicado, que publica uma declaração de Zuma:

- Agradecemos também a todas as pessoas em casa e em todo o mundo que continuam a manter Madiba e sua família em seus pensamentos e demonstram seu amor por ele de tantas maneiras. Agradecemos ainda a governos estrangeiros pelas mensagens de apoio.

As primeiras informações, sem confirmação do governo, davam conta de que o ex-presidente estava internado no hospital militar de Pretoria. Neste domingo, repórteres flagraram o carro da mulher de Mandela, Graça Machel, entrando no estacionamento de um hospital particular da cidade. No sábado, ela estava em Moçambique, seu país, e voltou para acompanhar o tratamento do marido. Na casa dos Mandela, com alta segurança militar, alguns repórteres se revezavam durante o dia em busca de mais notícias.

Neste domingo, os sul-africanos rezaram por Madiba em diversas igrejas do país durante a celebração da Páscoa. O problema de saúde do sul-africano também era motivo de conversas entre turistas e sul-africanos nos pontos turísticos de Joanesburgo e de Soweto, o antigo bairro, hoje município, onde os negros sul-africanos foram segregados e que serviu de cenário para sangrentos conflitos com o governo do apartheid.

A informação sobre a pneumonia só foi transmitida pelo governo sul-africano no sábado, depois de três dias de internação. Até então, os comunicados davam conta de que se tratava, genericamente, de uma infecção pulmonar e de que Madiba estava melhorando progressivamente. Mandela tem recorrentes problemas pulmonares desde que contraiu tuberculose quando esteve preso pelo regime do apartheid em Robben Island. Em dezembro passado, ele foi internado com problemas pulmonares e, no início deste mês, internou-se outra vez para exames no pulmão.

“Um pouco de Mandela em cada um”

O atual porta-voz da Presidência, Mac Maharaj, que tem se encarregado de informação a imprensa sobre a saúde de Mandela, é amigo de longa data do ex-presidente. Ele esteve preso com Madiba em Robben Island, onde o líder sul-africano acabou contraindo tuberculose, o que lhe rendeu graves problemas respiratórios. Foi Mac Maharaj quem levou, da prisão, o diário de Mandela para ser publicado (“Longa caminhada até a liberdade”). É um dos autores da biografia autorizada do líder sul-africano (“Mandela: The Authorized Portrait”).

- Mandela representa a esperança para o mundo todo. Jovens e velhos, ricos e pobres. Há um pouco de Mandela em cada um de nós. Sua vida nos mostra que cada um de nós pode, de diversas maneiras, fazer a diferença, assim como Mandela fez tamanha diferença para o mundo em que vivemos. Ele nos mostra que nós, individual e coletivamente, podemos ser pessoas melhores_ disse Maharaj em entrevista por email ao GLOBO.

O porta-voz afirmou que a influência de Mandela tanto da África do Sul quanto dos outros países é “mostrar que a política deve ser e é sobre servir ao povo”:

- Sua influência continua e continuará a moldar nossas vidas, mesmo ele tendo se retirado da vida pública. Sua maior contribuição foi mostrar que cada um de nós, como indivíduos e como povo, enriquece a qualidade de nossas vidas nos guiando sobre as bases de que nós compartilhamos o mundo com os outros e que devemos garantir que o que fazemos melhora a vida de todos, bem como a nossa.

Sobre a repercussão do estado de saúde de Mandela e as mensagens que os chefes de Estado têm enviado à África do Sul, como o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, Maharaj concluiu:

- Essas mensagens revelam como todos os líderes tiram inspiração na vida de Mandela.

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Papa faz apelo apaixonado por paz na Síria em mensagem de Páscoa

VATICANO - O Papa Francisco fez um discurso apaixonado no primeiro Domingo de Páscoa de seu pontificado. Ele usou seu “Urbi et Orbi” (à cidade e ao mundo) para pedir a paz na África, na Ásia e no Oriente Médio e, acima de tudo, “na querida Síria”. Segundo o Vaticano, cerca de 250 mil fiéis e peregrinos de todas as partes do mundo foram à Praça de São Pedro para celebrar a ressurreição de Cristo na presença do novo Pontífice, o argentino Jorge Bergoglio.

- Cristo é a nossa paz e por meio dele nós imploramos pela paz no mundo - disse.

Após uma noite chuvosa, Roma amanheceu com um céu azul entremeado por nuvens. A praça foi tomada por fiéis, facilmente identificados pelas cores de bandeiras. O azul celeste da bandeira argentina era predominante, mas também chamava a atenção o verde das bandeiras do Brasil, o amarelo e branco do Vaticano e o mar de 40 mil flores que decoraram a Praça de São Pedro.

Em seu discurso, o Papa Francisco começou com um simples “Feliz Páscoa!”. Destacando a humildade, ele continuou:

- Cristo ressuscitou. Que alegria é para mim a anunciar esta mensagem ... eu gostaria de vê-la em toda casa e em toda família, especialmente onde o sofrimento é maior, nos hospitais, nas prisões - afirmou. - Nós pedimos a Jesus ressuscitado, que transformou a morte em vida, que transforme o ódio em amor, a vingança em perdão, a guerra em paz.

Com destaque para a Síria, que entra no terceiro ano de conflito, o líder máximo da Igreja Católica mencionou regiões do mundo que se tornaram palco de guerra.

- Paz para o Oriente Médio, e particularmente entre israelenses e palestinos, que lutam para encontrar o caminho de um acordo, para que com coragem retomem as negociações para acabar com um conflito que já dura muito tempo...paz no Iraque, que todo ato de violência acabe e, acima de tudo, para a querida Síria, para o seu povo dilacerado por conflitos e para os refugiados que esperam ajuda e conforto.

Em relação ao conflito das Coreias, que atingiu tensão máxima neste final de semana com a declaração de “estado de guerra” da Coreia do Norte, o Pontífice pediu “que as divergências sejam superadas e que um renovado espírito de reconciliação cresça”. Sobre a África, o Papa se referiu ao Mali, à Nigéria, à República Democrática do Congo e à República Centro-Africana.

Ao final do discurso, Francisco chamou a atenção para o egoísmo que, segundo ele, ameaça a vida humana e das famílias, e também para o tráfico de pessoas, “a forma mais extensa da escravidão no século XXI”.

A cerimônia começou às 10h15m (locais) com o rito do “Ressurexit”, isto é, o anúncio da ressurreição de Cristo. O Papa borrifou a água da fonte batismal nas pessoas que estavam próximas ao altar. Neste ano houve uma simplificação da cerimônia, com o Evangelho sendo lido somente em latim, e não em grego e latim, como ocorre geralmente.

A mensagem de Páscoa encerra os ritos da Semana Santa, a primeira do Papa argentino, que nesta segunda-feira voltará à Praça de São Pedro para rezar a Regina Coeli, que substitui o Ângelus em tempos de Páscoa.

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Assad pede ajuda aos Brics contra ‘terroristas’ na Síria

DAMASCO - Cada vez mais isolado, o ditador Bashar al-Assad fez um apelo nesta quarta-feira aos cinco membros dos Brics para que ajudem a acabar com os dois anos de guerra na Síria. Em uma carta, também publicada pela mídia estatal síria, Assad afirmou que seu país é vítima de “atos de terrorismo, apoiados por nações árabes, regionais e ocidentais”.

O único integrante a comentar o caso sírio foi a Rússia - ao lado do Irã, única parceira que restou ao regime de Damasco. Mas a diplomacia russa limitou-se a criticar a Liga Árabe por ter reconhecido a opositora Coalizão Nacional Síria (CNS) como representante legítima do país.

- As decisões adotadas pela Liga Árabe são ilegais em termos da lei internacional. Estamos falando em incentivar abertamente o uso da força e apostar numa solução militar sem olhar para a dor e o sofrimento dos sírios - condenou o porta-voz da Chancelaria, Aleksandr Lukashevich.

O apelo vem no momento em que Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul estão reunidos em Durban, e um dia depois de a Liga Árabe permitir que a coalizão opositora síria assumisse a cadeira do país na organização - uma medida que foi duramente criticada pelo governo sírio nesta quarta-feira.

Assad pede na mensagem que os líderes das cinco nações “trabalhem pelo fim imediato da violência, de forma a garantir o sucesso de uma solução política” para o conflito sírio. “Isso requer a clara vontade internacional para secar as fontes do terrorismo e deter seu financiamento e armamento”, diz o texto. O ditador criticou as sanções europeias e americanas impostas ao país e pediu aos Brics que “exerçam toda a influência possível para aliviar o sofrimento do povo sírio”.

Na reunião na cidade sul-africana de Durban, Jacob Zuma e Vladimir Putin foram perguntados se a África do Sul e a Rússia usariam suas influências para persuadir Assad a permitir o acesso de ajuda humanitária à população. O presidente da África do Sul ignorou a pergunta, enquanto Putin disse que pensaria a respeito.

- Vamos trabalhar por uma solução pacífica para o conflito - dissera Putin mais cedo.

A carta de Assad foi enviada diretamente ao anfitrião da cúpula de Durban, o presidente sul-africano, Jacob Zuma. Em trechos divulgados pela agência estatal síria, o documento diz que os Brics “se tornaram uma esperança para o povo sírio oprimido que sofre devido à ingerência externa”.

“Vocês, com todo o seu enorme peso político, econômico e cultural, representam os que querem consolidar a paz, a segurança e a justiça no complicado mundo de hoje. Peço aos líderes dos Brics para trabalharmos juntos a fim de deter imediatamente a violência na Síria e garantir o sucesso de uma solução política”, escreveu Assad.

Segundo fontes diplomáticas, a carta, recebida por Zuma, não foi retransmitida aos demais líderes, que não chegaram a discuti-la ou dar uma resposta - embora o bloco tenha mencionado a crise síria vagamente no documento final da conferência.

“Expressamos nossa profunda preocupação com a deterioração da situação humanitária e de segurança da Síria e condenamos o aumento das violações de direitos humanos e da lei internacional como resultado da violência contínua”, diz o texto.

Duras críticas ao emir do Qatar

A ascensão da oposição na reunião da Liga Árabe no Qatar destaca o crescente isolamento do regime, após um conflito que já deixou mais de 70 mil mortos. Damasco afirmou nesta quarta que a organização comprometeu seus valores ao darem a cadeira síria a um grupo “deformado”.

“O emir do Qatar, o maior banco de apoio ao terrorismo na região, começou sua presidência na Liga Árabe sequestrando-a, com óleo maculado e dinheiro”, disse um comunicado da agência estatal Sana. “(O xeque Hamad bin Khalifa al-Thani) cometeu uma flagrante violação do acordo da Liga ao convidar um órgão deformado, a ‘Coalizão de Doha’, a usurpar a cadeira síria.”

O Qatar tem financiado grupos opositores e, de acordo com informações não confirmadas, estaria enviando também armas aos rebeldes. O país permitiu ainda que a coalizão opositora abrisse, nesta quarta-feira, sua primeira representação diplomática em um país.

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A importância da ponte entre Israel e Turquia

A normalização das relações diplomáticas entre Israel e a Turquia foi um dos resultados concretos do giro de Barack Obama pelo Oriente Médio. O presidente americano conseguiu que o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, telefonasse ao premier turco, Tayyip Erdogan, desculpando-se pela ação de forças do Estado judeu em 2010, em que morreram oito ativistas turcos que tentaram furar o bloqueio marítimo israelense à Faixa de Gaza. Em consequência, a Turquia rompeu as boas relações que mantinha com Israel.

No pano de fundo desta operação diplomática está a guerra civil na Síria. Para os EUA, é necessário desembaraçar de contenciosos as ações pelo fim da ditadura de Bashar Assad. Para a Turquia, é vital exercer plenamente sua influência na região. Para Israel, é bom ter trânsito livre com o governo turco, quando ainda não sabe como evoluirá o conflito sírio nem como será o dia seguinte à provável queda de Assad.

Quem destampou a panela de pressão, em 2003, foram os EUA, com a invasão do Iraque. Com a queda de Saddam, a maioria xiita, reprimida pelo ditador, chegou ao poder e a minoria sunita, até então dominante, perdeu espaço. Isto acirrou a disputa entre as duas vertentes do Islã no Oriente Médio, onde predominam os sunitas. O fortalecimento do xiismo no Iraque acabou ajudando o regime xiita do Irã, o grande inimigo americano na região.

A Primavera Árabe destampou outros caldeirões. Depois de passar por Tunísia, Egito, Iêmen e Líbia, desembocou na Síria, onde ocorre algo parecido com o Iraque: a minoria alauíta (próxima aos xiitas) domina a maioria sunita. O conflito eclodiu há dois anos e já fez mais de 70 mil mortos e 1,2 milhão de refugiados. Os que combatem Assad são grupos apoiados por EUA, UE, Arábia Saudita e Turquia. Assad conta com o respaldo de Irã e Rússia. A lamentar: os dois lados matam civis. O fluxo de armamentos na região é intenso. Segundo o “New York Times”, a CIA ajuda governos árabes a armar os rebeldes sírios, com mais de 160 voos de Jordânia, Arábia Saudita e Qatar para a Turquia, de onde as armas seguem por terra para a Síria. Rússia e Irã usam o espaço aéreo do Iraque para fazer chegar armas às forças de Assad.

Este, em desespero, pode recorrer a armas químicas, o que obrigaria a uma intervenção internacional. Dos escombros da Síria pode também emergir uma frente de radicais islâmicos que já lutaram em Afeganistão, Iraque e Líbia, e com amplos contatos com a al-Qaeda no Oriente Médio e Norte da África, prontos para fazer estragos. Não se deve desprezar, ainda, a hipótese de Assad e o Irã ordenarem ao aliado Hezbollah abrir uma frente de luta contra Israel, apostando no “quanto pior, melhor”. Nesse contexto, a ponte diplomática entre Israel e Turquia representa um importante elemento estabilizador para o pós-Assad.

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Brics se reúnem em clima mais complicado para emergentes

Os países do grupo Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) começam nesta terça-feira, na cidade sul-africana de Durban, sua quinta reunião de cúpula em um momento econômico relativamente mais complicado para esse clube de emergentes do que os quatro encontros anteriores, que foram marcados por uma grande euforia e otimismo."Se até a última cúpula muitos ainda acreditavam que esses países sairiam da crise econômica global ilesos, ou como seus grandes vencedores, agora, com a economia chinesa desacelerando e o Brasil crescendo menos que os Estados Unidos, essa certeza parece ter acabado", ressaltou, em entrevista à BBC Brasil, Oliver Stuenkel, especialista em Brics da Fundação Getúlio Vargas que participou de uma série de debates acadêmicos que precederam o encontro em Durban.Isso não quer dizer, porém, que o clima da reunião será de fim de festa. Segundo analistas, tal desilusão na realidade aumenta a pressão para que os líderes desses países consigam fazer avanços concretos em um duplo desafio estabelecido pelo grupo desde sua primeira cúpula, em 2009. De um lado, eles precisam consolidar o Brics como uma entidade política. Do outro, aumentar a cooperação econômica e oportunidades de negócios entre seus integrantes."Se conseguirem adotar medidas significativas para avançar na coordenação política e econômica, esses países estarão mostrando que têm um projeto conjunto no longo prazo, independentemente dos dados do PIB de cada um deles", diz Stuenkel."Até agora, apesar de toda a retórica, esses países não chegaram a nada de concreto em termos de articulação política, mas o encontro de Durban pode mesmo ser decisivo nesse sentido", concorda Jim O'Neill, que em 2001 criou o termo Bric (o S da Africa do Sul foi adicionado depois) para designar as nações emergentes que por volta de 2040 teriam o mesmo peso econômico dos países desenvolvidos."Se esses líderes conseguirem fazer o Banco dos Brics deslanchar, por exemplo, terão dado um grande passo para mostrar que estão mesmo dispostos a ampliar sua voz no sistema de governança econômica global", completa o economista. "Esse pode ser o Banco Mundial dos emergentes", diz.TemasA proposta para o Banco dos Brics foi feita no encontro passado, em Nova Déli. Seu objetivo é estabelecer um banco multilateral que possa financiar projetos conjuntos na área de desenvolvimento, criação de infraestrutura e trocas comerciais.Em 2012, ministros de economia e finanças dos cinco países foram encarregados de estudar a viabilidade e possíveis configurações da nova instituição financeira. Agora, o desafio é fazê-la sair do papel, chegando a um acordo sobre sua estrutura, recursos e práticas.Diplomatas estimam que cada país poderia contribuir com US$ 10 bilhões para esse banco, o que lhe garantiria um total de US$ 50 bilhões de capital inicial. Ainda não está claro, porém, de que forma o dinheiro seria distribuído, nem qual seria a sede da nova organização.Além do Banco dos Brics, outro tema que deve estar sobre a mesa no encontro de Durban segundo informações de especialistas e diplomatas brasileiros, é a criação de um fundo de reservas conjunto.Se o Banco dos Brics poderia ser uma espécie de Banco Mundial dos emergentes, como definiu O'Neill, a princípio a ideia é que esse fundo funcione como um FMI do grupo - socorrendo países em apuros financeiros.Mecanismos de facilitação de comércio e cooperação econômica, como a possibilidade do uso de moedas locais em investimentos e trocas comerciais entre países do Brics, também devem ser debatidos, tendo em vista a crescente interdependência desses países - em especial com a China, que é hoje o principal parceiro comercial do Brasil, da Índia e da Rússia e mantém um estoque de US$ 20 a US$ 40 bilhões em investimentos externos diretos na África.Segundo o sul-africano Standard Bank, por exemplo, nos últimos dez anos o comércio intra-Brics cresceu mais de dez vezes, de US$ 28 bilhões, em 2002, para US$ 310 bilhões, no ano passado.Por fim, por este se tratar do primeiro encontro dos Brics no continente africano, a relação dos emergentes com a África também foi definida como um tema prioritário - embora esta seja uma área em que os cinco países muitas vezes competem.Os Brics também pretendem lançar durante essa cúpula um fórum permanente de diálogo empresarial e um think tank para discutir problemas conjuntos e estratégias de cooperação.HistóriaO termo Bric foi criado por O'Neill em 2001 como um instrumento de análise financeira. O "S" de África do Sul (em inglês) não foi incluído no acrônimo inicialmente e até hoje o próprio O'Neill diz não ver argumentos econômicos que justifiquem tal inclusão.A população sul-africana representa um quarto da brasileira, ou o equivalente à população de uma Província chinesa, e o país ocupa apenas a 26ª posição no ranking das maiores economias do mundo, enquanto a China ocupa a 2ª , o Brasil a 6ª ou 7ª (de acordo com diferentes cálculos), a Rússia a 9ª e a Índia a 10ª."Percebi que esses quatro Bric eram países com grandes populações, governos dispostos a integrá-los no mercado global e um nível de crescimento substancial, então me pareceu claro que no futuro ganhariam mais peso na economia mundial", conta O'Neil, explicando o que lhe inspirou para criar o acrônimo.O termo não demorou para se popularizar. Bancos de investimentos criaram carteiras para os Bric e departamentos para analisar seu crescimento e universidades em todo o globo abriram centros de estudos para comparar os quatro países e acompanhar sua trajetória.Foi por volta de 2007, porém, que autoridades e líderes dos Bric perceberam a possibilidade de explorar politicamente o fenômeno - reunindo-se pela primeira vez durante um encontro internacional em Nova York. A primeira reunião de cúpula dos Bric ocorreu em 2009 na Rússia e deixou claro qual seria a bandeira do grupo: a luta pela reforma e democratização do sistema político e econômico internacional.Países emergentes reclamam da falta de representatividade em instituições como o FMI, o Banco Mundial e o Conselho de segurança da ONU (no caso de Brasil, Índia e África do Sul). Eles argumentam que essas entidades e todo o sistema de governança internacional criado no pós-2ª Guerra estão ultrapassados e devem ser alterados para refletir a nova realidade, em que há mais centros de poder político e econômico globais.DivergênciasO problema é que se a reivindicação de reformas no sistema internacional é comum, o mesmo não pode ser dito sobre a forma como cada país acredita que essa reforma deva ser implementada.Os Brics são divididos por diferentes agendas, interesses, valores e realidades nacionais, o que, na prática, dificulta sua articulação política e fortalecimento como um bloco alternativo ao dos países desenvolvidos.China e Rússia, por exemplo, já são membros do Conselho de Segurança da ONU e nunca manifestaram apoio a uma ampliação do órgão. Afinal, é mais vantajoso fazer parte de um seleto clube com cinco membros do que de um com oito ou nove integrantes.Os Brics também nunca conseguiram chegar a um consenso sobre a indicação de representantes comuns para a chefia de organizações como OMC, Banco Mundial e FMI. Para completar, não há consenso nas negociações sobre comércio - com alguns países adotando posturas mais protecionistas que outros em temas específicos."Ninguém espera que de repente os Brics comecem a falar com uma única voz, mas as mudanças que estão por trás da formação do grupo são sólidas e devem de fato mudar a ordem mundial nos próximos anos", acredita Marcos Troyjo, diretor do centro de estudos sobre os Bric da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos."Apesar das divergências, a tendência é que os Brics consigam avançar aos poucos na coordenação política em alguns temas e que ampliem a cooperação para a superação de desafios comuns na área de saúde, segurança e energia, por exemplo",... 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Compra-se terra em busca de água

RIO - Pense no Vaticano, menor país do mundo que concentrou olhares durante o conclave que elegeu o novo papa argentino. Agora imagine a micronação multiplicada por 100 mil. O resultado se aproximará da área total do território brasileiro que, longe dos holofotes, já está hoje documentada em nome de outros governos ou corporações estrangeiras — 4,5 milhões de hectares, segundo o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Na maioria dos casos, são áreas ricas em água e que garantem alta produtividade. Em outras palavras, importantes reservas para um futuro onde o recurso se torna cada vez mais escasso.

O dado em si já suscita um estranhamento. Faltam informações atualizadas, já que esses números datam de 2011, e são os últimos disponíveis. Mas o problema, que vem gerando polêmica nos últimos anos, pode ser ainda maior. É o que sugere um estudo lançado no início deste ano na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States (PNAS). De acordo com a pesquisa, o Brasil está entre os 24 principais países cujas terras têm sido alvo de um fenômeno chamado de “land grabbing”. O significado da expressão vem sendo discutido no mundo todo, mas foi adotado pelos autores do estudo como transferências de terra de comunidades locais para investidores estrangeiros, em contratos de venda ou arrendamento envolvendo mais de 200 hectares. Trata-se de áreas vendidas ou arrendadas para estrangeiros, sem as devidas consultas públicas às populações que tradicionalmente ocupavam os espaços.

Segundo o estudo, intitulado “Global land and water grabbing” (Terra e água arrendadas globalmente, em tradução livre), 2,25 milhões de hectares fazem parte de acordos de compra e venda de terra no Brasil, quase a metade da área total na mão de outros governos ou corporações de outras nacionalidades mapeada pelo Incra. À primeira vista, pode parecer que o assunto principal são as terras em si. Mas, para os pesquisadores, o mais sério sequer é dito ou contabilizado nas transações. Trata-se da concessão para uso de um bem que ganha cada vez mais valor, tanto social, quanto econômico — a água. Fato que tem passado ao largo das discussões nos países afetados, segundo a coordenadora da pesquisa, a italiana Maria Cristina Rulli:

— A corrida por terras agricultáveis está associada com a apropriação de água doce. A produção agrícola é completamente dependente desse recurso. Mas os países precisam se dar conta do fenômeno, porque ele está relacionado com segurança alimentar. A desnutrição pode se agravar em nações alvo do “land grabbing”, se a água estiver comprometida com a agricultura. O Brasil é um desses países, pois possui áreas agricultáveis com boas reservas de água — disse, sem esquecer que o país também faz o movimento inverso, expandindo domínio no continente africano.

Neocolonialismo

A estimativa da pesquisadora é mais radical do que a maioria, que costumam contabilizar cerca de 70% do uso da água doce voltado para a produção agrícola no mundo. Para ela, esse percentual pode chegar a 85%, contra 5% de uso doméstico e 10% em indústrias. E, desse total, aproximadamente 500 bilhões de metros cúbicos de água estariam comprometidos em acordos de “land grabbing” pelo mundo todo, segundo o estudo.

O fenômeno foi classificado pela International Land Coalition (Coalização Internacional de Terras, em tradução livre) como uma nova forma de violação dos direitos humanos, já que muitas vezes trata-se de casos em que posseiros habitantes dos locais há décadas, ou séculos, são retirados para dar lugar aos estrangeiros. Os autores da pesquisa vão além, e chamam a situação de “uma forma de neocolonialismo”. O Incra não respondeu sobre os dados de “land grabbing” referentes ao Brasil apontados no documento.

No entanto, há pesquisadores de olho nas consequências do aumento de compra de terras brasileiras por estrangeiros. Segundo um cálculo inédito do economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) José Aroudo Mota, só na Floresta Amazônica há US$ 1,93 quatrilhão de água em reservas — para se ter uma ideia, o Produto Interno Bruto (PIB) do país fechou, em 2012, num total de US$ 2,5 trilhões. O estado que ocupa primeiro lugar da abundância em água é o Amazonas, de acordo com os cálculos de Mota, com US$ 1,3 quatrilhão. Em segundo, está o Mato Grosso, com US$ 625 trilhões, e em terceiro o Pará, US$482 bilhões.

Mota ressalta que as reservas podem ser reduzidas por vários fatores. O principal deles é o desmatamento, que diminui a quantidade de florestas — guardiães de boa quantidade de água doce, nas árvores e embaixo delas — e também das chuvas, responsáveis por essa retroalimentação:

— A água presta uma série de serviços na floresta. É um recurso estratégico e será equivalente à garantia de armas em um futuro próximo. É preciso acompanhar de perto a aquisição de terras por estrangeiros, porque plantios de monocultura — especialmente para irrigação dos cultivos — e pecuária usam uma quantidade imensa de água.

De olho no futuro

A Amazônia aparece na lista de venda e arrendamento de propriedades rurais para estrangeiros feita pelo Incra, mas os estados da região não aparecem entre os primeiros. O fato é facilmente explicado: o foco das corporações internacionais e de outros governos está em áreas ricas em água, onde a agricultura já possui impulso.

Não é à toa que o Mato Grosso aparece com a maior fatia na listagem do Incra, com total de 895.291,41 hectares. Em segundo lugar, está o Estado de São Paulo — cujo cultivo de cana-de-açúcar é histórico — com 537.160,01. O ranking segue com Minas Gerais (509.737,35). No entanto, Mato Grosso do Sul já aparece logo atrás, com 487.322,58. O Amazonas, campeão da riqueza de água, também é nova fronteira — já são 228.572,96 hectares.

Desde 2005, multiplicam-se acordos transnacionais, com aquisições de terras baratas e produtivas em países em desenvolvimento. A quantidade de água envolvida em acordos de “land grabbing” per capita, em todo o mundo, excede a quantidade necessária para uma dieta humana balanceada. Com aumento dos preços dos barris de petróleo, houve mudanças na política econômica dos Estados Unidos e da União Europeia, que passaram a investir mais na produção de biocombustíveis, a partir do cultivo de cana-de-açúcar, milho, soja, entre outros. Para isso, foi necessário adquirir terras, muitas delas nas nações em desenvolvimento, cujos custos são mais baixos.

O número de acordos de terra entre países teve seu pico em 2009. Em 2010, o Banco Mundial (Bird) estimou que 45 milhões de hectares já haviam sido comprados em dois anos. E a maioria das aquisições foram feitas em áreas com tamanho entre dez mil e 200 mil hectares. Agências das Nações Unidas, entre elas a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO, sigla em inglês), têm apontado problemas nos acordos, como a falta de consulta às populações locais, que vêm gerando conflitos. Muitos empreendimentos desalojam populações e frustram expectativas, já que também não geram quantidade significativa de empregos.

A leitura de especialistas é que governos e corporações estão comprando terras agricultáveis como uma estratégia de longo prazo para produção de comida e geração de energia. A maioria dos contratos é feita exatamente para longos períodos, o que pode ser uma armadilha, segundo avaliação do Instituto Internacional do Meio Ambiente e Desenvolvimento (IIED, sigla em inglês).

Pesquisador do IIED, o escocês Jamie Skinner afirmou que há contratos de concessão de terras com prazos de 50 ou 100 anos. Os governos locais crescem os olhos sobre a chegada de investimento estrangeiro, e apostam no desenvolvimento das economias locais. Perdem, porém, a autonomia sobre os recursos.

— A água é um bem essencial, que precisará ser realocado, por conta das mudanças climáticas ou por mudança em necessidades sociais urgentes. Quando se perde a possibilidade estratégica de manobra do recurso no território, o desafio aumenta — disse Skinner.

Segundo ele, o “water grab” — apropriação de água a partir da compra e arrendamento de terras em outras nações — é caracterizado onde a água é, ou pode vir a ser num futuro próximo, um recurso escasso. Falando sobre o Brasil, ele exemplificou:

— No caso da Amazônia, por enquanto há muita chuva, então a água nos rios não é tão significativa para fazendeiros. Mas, no caso do Mato Grosso, a água durante a estação seca é um recurso valioso para a irrigação. Sendo assim, pode haver competição entre os fazendeiros para pegá-la, antes que outras pessoas (as populações locais, por exemplo) possam ter acesso a ela.

É o que já acontece na África, continente que é foco das pesquisas de Skinner. O continente é alvo de 47% do “land grabbing” registrado no mundo todo, segundo a pesquisa publicada na revista científica PNAS.

As pesquisas recém divulgadas ampliaram o debate sobre o assunto no mundo. O consultor de assuntos ambientais da revista científica New Scientist Fred Pearce abordou o tema em um artigo publicado no início do mês. Ele enfatizou a disputa por água além mar, e narrou casos que tem encontrado em anos de pesquisa. Ele ressaltou ainda que zonas úmidas em locais pobres, onde pessoas dependem delas, estão sobre pressão, especialmente nos países africanos. Pearce entrevistou quenianos irritados com um empreendimento gigantesco dos Estados Unidos às margens do Lago Vitória, cercando pastos úmidos para uma fazenda de arroz. O mesmo foi relatado na Etiópia, onde o agronegócio de empresários indianos e árabes estão tomando florestas e capturando água nas nascentes do rio Nilo.

Conflito armado

Muitas vezes, segundo Pearce, os limites das áreas concedidas pelos governos locais são expandidos para além dos determinados nos contratos. Segundo dados levantados por Pearce, no delta do Rio Niger, zona úmida na borda do Saara, a situação é tão grave que dois milhões de pescadores, agricultores e pecuaristas ficaram esperançosos com a invasão de tropas francesas contra jihadistas no Mali. Era uma possibilidade de frear investimentos estrangeiros em projetos de irrigação na região que sugam toda a água do rio, acabando com o principal meio de subsistência deles. Os rumores da guerra já haviam feito com que a gigante Associated British Foods (ABF) abandonasse um projeto massivo de cana-de-açúcar.

A ONG americana Rights and Resources Iniciative (Iniciativa para Direitos e Recursos, em tradução livre) também acompanha o assunto de perto e cita o caso da África como crítico. Assim como o consultor da New Scientist, a instituição aponta o caso do Delta do Niger como uma das prioridades no mundo. Eles citam que, hoje, 2,5 milhões de hectares foram disponibilizados por governos locais para “para o desenvolvimento”.

A estimativa da ONG é que as concessões reduzam em 70% a disponibilidade de água para as populações, que utilizam os recursos no dia a dia e em atividades produtivas, como, por exemplo, a agricultura familiar. Cerca de 20% do Delta secaria, de acordo com previsões da entidade, o que reduziria, inclusive, a quantidade de peixes. Para cada pessoa beneficiada pelos empreendimentos, pelo menos quatro delas seriam afetadas pela escassez absoluta de água.

Depois de 142 anos, parece que a previsão do economista britânico William Stanley Jevons, publicada em 1871 no livro “A Teoria da Economia Política”, começa a fazer sentido: “Não podemos viver sem água, no entanto não atribuímos a ela nenhum valor em circunstâncias normais. Por que é assim? Geralmente temos tanta água que seu grau de utilidade está reduzido praticamente à zero. Desfrutamos todos os dias da utilidade quase infinita da água. Digamos que o suprimento se torne escasso devido à seca começaremos a sentir os graus mais altos de utilidade, nos quais poucos pensaram em outros tempos”.

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Desafios para o catolicismo recaem sobre África e América Latina

RIO — O Vaticano recebeu mais de cem delegações internacionais, incluindo dezenas de chefes de Estado ou representantes de monarquias, para a cerimônia de posse do Papa Francisco. À primeira vista, a chegada de líderes de potências mundiais, como a chanceler alemã, Angela Merkel, e a presidente Dilma Rousseff, lembra uma assembleia das Nações Unidas. Mas ausências como as dos presidentes François Hollande (França) e Vladimir Putin (Rússia) deixam claro que beijar a mão do Papa não é mais tarefa indispensável para governantes. A influência política da Igreja Católica no planeta, positiva ou negativa, já não é mais a mesma.

De omissões históricas durante a Segunda Guerra (no pontificado de Pio XII) a intensas estratégias internacionais para o desmonte do comunismo (João Paulo II), a Igreja de agora passa por um período de menor poder político. Especialistas dizem que a milenar instituição religiosa continua com seu papel de conselheira espiritual ou ética, até para não seguidores, mas suas áreas de influência agora podem ser concentradas em países da África e da América Latina. No lugar de ações anticomunistas ou vistas grossas para a Alemanha nazista no passado, Papa Francisco levantou, na cerimônia de entronização, bandeiras da luta contra a pobreza e até pela sustentabilidade. Num mundo multipolar, a ação da Igreja deixa de ser vital para interesses de potências e, consequentemente, as palavras do Papa passam ter outro sentido.

Sobraram outros flancos. Presidente da Argentina e compatriota do Papa Francisco, Cristina Kirchner aproveitou, nesta terça-feira, o encontro a sós para pedir que a figura máxima do catolicismo, com quem tem grandes diferenças, seja o mediador de conversas com o Reino Unido na disputa pelo controle das Ilhas Malvinas. Um assunto que nada tem a ver com religião. Para o professor de História Contemporânea do IFCS/UFRJ Francisco Carlos Teixeira, os olhos do mundo não estavam voltados para Roma. A sensação de que estavam seria resultado de boas doses de etnocentrismo ocidental, já que, para China, Japão, Indonésia e Coreias do Sul e do Norte, a posse não teve a menor importância.

- Vamos baixar a bola. O mundo inteiro não estava em suspense pelo novo Papa. O mundo que brilha, onde está o eixo econômico hoje, não acha que o Papa desempenha qualquer papel geopolítico. O Papa não tem importância para mais da metade da população mundial - ressalta Teixeira, que sinalizou onde o discurso do novo Papa pode ter influência. - A Igreja tem grandes expectativas na África. A religião que mais cresce lá é o Islã, inclusive em países de colonização católica. Poucos falam sobre isso. Hoje, todo o norte de Moçambique já é muçulmano. Eles também cresceram na África do Sul.

Segundo Teixeira, a influência internacional da Igreja será usada para reconquistar tanto os fiéis que se afastaram por discordar dos dogmas contra o uso de anticoncepcionais quanto os que migraram para igrejas pentecostais e neopentecostais. O discurso franciscano de socorro aos pobres, doentes e excluídos também será fundamental na América Latina na análise do historiador. A Igreja teria um papel mais centrado em serviços em países que registraram a chegada de classes sociais emergentes, como Brasil, Venezuela e Argentina.

- Aí, sim, haverá um problema político. A Igreja terá que optar se fica ao lado desses governos chamados populistas ou bolivarianos ou se vai concorrer com eles. Entre cooperação e concorrência, o impacto sobre a geopolítica local será muito grande. Ele já aparece carismático e com apelo popular. Há risco de que políticos como Kirchner, Dilma e a nova liderança da Venezuela pareçam velhos - explica o historiador.

O historiador Virgílio Arraes, da UnB, lembra que o discurso do Vaticano pode ter maior ou menor influência de acordo com o contexto histórico. Durante a Guerra Fria, por exemplo, João Paulo II assumiu uma posição anticomunista que convergia com os interesses políticos do Ocidente. Nos anos 1970, o Papa Paulo VI decidiu não visitar países que viviam sob ditaduras militares na América do Sul. A decisão ajudou no desgaste desses regimes. Mas o mundo atual vive uma dinâmica diferente, avalia o professor:

- A ação efetiva de um Papa é muito pequena. Ele é um líder espiritual, não um presidente com meios econômicos ou militares. Tem um poder de convencimento, mas cabe aos políticos atender ou não a seus apelos. O comunismo era uma questão que convergia com os interesses da época de João Paulo II, mas depois que acabou a Guerra Fria esse discurso (anticomunista) perdeu impacto. A luta contra a desigualdade social não é uma prioridade das elites latino-americanas.

O professor argumenta que é interessante para os líderes de países com maior percentual de católicos, como Brasil, Argentina e México, manter diálogo com o Papa devido à sua forte influência nas zonas rurais e especialmente com os mais pobres. Entretanto, manter contato com a Igreja não significa acatar todos os seus preceitos.

- Analisando o que é o Brasil, será que as preocupações religiosas têm sido o centro da preocupação dos políticos? Se os valores cristãos pregam o combate às injustiças, e o Brasil é um pais bastante desigual, podemos avaliar que essa influência da Igreja é limitada — conclui Arraes.

Professor de Teologia da PUC-SP, o padre Antonio Manzatto vai além. Ele considera que a Igreja não influencia efetivamente a política mundial desde a Revolução Francesa, quando começaram a ser instituídos os Estados laicos. Para ele, desde então o discurso do Vaticano reitera valores éticos e pode ser somado a outros fatores, mas deixou de ser fundamental para a tomada de decisões:

- Na Idade Média, a Igreja tinha outro peso na estrutura dos países. Hoje é diferente. Todo o discurso da Igreja nos anos 1970 não impediu a organização de regimes comunistas, assim como não derrubou ditaduras militares. Existe um trabalho do Vaticano no sentido de estimular o diálogo, e, muitas vezes, ele é chamado para atuar como mediador de conflitos. Mas não cabe à Igreja tomar ações efetivas. Seu poder é meramente diplomático.

Se a relevância política da Igreja está em seu discurso ético, que defenderia valores tidos como fundamentais para a vida humana, Manzatto acredita que sua influência é enfraquecida quando justamente esses valores são quebrados dentro da própria instituição. O teólogo lembra que escândalos sexuais e de corrupção ajudaram a enfraquecer a imagem da Igreja nos últimos anos e, consequentemente, o poder político do líder do catolicismo:

- O Vaticano não é nada mais que uma voz que fala à consciência das pessoas. Funciona como um lembrete ético. Quando problemas éticos crescem na Igreja, a sua influência diminui por ela não ter sido capaz de sanar esses males que estão presentes dentro da sua organização.

Mesmo assim, sinais de prestígio continuam aparecendo. Presidente do Parlamento Europeu, o alemão Martin Schulz convidou hoje o Papa Francisco a falar na tribuna do órgão do Velho Continente, mas para defender o que chamou de “valores fundamentais” europeus.

Diretor do programa de estudos em Ciência e Religião da Universidade Candido Mendes, Luiz Alberto Gomez de Souza também não vê grandes influências na geopolítica mundial, fato, porém, que não exclui outras importâncias do Pontífice:

- O importante é que o Papa abra um diálogo sobre problemas como celibato obrigatório, moral sexual e contracepção. Podem ser feitos diálogos profundos sobre temas congelados. É claro que uma posição dessas pode ter impacto também no mundo, mostrando uma maior abertura da religião católica para problemas atuais.

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Alerta vermelho para garantir o futuro azul

Ela é chefe do Council of Canadians (ou Conselho dos Canadenses), a maior organização de militância pública do país da América do Norte, e fundadora do Blue Planet Project, ONG que trabalha internacionalmente a favor do direito humano à água. Maude Barlow é uma ativista fervorosa e, aparentemente, incansável. No momento, escreve o livro “Blue future, protecting water for people and the planet forever” (“Futuro azul, sempre protegendo a água para as pessoas e para o planeta”, em tradução livre). Já publicou outros 16. Ainda encontra tempo para ter longas conversas com jornalista, como a que segue abaixo.

Em 2008, a senhora disse que boa parte dos Estados Unidos iria passar por sérios problemas de água nos próximos cinco ou dez anos. Como está a situação agora?

Em muitas partes dos Estados Unidos, é terrível. Hoje, o país é, realmente, a cesta de pão do mundo. Possui um terço dos grãos do mundo comercializados globalmente, mas tem mantido os cultivos em áreas sem água. O aquífero de Ogallala está em declínio severo. Muitos rios estão profundamente estressados ou secando, inclusive o Colorado, o Mississippi, o Platte e o Ocoee. A perda de água sob o Vale Central na Califórnia é de mais de 40% da capacidade de armazenamento de todos os reservatórios construídos no estado. Buracos na Flórida e no Texas atestam o enorme bombeamento de águas subterrâneas que está ameaçando as reservas de diversos estados. Os Grandes Lagos passam hoje por sérios problemas como resultado do aquecimento global pela extração, poluição, chegada de espécies invasoras e fracking (fraturamento hidráulico das rochas subterrâneas para obtenção de gás natural).

Ainda acha que os políticos de todo o mundo estão “em algum tipo de negação inexplicável”?

Sim. Acho que parte disso é porque aprendemos na escola que há uma interminável quantidade de água em todo o ciclo hidrológico e não podemos destruí-lo. De certa maneira, é verdade. Mas temos tirado a água de onde é necessária na natureza de onde podemos acessá-la. A crise de água é bem real. Também acho que muitos políticos assumem que uma tecnologia mágica irá solucionar a crise. Estão totalmente errados.

O que a senhora sabe sobre o Brasil e a forma como lidamos com a água?

Todas estas questões estão presentes nos países do Mercosul. Mesmo que sejam abençoados com duas grandes fontes de água: o sistema do Rio da Prata e o Aquífero Guarani. Em parte por estarem inseridas em um mundo cada vez mais sedento, eu argumentaria que a região está ganhando rapidamente um interesse geopolítico forte para o restante do planeta. É o momento de vocês assumirem a condição de tutela dessas águas. Os brasileiros, assim como os canadenses, cresceram com o que chamo de "mito da abundância". Nós achamos que temos tanta água que ela nunca irá acabar. Isso é simplesmente falso. É o que pensavam do Mar de Aral na antiga União Soviética, então o quarto maior lago do mundo, e o Lago Chade, na África, que já foi o sexto maior. Ambos estão quase no fim devido ao excesso de extração. A demanda por água está crescendo. A capacidade diminuindo. Não será surpresa os conflitos continuarem a crescer.

Qual o maior desses conflitos?

Talvez o mais difícil seja entre os que têm acesso a toda a água que desejam e aqueles que não, de maneira alguma. Uma criança que nasce no Hemisfério Norte vai usar 40 a 70 vezes mais o elemento em sua vida do que a nascida no Hemisfério Sul. Hoje, abaixo da Linha do Equador, a cada três segundos e meio uma criança irá morrer de alguma doença transmitida pela água. A falta de acesso ao elemento puro é, de longe, o maior assassino dos pequenos e isso é algo completamente evitável.

Como a economia do Brasil afeta a água?

O crescimento da produção de biocombustíveis de cana-de-açúcar no Brasil tem crescido intensamente e, hoje, o Brasil é o maior exportador. Só que essa indústria pode explodir. Hoje, o país produz 28 bilhões de litros de etanol (20% para exportação), mas irá produzir 64 bilhões em 2018. É preciso uma grande quantidade de água para produzir biocombustíveis. Para cada litro de etanol de cana-de-açúcar produzido no Brasil, pelo menos 1 mil litros são usados, se levarmos em conta o que é usado para crescer a planta, assim como processo em si. Atualmente, sete trilhões de litros de água são extraídos todos os anos para a produção de etanol no país, um dreno enorme no abastecimento de água na região e que aposto não será consignado quando o governo fizer seus planos econômicos. Toda esta água estará perdida.

Quem são os maiores usuários de água? Como esse problema pode ser resolvido?

O maior usuário de água é a agricultura industrial por um mercado global de alimentos. A água é extraída de aquíferos e rios para crescer culturas em desertos e então é enviada na forma de "exportações virtuais" para todo o mundo. Brasil, Canadá, os Estados Unidos e a Austrália são todos exportadores maciços de água virtual. A produção de comida também consome o elemento. Quer dizer, não a devolve à bacia hidrográfica. A resposta para esta forma de abuso da água é local, através da produção de comida orgânica e sustentável. Algo bem diferente do que os governos promovem.

O que é o termo “apartheid de água”? Pode explicar isso?

O apartheid da água se refere ao fato de que em um mundo de crescente desigualdade e controle corporativo do elemento, aqueles que possuem dinheiro podem o comprar quando quiserem, como para piscinas de natação ou campos de golfe. Aqueles sem os meios para comprar água ficam sem e veem suas crianças crescerem doentes.

Por que diz não gostar de água engarrafada?

Garrafas de água demandam muita energia, criam gases de emissão de efeito estufa e deixam para trás centenas de bilhões de recipientes plásticos. É uma forma moderna de insanidade coletiva e um impedimento para a criação de um futuro justo em relação à água.

Como a senhora vê os acordos internacionais de comércio de água do mundo?

São uma séria ameaça. Já que as utilidades da água foram privatizadas, os acordos tiram a opção de um retorno ao sistema público caso uma cidade queria fazer isso. O comércio global e bilateral, além dos negócios para investimentos, dão a empresas internacionais o direito de entrar na Justiça por compensação financeira caso um governo queria impor novas regras de saúde, segurança ou ambientais para limitar o acesso a fontes de água regionais.

Que iniciativas positivas estão a caminho?

Muitas pessoas, grupos, universidades, instituições e líderes políticos estão começando a levar a sério a crise hídrica. A grande tarefa agora é declarar, por meio de leis, a água como herança comum, além de garantir a proteção de bacias hidrográficas pelo mundo afora. Há muitos avanços neste sentido enquanto trabalhamos para convencer as pessoas a deixarem de ver a água como um recurso apenas para o nosso prazer e lucro, mas também como elemento essencial.

Em que momento, em sua vida, a senhora decidiu que seu objetivo era estudar a questão da água?

Eu me envolvi e fiquei obcecada com a questão da água quando percebi, pela primeira vez, que ela vinha sendo incluída como bem negociável em acordos de comércio. Foi aí que comecei, então, a pensar sobre quem decide, quando e como o negócio é feito. Eescrevi o primeiro estudo sobre o assunto nos anos 1990 e isso me levou a uma jornada incrível para construir um movimento que pudesse lutar pela justiça da água em todo o planeta.

(webremix.info)


Em Roma há 14 anos, Ilze Scamparini fala da sua experiência na cobertura do Vaticano

RIO - ‘Dormi no Sambódromo e acordei no Vaticano”, resume Ilze Scamparini. Era o dia 11 de fevereiro, e a correspondente da TV Globo em Roma estava de férias, aproveitando o carnaval do Rio, quando chegou a notícia que chamou a atenção até do folião mais pagão:

— Depois de muito tempo, fui rever o carnaval, acompanhei todas as escolas do domingo. Duas ou três horas depois, o telefone tocou. Fiquei paralisada. Teoricamente, a renúncia dele era possível, Bento XVI já tinha falado disso, mas ninguém acreditava. Seria um gesto de ruptura. Mas, no fim das contas, pareceu tão natural — analisa a jornalista, dias antes da escolha do novo Papa, o argentino Jorge Mario Bergoglio.

De tão associada à cobertura do Vaticano, a repórter teve sua ausência sentida no dia em que Bento XVI comunicou que renunciaria. Nas redes sociais, telespectadores demonstraram surpresa. Mas, nas últimas semanas, habemus Ilze diariamente na TV. Católica, ela ressalta a importância do tema não só para os religiosos.

— O conclave é algo extraordinário não só para os católicos. O Papa é também um chefe de estado. Em guerras, a diplomacia vaticana pode ter muito valor. No início dos anos 60, na crise dos mísseis soviéticos instalados em Cuba e voltados para os Estados Unidos, talvez o pior momento da Guerra Fria, o Papa João XXIII correu para a rádio vaticana e, em francês, suplicou a Nikita Kruschev e Kennedy que “não ficassem insensíveis a este grito da Humanidade”. Pediu que a paz fosse salva, implorou pelo diálogo. Poucos jovens sabem que ele ajudou a evitar a guerra nuclear.

Nestes 14 anos de trabalho na Itália, Ilze acompanhou os passos de dois papas. E destaca seus estilos bem diferentes:

— Conheci o João Paulo II já velho, por isso muito doce e terno. Dizem que quando era mais novo era bem enérgico. Acompanhei algumas viagens dele. Um Papa que emocionava com pequenos gestos. Tinha senso de humor, fazia brincadeiras na praça, às vezes falava até em dialeto romano. De uma humanidade infinita. (Joseph) Ratzinger é a amabilidade em pessoa, mas racional, coerente. Acabou conquistando o mundo com um único grande gesto, o último do seu pontificado.

Mas a vida da correspondente não se resume a Vaticano ou mesmo a trabalho. Como os romanos, ela sabe apreciar a cidade e o dolce far niente.

— Faço muita coisa a pé, vou olhando os prédios, as estátuas, as ruínas, cada detalhe medieval, barroco ou renascentista. Adoro também descobrir lojas de armarinho. Como muito em casa e gosto das frutas e das verduras mediterrâneas. Roma é cheia de sol, as primaveras são lindas. Mas o verão daqui é mais quente que o de Bangu! — descreve.

Ilze vive com o roteirista Domenico Saverni Mezzatesta. Descendente de italianos, não tem contato com os parentes que estão por lá:

— Tem quatro famílias da linha do meu avó paterno que vivem na província de Veneza, mas nunca as procurei. Por parte de mãe, os pais dela vêm de Mantova e Treviso. Se ficou alguém aqui, é mais distante.

Sem dizer se tem vontade de voltar à terra natal, a repórter acredita que a imagem do Brasil melhorou na mesma medida da evolução do país. Já a crise na europeia preocupa:

— A violência aumentou, a agressividade, a falta de esperança. Quem vem de fora talvez não perceba tanto, mas a vida aqui decaiu bastante. Como os brasileiros, os italianos também são criativos e capazes de inventar saídas para a crise.

Aos 52 anos, Ilze já viu muita coisa como repórter tanto no Brasil como em outros países. E enumera alguns dos momentos marcantes da carreira:

— Cito a viagem que fiz com Chico Mendes pelo Acre a bordo de um pequeno avião para conhecer a vida dos seringueiros. Aquilo, sim, foi descobrir o mundo. Testemunhar um homem, completamente sozinho, que acordava às quatro da manhã e corria quilômetros a pé, no meio da floresta, com o risco da picada fatal da cobra surucucu pico de jaca e das onças, sangrava a seringueira, punha uma latinha no caule, depois corria para outra seringueira, para mais tarde voltar e recolher o látex. Com o “Globo Repórter”, passei mais de dez anos gravando longas reportagens. Depois veio o período americano: Costa Oeste, fronteira México-Estados Unidos, desertos. Recentemente uma situação me impressionou muito: a Ilha de Lampedusa, entre a Itália e a Líbia, com aqueles milhares de imigrantes do norte da África, chegando naqueles barcos superlotados.

No início da vida profissional, ela também acompanhou momentos que viriam a fazer parte da história do país.

— Contribuí para a “Oboré”, transcrevendo entrevistas feitas por outras pessoas com operários do ABC paulista, que eram entregues ao Henfil, com quem eu estagiava, em São Paulo. Cobri os movimentos do interior paulista dos anos 80, greves dramáticas como a de Paulínia. Acompanhei Tancredo Neves em Brasília — lembra, para contar uma história curiosa: — Eu estava em Roma quando vi, pela TV, o Sarney assumindo a Presidência da República no lugar dele. Você pode ver que já estou acostumada aos traumas durante as minhas férias... (risos)

Sobre seu jeito peculiar de falar, uma marca registrada que faz o público reconhecê-la mesmo sem olhar para a TV, Ilze não pensa muito:

— A impressão que tenho é a de que sempre falei assim. Mas pode ser uma falsa impressão — diz ela, sem se alongar também sobre os fãs que admiram sua beleza: —Acho que são muito generosos.

Um Papa brasileiro talvez mudasse a forma de trabalho da correspondente. Mas como a vez foi de um argentino a vida deve seguir como está:

— Tenho um cinegrafista, o Maurizio della Costanza, e uma colaboradora de produção, a Silvia Celommi. A nossa sede legal é em Londres. Em Roma temos um pequeno estúdio. Gosto de trabalhar na minha casa, com minha biblioteca e meus computadores.

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Manifestantes voltam às ruas contra pastor na Comissão de Direitos Humanos

RIO - Cerca de 300 pessoas se reuniram na tarde deste sábado, em Copacabana, num protesto contra o pastor Marcos Feliciano (PSC-SP) na presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara. Carregando cartazes de repúdio ao deputado, e ao som do grupo de maracatu e candomblé Tambores do Olokun, os manifestantes saíram do Posto 5 da Praia de Copacabana em direção ao Posto 2, na altura do Hotel Copacabana Palace. Duas das três faixas de rolamento da Avenida Atlântica, no sentido Leme, foram interditadas. Em São Paulo, a manifestação reuniu 500 pessoas que fecharam três pistas da Avenida Consolação, no Centro, e seguiram até a Praça Roosevelt.

Representantes de vários grupos religiosos e de direitos dos negros e dos homossexuais participaram dos atos. O pastor responde a processo no supremo Tribunal Federal por homofobia e estelionato. Ele ficou conhecido por declarações polêmicas sobre negros e homossexuais. Marcos Feliciano já declarou que o amor entre pessoas do mesmo sexo leva ao ódio, ao crime e à rejeição. E em 2011, criou polêmica ao escrever no Twitter que "os africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé" e que essa maldição é que explica o "paganismo, o ocultismo, misérias e doenças como ebola" na África.

No Rio de Janeiro, Julio Moreira, presidente do grupo Arco-Íris, disse que o Congresso precisa perceber a indignação popular:

— Não adianta os políticos fecharem os olhos. Quando personalidades como Xuxa se posicionam, é porque é grande o barulho e o povo precisa ser ouvido.

Ele ressaltou que o Brasil é um país laico, e a religião não pode se confundir com a política:

— Não dá para um pastor pregar dentro do Congresso. Se o Brasil quer ser uma grande potência, não pode ir na contramão da História — disse ele, citando Argentina, Uruguai e Equador como países que já avançaram na concessão de direitos aos homossexuais.

O professor Angelo Pereira também estava entre os manifestantes:

— Fiz questão de vir porque sou totalmente contra a nomeação. Sou gay, ateu e tenho um filho adotivo negro. A minha família é totalmente contra o que o Feliciano defende. Ele não me representa.

Já na reta final da passeata, quando os protestantes se aproximavam do Copacabana Palace, policiais militares do 19º BPM (Copacabana) procuravam pelos organizadores, afirmando que o grupo não tinha autorzação para ocupar a via. O movimento, entretanto, seguiu até o fim sem impedimento das autoridades. O estudante Fabrício Silva afirmou que um ofício foi enviado ao batalhão por advogados que representavam o grupo, mas eles não receberam retorno.

Embaixadora do movimento Femen no Brasil, Sara Winter também esteve na manifestação, e destacou a importância de uma representante o grupo:

— Uma de nós precisava estar aqui. É uma vergonha nacional que o deputado Feliciano ocupe este cargo, ele subverte os Direitos Humanos.

Em São Paulo, protesto reuniu 500 pessoas

Em São Paulo, os manifestantes entoaram gritos de guerra como “eu amo homem / amo mulher / tenho o direito de amar quem eu quiser”, e “fora Feliciano”. Cartazes produzidos por integrantes de movimentos em defesa de gays, lésbicas e simpatizantes se misturavam a manifestações de partidos como o PSTU e o PSOL, além de mensagens do movimento negro e em defesa do Estado laico.

— Que direito ele tem de ser contra o direito dos outros? Como uma pessoa preconceituosa pode ser indicada para tratar do preconceito contra pessoas na Comissão de Direitos Humanos? — perguntava o estudante de publicidade João Paulo Rosa, de 17 anos, enquanto distribuía panfletos com frases atribuídas a Feliciano. Ele pedia às pessoas que registrassem reclamações sobre a escolha de Feliciano na Ouvidoria da Câmara pelo telefone 0800 619 619.

Defensor do projeto de lei que criminaliza a homofobia e a equipa aos crimes de racismo, o aposentado Marcos Morcef, de 55 anos, colava adesivos com as cores do arco íris nos participantes. Mesmo participando da manifestação, para ele a batalha pela presidência da Comissão de Direitos Humanos estaria perdida, porque mesmo que Feliciano visse a deixar o cargo, outro político do PSC poderia vir a ser indicado.

— Não haveria quadro realmente comprometido com os direitos humanos neste partido — opinou o aposentado.

Para ele, este é o momento de "mobilizar os deputados para que a Frente Parlamentar de Defesa dos Direitos Humanos seja fortalecida e consiga influir na aprovação de projetos importantes para o país".

Programador, Gunthe Alexander, de 31 anos, disse não ver como se evitar a polarização e o embate com o deputado do PSC, por causa do posicionamento público do parlamentar em relação a temas que são objeto de análise na Comissão, como o debate sobre a homofobia.

— Você não pode colocar uma raposa para cuidar do galinheiro. A bancada evangélica se articulou para ocupar um espaço que é muito importante. Quem terá acesso a este quórum? Será tratado de forma justa? Será tratado com tolerância? — perguntou o jovem.

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'Não imaginava que fosse dormir com fome no Brasil', diz refugiada do Congo

Por dois dias, a reportagem da BBC Brasil acompanhou aulas de português concedidas a refugiados na sede da Cáritas Arquidiocesana do Rio de Janeiro, no bairro do Maracanã, zona norte da cidade.Mesmo com o calor registrado nos primeiros dias de março, crianças e adultos, em sua maioria provenientes da República Democrática do Congo, lotavam a varanda transformada em sala de aula para aprender as primeiras palavras da língua do país que os acolheu.Em comum, todos pareciam sentir um alívio por terem saído de uma situação que muitos descreveram como "infernal" em seu país. Mesmo assim, eles se mostravam preocupados com os meios para se sustentar no Brasil.A maior parte dos entrevistados, no entanto, parecia esperançosa e dizia esperar passar o resto de suas vidas no Brasil.Confira agora alguns dos depoimentos de refugiados e solicitantes de refúgio congoleses. Para evitar a identificação, seus nomes foram substituídos por outros fictícios.Pierre* "Sou de Kinshasa. Estou aqui há quase cinco meses. Ainda não saiu meu refúgio.Eu fugi da guerra na minha terra, porque era membro de um partido, eu fugi por causa dessas coisas de política. Se ficasse lá podiam me matar. Antes de fugir, eu estava preso. Depois consegui fugir e arranjei uma maneira de chegar aqui no Brasil.Não vim porque gostasse antes do Brasil, eu estava precisando de um lugar onde eu pudesse viver em paz, por isso fiquei aqui.Mas, desde que eu cheguei aqui, não está nada bom. Estou sozinho aqui. A gente fugiu do sofrimento, mas aqui está no fogo, dentro do sofrimento.Aqui não há consideração pelos refugiados. Se você solicita um trabalho em qualquer lugar e apresenta os documentos que mostram que você é refugiado, eles não deixam trabalhar.O brasileiro pensa que o refugiado é um homem que matou no país dele e fugiu para cá, mas não é. O refugiado é uma pessoa que estava sofrendo na terra dele e fugiu para viver uma nova vida."Carlos* "Eu fazia parte de um partido político opositor. A gente começou a fazer manifestação e isso causou problema para nós. Eu sou enfermeiro formado e trabalhava como socorrista. Muitos de nós foram presos e outros foram executados. Aí começou a dar muito medo.Eu decidi vir para o Brasil porque era o caminho mais fácil para conseguir o visto. Hoje, no país da gente, para conseguir o visto da França ou Canadá, é muito difícil, então o Brasil foi mais fácil. O Brasil abriu as portas.Demorei mais ou menos dois anos para conseguir trabalho. São essas as maiores dificuldades que a gente tem."À primeira vista, as pessoas recebem muito bem a gente, com muito calor. São curiosos, fazem muitas perguntas. Tem também outros que têm preconceito. O fato de que a gente é da África já faz com que muitos tirem a conclusão de que a gente é traficante, não sei por quê.Pessoalmente, esse negócio de preconceito é muito difícil ter certeza. As pessoas fazem isso com muita inteligência, para não parecer ser racista, entendeu? É muito difícil.Uma vez, o que eu percebi foi na Cinelândia. Eu estava andando normalmente e tinha uma moça na minha frente. Ela se assustou do nada e começou a fugir. Mas isso não tem nada a ver com o fato de eu ser refugiado...acho que ela não sabia que eu sou estrangeiro, é por causa de ser negro. É uma coisa séria ser refugiado e também (ter) a cor da gente, os refugiados brancos acho que não encontram as mesmas dificuldades que a gente.Eu desejo fazer a minha vida aqui. Eu vivo com uma brasileira, penso em ter um filho com ela, então viver feliz aqui, porque não é muito diferente da minha terra não."Pascal* Cheguei no Brasil há três meses. Estou estudando português, eu era militar, tenho facilidade porque militar tem que estudar outras línguas. Sou carioca, um antepassado morou aqui, ele veio para cá como escravo e depois voltou para o Congo. Por isso eu sou carioca.Uma pessoa me ajudou, me trouxe aqui. Ele falou "vamos para a América", eu achei que estivéssemos indo para os Estados Unidos da América. Mas ele me deixou aqui, por isso eu estou estudando.Aqui estou morando na Central do Brasil. Estou alugando minha casa, porque aqui (na Cáritas) me ajudam, mas o dinheiro daqui às vezes não vem no tempo, às vezes fica dois meses sem vir. Aqui me pagam R$ 300. Só dá para pagar o quarto.Estou procurando emprego para trabalhar Se Deus permitir, eu não quero mais voltar para o Congo não, eu sou carioca.Estou vendendo água (como camelô) para pagar a casa, mas os guardas me perturbam muito."Ben* "Estou há seis meses no Brasil. Eu morava perto de Goma, na Província do Kivu do Norte (no Congo). Lá a situação está muito complicada. A minha esposa foi baleada e morreu e eu fugi para Uganda, onde consegui o documento para vir para cá para o Brasil.A vida aqui para o refugiado é muito complicada. Chegamos aqui e não tem casa. A gente paga aluguel e é muito caro. Um quartinho, um quitinete, é R$ 400, R$ 300, mas aqui (na Cáritas) nós recebemos R$ 300.Eu moro na favela. Tem outros congoleses perto, mas eles não podem me ajudar, eles também têm dificuldades.A favela é muito complicada, mas a gente tem que acostumar. É muito complicado, o barulho de tiro, fica complicado para nós.Estou feliz (de estar aqui). Eu cheguei há pouco, demora até a gente se acostumar com o país, mas vai dar certo. Vou ficar aqui, com certeza."Angelica* "Nasci em Kinshasa, na capital (da República Democrática do Congo). Eu era estudante e fui fazer um estágio em um orfanato. Lá havia pessoas traficando crianças. Eu sabia que lá tinha tráfico de crianças e queria denunciar, mas começou uma confusão, me ameaçaram.Eu moro na casa de um outro congolês, em uma favela de Brás de Pina. A maior dificuldade é a língua, que é um pouco difícil.Eu moro na favela, pode ter algum problema. Tem muitos tiros lá, eu ouço muitos tiros. Eu tenho vontade de sair de lá.Não posso voltar para o Congo, porque as pessoas que me ameaçaram estão lá.Eu vim sozinha para cá, é muito difícil. Mas, mesmo assim, quero ficar aqui pra sempre. Estou alegre porque não estou mais me sentindo ameaçada.Camille* "O país (Congo) não está bom, está em guerra. Foi uma grande história para chegar aqui. Eu vim de avião, uma pessoa me ajudou. Fizeram documentos falsos. Mas, depois que cheguei, a pessoa me deixou na rua com as crianças e foi embora. Tive que dormir na rua no primeiro dia com as três crianças.Tenho três filhos. O primeiro tem 9, essa tem 3 e um bebê que nasceu aqui e tem três meses. Não tenho ninguém que possa me ajudar, estou sozinha. Se não fossem os vizinhos, não sei como seria minha vida. O dinheiro (que ganho da Cáritas) só dá pra pagar o aluguel da casa.Eu estou triste porque meus filhos não têm leite para tomar, as outras estão com fome. Eu não tinha idéia de que no Brasil seria ruim assim, eu não imaginava que um dia fosse dormir com fome no Brasil."*Nomes fictícios ... (webremix.info)


Filmes, exposições e livro mostram como o heavy metal ganha espaço na África (webremix.info)


O cachorro que andava sobre dois pés

Brandon Bryant tem agora o alvo visível: uma casa de estuque. Ao lado, um pequeno estábulo. À ordem de abrir fogo, aperta um botão e o teto da casa surge enquadrado pela luminosidade de um laser. Ao lado, o colega aciona um outro controle manual. A cerca de dez mil quilômetros, nos céus do Afeganistão, uma pequena aeronave não tripulada, um drone, dispara um míssil Hellfire (fogo do inferno). Começa uma contagem regressiva de dezesseis segundos para o impacto. Brandon observa. As imagens, transmitidas por satélite, aparecem no monitor. Faltando apenas três segundos, surge uma criança perto da casa. Pouco depois, a luz da explosão. A casa e a criança desaparecem numa nuvem de pó.

Brandon pergunta ao colega: “Matamos uma criança?” “Eu creio que era uma criança”, responde o outro. “Era mesmo uma criança?” Uma voz de um outro mundo, ou melhor, do comando, ressoa na sala: “Não, era um cachorro.” Um cachorro andando sobre dois pés?

A história foi narrada pelo próprio Brandon ao semanário alemão “Der Spiegel”, correu mundo e contribuiu para alimentar o debate que se acirrou nos EUA sobre o uso — e o abuso — destas máquinas voadoras letais, o máximo da alta tecnologia aplicada à guerra “limpa”.

William Tart, responsável no Pentágono pelos drones, descreve os seus “benefícios”. Diz, sem sorrir, que são “humanitários”, e cita o trabalho realizado para socorrer as vítimas do terremoto no Haiti. Graças a um deles, foi possível localizar o comboio de Muhamar Kadhafi e liquidá-lo. Os drones, matando terroristas, “salvam vidas”. Opinião compartilhada pela maioria dos soldados no Afeganistão, e por 62% dos cidadãos estadunidenses, segundo recente pesquisa do Instituto Pew. Ele jura que “os mísseis só são disparados quando mulheres e crianças não estão à vista”. E só perde a calma quando ouve críticas à “guerra invisível”, considerada uma guerra de covardes, que matam gente em poltronas confortáveis e ambientes refrigerados, longe da lama, do sangue — e do medo — dos verdadeiros campos de batalha. Nada disso: “Observamos os homens durante meses, brincando com seus animais. Conhecemos seus hábitos como conhecemos os de nossos vizinhos. Assistimos a seus enterros”. Brandon ecoa: “No começo da noite, as pessoas, para escapar do calor, vêm deitar nos tetos das casas e fazem amor — dois pontos infravermelhos que se fundem — sob nossas vistas.”

Assim, a guerra com os drones teria algo de pessoal, distante, mas íntima. Os envolvidos reclamam de conflitos psicológicos e de traumas. Alguns não conseguem dormir. Ou sonham em “infravermelho”. Perdem relações afetivas e se consolam com drogas. Brandon lamenta-se: “Vi morrerem homens, mulheres e crianças. Nunca imaginei que iria matar tanta gente.” Depois de seis anos, com um diagnóstico de estresse pós traumático, não renovou o contrato que o vinculava à Força Aérea. A gota d’água veio quando ouviu um colega gritar: “Então, qual destes filhos da puta a gente vai matar hoje?”

Brandon pulou fora, um parafuso enferrujado. Será substituído por outro, seduzido pelas promessas de salários, reconhecimento e, no final, bolsa para cursar uma universidade.

A matança vai continuar, deixando um rastro de ressentimento e ódio. Estimativas imprecisas falam de 2.500 a 3.500 mortos. Quantos inocentes? Quantos cachorros que andam sobre dois pés? Durante o governo Bush, houve menos de 50 bombardeios de drones. Com Obama, as ações multiplicaram-se por seis, a partir de bases nos EUA, na África e na Ásia.

Em 2011, contudo, dois cidadãos estadunidenses foram assassinados por drones no Iêmen, causando comoção em Washington. Todos aceitavam a morte de estrangeiros. Mas de cidadãos estadunidenses? Desencavaram uma entrevista de H. Clinton, então secretária de Estado, em que ela reconhecia que os drones estavam matando cúmplices, operadores e financiadores dos terroristas. Obama não estaria indo longe demais? E se o governo decidisse atacar com drones cidadãos estadunidenses no próprio território dos EUA? O procurador-geral admitiu a hipótese, mas só em “circunstâncias extraordinárias”. Os drones, porém, não atacariam cidadãos “não engajados em combate”. Mas os operadores, financiadores e cúmplices não estariam, indiretamente, “engajados em combate”?

Medea Benjamin, ativista de direitos humanos, suscitou uma questão incômoda: e se a Rússia localizar um terrorista checheno em Nova York, Putin teria o direito de lançar um míssil para matá-lo? A pergunta, considerada despropositada, não mereceu atenção. Um dia, talvez, ela possa ser seriamente considerada. Neste dia, se ocorrer, eventuais críticas do governo dos EUA não merecerão credibilidade.

O que restará então?

A Brandon Bryant, recolhido à Montana natal e a crises de consciência, ver os prados verdejantes e as montanhas.

Aos que já morreram, o pó em que se transformaram.

Ao presidente Obama, o Prêmio Nobel. Da Paz.

Daniel Aarão Reis é professor de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense

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Fotografias com olhar humanista de Marc Riboud chegam à Barra

Conhecido pelo olhar curioso e sensível aos contrastes culturais e sociais dos lugares por que passou ao longo do século XX, o fotógrafo Marc Riboud, de 90 anos, acaba de ganhar sua primeira exposição na Barra da Tijuca. Até o dia 17, 61 fotografias, com registros que vão de momentos banais do cotidiano de pessoas comuns a rebeliões e conflitos históricos, poderão ser vistas no Centro de Eventos do VillageMall.

Para o diretor-geral da Aliança Francesa do Rio e curador da exposição, Yann Lorvo, Riboud tem um olhar genial e sabe o melhor instante para capturar a expressão dos seus fotografados. Para Lorvo, uma fase particularmente prolífica do profissional foi o período que vai do pós-Segunda Guerra até os anos 1980:

— Marc Riboud foi uma testemunha de momentos históricos importantes, como a independência de colônias africanas. Ele é um fotógrafo humanista.

Marc Riboud faz parte do filão de pioneiros do fotojornalismo, como o amigo e também francês Henri Cartier-Bresson. Imortalizou cenas em lugares como Vietnã, Nepal, China, África e até o Brasil, onde esteve em 2009 e fotografou moradores do Complexo da Maré. Imagens da comunidade também estão na mostra.

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Síria sob sério risco de fragmentação

A Síria pode ser comparada a um vulcão derramando lava incandescente sobre sua população. Os ventos da Primavera Árabe encontraram ali um país muito diferente da Tunísia e do Egito. Há uma guerra civil, prestes a completar dois anos, pela derrubada do ditador Bashar Assad.

As cifras são espantosas: 70 mil mortos, entre combatentes e civis; e, segundo a ONU, 4 milhões de sírios atingidos de alguma forma pela guerra, incluindo 2 milhões de deslocados internos e quase 1 milhão de refugiados em países vizinhos.

As nações mais envolvidas em abreviar o fim da tragédia deram alguns passos importantes. Pela primeira vez, os EUA anunciaram ajuda direta a grupos que lutam contra o governo, na forma de alimentos e remédios, além de US$ 60 milhões para que possam restaurar serviços básicos nas áreas já dominadas. Armas não estão incluídas. A UE decidiu fornecer veículos blindados, equipamento militar não letal e ajuda técnica.

Após Afeganistão e Iraque, os EUA farão de tudo para não intervir diretamente em outros países. UE e a Otan, depois de atuarem na Líbia, outro país destroçado por uma guerra civil inspirada na Primavera Árabe, estão igualmente cautelosos em relação à Síria.

Este é um país árabe estratégico. Tem projeção de poder sobre o Líbano e ainda está tecnicamente em guerra com Israel. Seu regime, no poder há 42 anos (29 com Hafez Assad e 13 com seu filho, Bashar), é aliado do Irã xiita e da Rússia e, até antes da guerra, abrigava numerosas organizações terroristas, islamitas ou não. Sua guerra civil opõe os alauítas (ramo do xiismo) minoritários de Assad, apoiado pelo Irã, aos sunitas majoritários e à margem do poder, apoiados pela Arábia Saudita. Nela se cruzam poderosos interesses, como o americano de manter em relativa calma o suprimento de petróleo do Oriente Médio, e o russo, de sustentar um importante aliado que lhe cede um porto no Mediterrâneo.

A Rússia é a chave. Ela (e a China) tem bloqueado, no Conselho de Segurança, ações mais decisivas para neutralizar Assad, cujas forças usam canhões, MiGs e mísseis contra cidades do país, sem distinguir inimigos e população civil. O líder russo, Putin, brinca com fogo: a Síria, como o Norte da África, tornou-se uma importante base de radicais islâmicos e da al-Qaeda, loucos para exportar sua “guerra santa”. A Rússia tem cerca de 20 milhões de muçulmanos.

É necessária uma estratégia ampla para pôr fim ao banho de sangue na Síria. Ela começa com o convencimento do Kremlin de que o custo do apoio a Assad é muito maior que o benefício. E continua com um bom planejamento para o dia seguinte ao da queda do ditador. Não se pode correr o risco de fragmentação do país.

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Caritas em África sente-se impotente para responder aos desafios do continente

Conflitos políticos e religiosos, fome, seca e cheias no continente africano têm desafiado, quase que de forma constante, a atuação da Caritas África, que, por vezes, se sente "impotente para acudir" os necessitados, disse à Lusa o seu presidente. (webremix.info)


Sociólogo diz que império católico agoniza nas sociedades modernas

PARIS - O sociólogo francês Olivier Bobineau, especialista em religiões no Instituto de Ciências Políticas de Paris (Sciences-Po), define a renúncia do Papa Bento XVI como um ato de impotência face a uma profunda e crescente crise da Igreja Católica nas sociedades modernas, e exclui razões de saúde para a sua demissão. “Há um choque antropológico. O império católico romano agoniza nas sociedades modernas, individualistas e liberais”, diagnostica.

Na sua avaliação, o papado “mediano” de Bento XVI foi abalado pelo escândalo do VatiLeaks e, para a sua sucessão, prevê a eleição de um Papa conservador, com capacidade de liderança, um gestor que tenha um amplo conhecimento do funcionamento e dos bastidores da Santa Sé. O analista lançará no próximo dia 7 o livro “L’empire des papes — Une sociologie du pouvoir dans l’Église” (“O império dos Papas — Uma sociologia do poder na Igreja”, editora CNRS).

A renúncia do Papa tem sido avaliada por muitos fiéis e analistas como um ato de humildade e de coragem, mas o senhor não vê desse modo...

Alguns avaliaram, inclusive, como um gesto moderno. Não foi. Trata-se de uma crise profunda, que dura há anos e que progride nas sociedades modernas. Há uma antropologia contraditória. O catolicismo romano é a aliança entre uma mensagem, o amor — o termo “ágape” (amor em grego) aparece 117 vezes no Evangelho —, e uma instituição hipercentralizadora, piramidal, a Cúria Romana. O Papa tem o poder soberano. É o imperador da fé. Ele intervém no mundo temporal, é o chefe do direito canônico e declara quem é santo ou não. Essa é a antropologia católica romana: uma instituição que coloca os homens e seus sentimentos sob uma autoridade. E todos os sociólogos concordam em dizer que a modernidade é a cultura da separação entre as instituições e os sentimentos dos indivíduos. Eles não pertencem mais à aldeia, à paróquia; eles querem se tornar cada vez mais autônomos. A antropologia moderna libera os indivíduos da tutela das instituições. E a antropologia católica é a instituição suprema que quer colocar sob sua tutela os sentimentos dos indivíduos. Ocorre, então, um choque antropológico, e essa é a crise de fundo. Minha tese é que o império católico romano agoniza nas sociedades modernas. E o Papa, o que disse? “Eu não tenho mais a força, o mundo está agitado, há muita mudança e movimento.” É uma confissão de impotência por trás desse cansaço psicológico e físico. Não são razões de saúde que estão por trás. O Papa não sabe administrar a Igreja nos tempos modernos. Que seja o VatiLeaks, os rumores, as traições, tudo isso não surpreende, e mostra como a gestão é defasada.

Qual a perspectiva futura?

Na Europa, haverá bolsões de resistência, alguns católicos que têm necessidade de instituições, de regras sobre as relações, sobre os preservativos etc. Mas, em sua maioria, os indivíduos das sociedades modernas europeias não querem saber disso. No Brasil, na América do Sul, na África, na Ásia, a tradição ainda tem um sentido, então, o catolicismo romano tem sua força. Mas será preciso manter isso. O catolicismo romano considera que é verdadeiro e legítimo o que vem de cima e passa pelo Papa. As sociedades modernas individualistas consideram verdadeiro e legítimo o que vem de baixo, da discussão, da deliberação de vários homens.

O senhor indica três hipóteses para a sucessão de Bento XVI...

A opção mais provável é a eleição de um Papa conservador. Poderá ser um italiano, porque conhece bem a Cúria Romana. Ou se terá um Pontífice conservador administrador ou um conservador não europeu, mas muito conservador, seja brasileiro, quebequense ou africano. A segunda hipótese seria um Papa carismático, como João Paulo II. Nesse caso, seria um carismático pela conservação da estrutura e da teologia ou alguém que promova algumas mudanças, mas não muitas. A terceira hipótese, menos provável, seria a escolha de um reformador, mais progressista. O catolicismo romano é romano porque o Pontífice possui todo o poder. Se amanhã seu poder for sabotado, não se terá mais uma Igreja Católica Romana, mas uma Igreja Católica. O Concílio Vaticano II promoveu inovações litúrgicas, abriu vias ao ecumenismo, ao diálogo com os protestantes e com os ortodoxos, estendeu a mão aos judeus, deu espaço à liberdade de consciência. Há uma corrente que diz que se cortou a madeira morta, mas o tronco foi mantido. Imaginar o casamento de padres, a ordenação de mulheres, é algo fora da Igreja Católica Romana. O único momento de democracia da Igreja é o conclave, na hora do voto, mas os eleitores são todos conservadores.

Qual o grau de influência do Papa?

O Papa tem influência na mentalidade dos católicos. Quando ele faz uma alusão contra o casamento gay, há católicos na França que saem à rua para manifestar. Ele tem um poder moral com consequências políticas. Mas é um império em agonia nas sociedades modernas, com 2% de praticantes na Europa e com um envelhecimento de sua população no meio rural. Havia mil padres ordenados por ano após a Segunda Guerra Mundial e, hoje, esse número caiu para 85.

Que balanço o senhor faz do papado de Bento XVI?

Ele foi traído por seus próximos, o mordomo, o VatiLeaks. Ele não soube bem administrar a relação com o Islã, foi atrapalhado o seu discurso de Ratisbone. Não conseguiu reintegrar os integristas católicos. Condenou os crimes dos padres pedófilos, mas tarde demais. É um balanço pastoral bem médio. Mas, no plano teológico, fez algo genial na sua encíclica “Deus Caritas Est”, publicada em janeiro de 2006. Na primeira parte dessa encíclica, diz que o amor descendente, o ágape de Deus para os homens, que trata do abandono ao outro, pode por vezes encontrar o que chama de amor ascendente, o ágape de Deus para os homens, que trata do abandono ao outro, pode por vezes encontrar o que chama de amor ascendente, o amor da carne, o eros em grego. O amor espiritual pode encontrar o amor corporal. Isso é um avanço na teologia. Um Papa escrever que eros e ágape não são opostos, bravo! Mas, na segunda parte da encíclica, ele diz que o amor é enquadrado, desenvolvido e sustentado pela organização, pelas instituições. Uma pena.

(webremix.info)


Destino: Brasil

Resolver o problema da carência de médicos, especialmente em regiões distantes e com menor densidade populacional, é uma prioridade do governo federal que está saindo do papel. Recentemente, os ministérios da Saúde e da Educação ampliaram as vagas para os cursos de medicina e estabeleceram estímulos ao trabalho de recém-formados em determinados municípios. São medidas polêmicas. Puxam o fio da meada do planejamento da oferta de médicos e preveem a intensificação de responsabilidades governamentais. Entretanto, não respondem às expectativas da criação de carreiras adequadamente remuneradas, nem aos requerimentos sobre a qualidade da formação e atualização dos médicos. O mero aumento do número de egressos e a instituição de programas de estágios em zonas carentes, num país que tem uma perversa distribuição de recursos assistenciais, sem contrapesos à tendência de concentração, podem redundar no inchaço de médicos nos grandes centros urbanos. Certo mesmo é que ambos os esforços não respondem às demandas imediatas de saúde da população e às promessas eleitorais de muitos prefeitos recém-empossados. Essas iniciativas não empolgam quem está à frente de mandatos com prazos definidos.

O que arrasa na pista é o anúncio da política de importação de médicos. A justificativa para estimular a imigração é a perene dificuldade em atrair médicos brasileiros para trabalhar em áreas consideradas pouco acessíveis ou inóspitas, combinada com os relatos de viagens de técnicos a países desenvolvidos e alguns da América do Sul que contam com profissionais de saúde estrangeiros. Além disso, trazer médicos de fora para atender quem está desassistido não afeta os interesses das empresas privadas nem de seus clientes satisfeitos, evitando mais uma vez o confronto entre a expansão e alocação dos recursos existentes sob a lógica das necessidades de saúde, e não dos maiores lucros.

Pelo que se ouve dizer, a política brasileira para importar médicos vai misturar chiclete com banana. Países ricos com elevada proporção de médicos estrangeiros (como EUA, 25%, e 40% no Norte do Canadá) mantêm rigorosíssimos exames e programas de treinamento para o denominado International Medical Degree — direcionados inclusive aos seus cidadãos diplomados em outros países. Nesses países, os profissionais de saúde são submetidos às leis de migração, como qualquer outro trabalhador. A experiência da Venezuela é bem diferente. Lá a importação de médicos cubanos em 2003, mediante um convênio intermediado pelo Colégio Médico de Caracas no Município Libertador. Atualmente, a permanência de cerca de 32 mil profissionais de saúde, entre os quais aproximadamente 20 mil médicos (que se dedicam a atender os segmentos populacionais não cobertos pelos seguros sociais e sem poder de pagamento por assistência privada), é mantida pelo envio de petróleo venezuelano para Cuba e pagamento de uma remuneração inferior à dos nativos. No Brasil, os incentivos à vinda de estrangeiros combinariam uma política migratória seletiva para médicos de todas as nacionalidades, com a isenção de submissão prévia dos imigrantes aos testes de revalidação de seus diplomas. Os idealizadores da política apostam que os valores pagos aos médicos tornarão o país atrativo não apenas para cubanos, bolivianos, mas também para espanhóis e portugueses, cujos empregos estão sendo erodidos pela crise econômica mundial.

A praticidade da solução, especialmente a rapidez de sua implementação por meio de medida provisória, passando por cima do poder de controle da profissão das entidades médicas, é inegável. A esperada redenção do atraso de imensos territórios brasileiros às benesses da medicina moderna tende a abafar questionamentos sobre a adequação da solução ao problema. Qualquer dúvida sobre os métodos de desenho e aprovação do programa de imigração ou insistência em exigir garantias de permanência sustentada de médicos é vista como uma barreira à passagem do progresso. Porém, nem tudo que se apresenta ao debate é esnobismo, preconceito e desprezo pelo destino de brasileiros sem acesso a serviços de saúde. A migração de médicos não é infalível. Dificuldades de entendimento da língua, das etiquetas nacionais para o atendimento aos pacientes, das regras formais e informais para referenciar doentes e a dependência de empregos de médicos de partidos e coalizões políticas não são detalhes.

Os médicos que migram para os países afluentes buscam melhores condições de trabalho e de vida. O fluxo é cruel; as principais fontes de trabalho dos médicos são as nações subdesenvolvidas. Os países com maiores índices de emigração situam-se na África subsaariana, Caribe e Ásia. Um em cada dez médicos na Inglaterra é de origem africana enquanto que o continente se vê às voltas com índices alarmantes de doenças. Cuba é um celeiro de médicos; muitos estão dispostos e preparados para desempenhar atividades em situações precárias. Se essas inclinações permaneceram inalteradas, não será nada tranquilo alocar médicos europeus em cidades que não disponham de redes completas de serviços de saúde. Os lugares com rarefação de médicos provavelmente chamarão para si médicos provenientes de países tão ou mais necessitados de competência assistencial do que o Brasil, tal como já ocorre nas regiões Sul e Norte. A novidade será o ingresso massivo e pela porta da frente dos cubanos, e o desafio que não poderá ser postergado é a integração dos programas governamentais.

O Brasil é diferente da Venezuela, aqui o sistema da saúde é universal e a legislação veda a organização de subsistemas para pobres. A migração de médicos já é em si um tema controverso e pode se tornar explosivo se os médicos estrangeiros e seus pacientes forem discriminados. A imigração de médicos não é uma panaceia, nem um pecado, precisa ser discutida. Prevendo os conflitos de interesse, a Constituição de 1988 dispôs que as políticas de saúde fossem formuladas e aprovadas por instâncias como as conferências e conselhos de saúde. O Conselho Nacional de Saúde, presidido por Maria do Socorro de Souza, representante da Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura, no qual participam médicos, empresários e usuários, entre os quais indígenas e populações ribeirinhas, é uma instância representativa, adequada ao exame de divergências, construção de consensos pelo diálogo e imune à simplificação do jogo democrático à relação entre eleitores e eleitos de apenas um mandato.

Ligia Bahia é professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro

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Governo quer autonomia bélica brasileira

BRASÍLIA — O governo decidiu adotar como estratégia para fortalecer o sistema de defesa nacional a cooperação e a formação de polos produtores com os vizinhos sul-americanos e com os países da África ocidental. O ministro da Defesa, Celso Amorim, disse ao GLOBO que esse tipo de integração faz parte do processo de revitalização da indústria brasileira. Um dos objetivos é tornar o Brasil menos dependente de equipamentos e da tecnologia estrangeira. Em uma missão inédita, Amorim, que foi ministro das Relações Exteriores no governo Lula, embarca hoje para Angola e Namíbia, acompanhado de executivos de 12 empresas brasileiras interessadas em fazer negócios, joint-ventures e outros tipos de cooperação no continente africano.

Amorim lembrou que, com aprovação da Lei 12.598, o governo está regulamentando as Empresas Estratégicas de Defesa (EED), que deverão ser líderes nacionais e regionais, com incentivos tributários e concorrenciais, para fortalecer a autonomia bélica do país, e, de quebra, estimular a indústria e a balança comercial.

— Essas medidas legislativas são importantes, não só porque a defesa é um estímulo importante para a indústria em qualquer país do mundo, mas também porque é preciso ter um grau razoável de autonomia tecnológica e industrial para garantirmos a defesa. Interessa ao governo promover os dois lados — disse o ministro.

No roteiro, a América do Sul

Amorim destacou que o governo quer elevar o percentual histórico de investimentos do setor público em defesa, de 1,5% do PIB para cerca de 2%, em um horizonte de dez anos. A meta consiste em um estímulo suficiente para que empresas de pequeno, médio e grande portes ingressem no mercado armamentista e invistam também no mercado externo.

Na viagem para Namíbia e Angola, Amorim levará Embraer, Condor, Schmid Telecom, Avibras, Agrale, Andrade Gutierrez, Taurus, Odebrecht, Emgepron, CBC, VBR e H2Life. A missão é o primeiro passo de uma prospecção no continente e a ideia do ministro é repetir o sucesso que o Brasil vem obtendo nas relações com os países da América do Sul.

Segundo o ministro, o Brasil já consolidou parcerias estratégicas em toda a América do Sul, tendo como fórum de referência o Conselho Sul-Americano de Defesa. Há, por exemplo, a participação da indústria argentina na composição do avião de carga KC-390, da Embraer; a compra de quatro lanchas fluviais da Colômbia; o projeto de criação de um navio patrulha fluvial por brasileiros, colombianos e peruanos; além de articulações para a contratação conjunta de veículos aéreos não tripulados (vants).

— Queremos criar uma indústria de defesa sul-americana, até porque ninguém quer ser simplesmente um mercado. Na Europa, isso já acontece e aqui cooperamos de igual para igual — disse. — Queremos agora algo semelhante com a África, porque há um interesse comum em manter o Atlântico Sul livre de conflitos, diante das riquezas que ele possui.

Além da óbvia defesa do pré-sal, segundo Amorim, o Brasil também tem preocupação com recursos geológicos no fundo do Atlântico, onde já existem pesquisas avançadas. Há, ainda, grande preocupação com a pirataria, uma vez que boa parte do comércio exterior brasileiro, incluindo importações de petróleo, passam por essas águas.

Todos os três navios de patrulha oceânica comprados pelo Brasil da BAE Systems, do Reino Unido, por exemplo, passaram por portos africanos antes de chegar. Segundo Amorim, Angola, que já tem parcerias com o Brasil, quer que as empresas brasileiras façam lá joint-ventures.

— Mas as empresas é que vão ter a última palavra.

‘Tecnologia não se dá’

Com o chamado Brics (sigla para o bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), há parcerias em formato bilateral. Por exemplo, o Brasil acaba de formalizar a aquisição de equipamentos de artilharia antiaérea da Rússia, tem parceria para a construção de mísseis ar-ar com a África do Sul e o próprio ministro visitou recentemente a Índia. No caso da China, a parceria no campo espacial acaba tangenciando o setor militar.

Segundo Amorim, “nossa cooperação não se esgota nas vendas”. Ele, porém, é cético em relação às promessas de transferência de tecnologia dos países desenvolvidos.

— Tecnologia não se dá.

Amorim contou que, quando trabalhava no Ministério de Ciência e Tecnologia, perguntou a um colega qual a diferença entre dar e transferir.

— A resposta foi: “Se eles te derem, é ciência; se te venderem, é tecnologia”.

(webremix.info)


Bento XVI foi ‘o Pontífice mais solitário’, avalia biógrafo alemão

BERLIM - “Este Papa vai entrar para a História da Igreja como o Pontífice mais solitário”. É com esta frase contundente que o jornalista e escritor alemão Andreas Englisch, autor do livro “Benedikt XVI. Der deutsche Papst” (“Bento XVI. O Papa alemão”, em tradução livre), avalia o fim do papado de seu biografado, que renunciou ao Trono de São Pedro anteontem.

— Ele (o Papa) costumava reclamar muito de que havia gente no Vaticano trabalhando contra ele. Bento XVI se sentia muito atacado pelos cardeais — conta Englisch, em entrevista ao GLOBO, em Berlim.

Para o vaticanista, que chegou a ouvir do próprio Bento XVI que não ficaria à frente da Igreja Católica até a morte, o Papa renunciou ao cargo agora não só por conta de sua idade avançada e por seus possíveis problemas de saúde, mas também por ter sentido a falta de apoio dentro do Vaticano.

Na opinião de Englisch, não só os escândalos de pedofilia e os casos de abuso sexual abalaram o papado de seu conterrâneo. Também entraram na conta da renúncia o desgaste provocado pela reconciliação com a Fraternidade de São Pio (excomungada pelo Papa João Paulo II, em 1988) e o vazamento de documentos confidenciais do Vaticano, feito por seu mordomo, Paolo Gabriele, no caso que ficou mundialmente conhecido como VatiLeaks.

O escritor enxergou a eleição de Joseph Ratzinger para o cargo mais alto da Igreja Católica, em 2005, “como uma execução” do religioso. Ele conta que também pesou contra o papado de Bento XVI o fato de ele ter sido o sucessor do carismático e popular João Paulo II.

Enquanto o Papa polonês gostava de tomar decisões, o alemão preferia delegar. Agindo dessa forma, diz Englisch, ele não liderou nem o Vaticano nem o 1,2 bilhão de católicos espalhados pelo mundo.

— João Paulo II foi um Papa mais bem sucedido. Ele reabilitou (o físico, astrônomo e filósofo) Galileu Galilei e ajudou a derrubar o Muro de Berlim, com a abertura dos regimes no Leste Europeu — lembra Englisch. — Já o Papa alemão reabilitou o bispo Richard Williamson, da Fraternidade de São Pio, que negava o Holocausto. Sinceramente, eu esperava que Bento XVI tivesse admitido oficialmente que a Igreja Católica falhou durante o nazismo e a Segunda Guerra Mundial, mas não o fez.

Igreja Rachada na Alemanha

Nos oito anos do papado de Bento XVI, ressalta o escritor, a Igreja Católica da Alemanha rachou dividida entre as forças conservadoras, que seguiam o Pontífice, e as liberais, que obedeciam a alguns cardeais. O clima de intrigas no país chegou a um nível tão alto que fiéis alemães começaram a gravar trechos de pregações feitas por padres liberais e a enviá-los para Bento XVI e seus assistentes com o intuito de denunciar tendências mais liberais.

No mesmo período, a evasão de católicos, ou seja, o número de pessoas que solicitaram oficialmente o desligamento da Igreja em protesto contra o Vaticano — ou simplesmente para poupar o imposto obrigatório pago à Igreja — atingiu os índices mais altos dos últimos tempos.

Enquanto a Igreja Evangélica alemã (protestante) tem um ex-pastor como presidente do país, Joachim Gauck, a Católica tem sido diariamente alvo de críticas. E a popularidade que Joseph Ratzinger adquiriu ao ser eleito Papa foi por terra com os escândalos sexuais e a tentativa de fazer a Igreja voltar à linha conservadora.

Para a sucessão, Andreas Englisch espera uma “verdadeira guerra entre os cardeais”.

— Os italianos, que já são fortes pela presença geográfica, vão querer tomar de volta o papado, mas pode ser que o resto do mundo se alie contra o poder italiano. O novo Papa também pode vir da América do Sul ou da África — destaca o jornalista alemão.

(webremix.info)