Literatura africana e do Cararibe

Notícia : Literatura africana e do Cararibe

Gramiro de Matos: arqueologia de um autor 'impenetrável'

RIO — O editor e pesquisador Leonardo d'Ávila chegou à obra de Gramiro de Matos graças a um esforço coletivo da Universidade Federal de Santa Catarina para reler autores que poderiam ser identificados como pós-tropicalistas. O autor baiano, que participou tardiamente do movimento junto com Waly Salomão, Torquato Neto e outros, andava completamente esquecido. Nos anos 1970, ele lançou livros elogiados pela crítica, como "Urubu-Rei" e "Os morcegos estão comendo mamãos maduros", que desafiavam a leitura por seu experimentalismo intransigente. Em seguida, foi estudar em Portugal e saiu do radar. O livro do autor que d' Ávila reedita agora, pela Cultura e Barbárie, é uma obra obscura e rara do autor, "A conspiração dos Búzios". Publicada originalmente em 1978, só havia ganho até então uma versão artesanal.

Gramiro, inclusive, andava tão esquecido que nem mesmo seus amigos próximos lembravam dele. O editor só conseguiu contatá-lo após uma busca online — encontrou-o graças a um comentário que havia feito em uma reportagem na internet. A partir daí, veio a ideia de relançar o livro, que acaba de chegar às livrarias. Em entrevista ao GLOBO, Leonardo d'Ávila explica a importância de recuperar a obra de Gramiro de Matos, quase 40 anos após seu lançamento.

Depois da edição original publicada de forma artesanal, o livro nunca mais foi reeditado? Qual foi a repercussão do livro na época?

O livro foi publicado em 1978 apenas em uma edição artesanal e pouquíssimo conhecida, a qual contou com uma capa magistral elaborada por Mário Cravo Neto. Contudo, a raridade da edição não foi a única responsável pela pouquíssima repercussão à época, haja vista que seus outros livros publicados também não tiveram grandes tiragens e, mesmo assim, conseguiram alguma visibilidade no cenário cultural brasileiro, como "Urubu-Rei", de 1972. Possivelmente, mais do que pela raridade do livro, a pouca difusão pode ter ocorrido pelo fato do autor ter se afastado do Brasil e de seus meios artísticos durante seu doutorado entre Portugal e a África de língua portuguesa (1974-1978). No mais, à época da edição artesanal, o regime militar ainda estava em plena vigência e, em momentos como aquele, a recepção de um livro, ainda que não estivesse necessariamente impossibilitada, tornava-se muito imprevisível. De qualquer modo, é interessante destacar como alguns elementos do livro, a exemplo da descolonização e da menção de ideias de negritude, tenham se dado em concomitância com os Cadernos Negros do grupo Quilombhoje, que passou a reivindicar uma literatura afro-brasileira. Ainda que haja infinitas diferenças entre a obra de Gramiro e a desses autores afro-brasileiros, não se pode negar que são diferentes manifestações de uma mesma atmosfera cultural. Portanto, mesmo que não tenha sido conhecido pelo leitor brasileiro nos anos 70, não seria possível dizer que "A Conspiração dos Búzios" foi um trabalho isolado ou fora de contexto.

"Romance histórico" é um termo correto para definir de "A conspiração dos búzios"?

A princípio, não seria possível reconhecê-lo enquanto tal. Isso porque o autor não trata de personagens médios dentro de uma dinâmica social que termina por tornar protagonista. Como retrata com minuciosidade os heróis da Revolução dos Búzios (também conhecida como Revolução dos Alfaiates, Conjuração Baiana, etc), haveria até certa tonalidade épica, a qual se desfaz completamente quando surgem documentos oficiais do século XVIII ao lado de jogos de adivinhações. Além disso, o próprio termo romance já seria impróprio quando o livro apresenta divisões como um roteiro cinematográfico. Ainda assim, o termo romance histórico é importante enquanto um fundamento paródico para essa prosa fragmentária, própria de um contexto de contracultura. Há de se reforçar, assim, o esforço jocoso para jogar com esse gênero literário. Entretanto, ainda que haja paródia e certo formalismo na linguagem, a maior força da literatura de Gramiro de Matos se dá na expressividade da fragmentação na língua, na descrição dolorosa de violências que nunca se ausentaram da história do Brasil e no choque de padrões estéticos mediante experimentação. Todos esses desdobramentos na língua, nas narrativas históricas e nos gêneros literários possuem uma inegável historicidade.

Antes de ir para a África, qual era o lugar de Gramiro no movimento tropicalista?

Gramiro participou do movimento, mas foi um dos mais jovens do grupo no Rio de Janeiro, sendo um autor que começou a publicar quando o tropicalismo já estava em um momento de crise. Nesse aspecto, seu segundo livro, Os morcegos estão comendo os mamãos maduros, de 1973, já manifesta uma linguagem mais marcada pela violência do que pela “curtição”. "Me segura q’eu vou dar um troço", de Wally, em grande parte, também possui essa característica, a qual, aproximada a um trabalho igualmente complexo com a língua, contribuiu para uma aproximação de ambos os autores pela crítica. O trabalho mais significativo nesse sentido foi o de Silviano Santiago, que, em Uma literatura nos trópicos, dedicou um capítulo aos “abutres” Wally e Gramirão, tratando-os com igualdade de importância ou de valor. Ainda assim, Gramiro foi considerado sempre o autor mais impenetrável por boa parte dos próprios poetas marginais. Inclusive em uma rápida conversa que tive com Chacal no ano passado, o poeta afirmou ter muita dificuldade para compreender Gramiro e que não se identificava com tamanho experimentalismo. Por isso, Gramirão, como era conhecido, teve um lugar de destaque no tropicalismo e na literatura marginal, ainda que esse lugar tenha sido o de “autor incompreensível”, o que também pode ter contribuído para a sua menor projeção, não apenas em relação ao público ou à crítica, mas entre seus próprios companheiros. Possivelmente "A Conspiração dos Búzios", escrito em uma prosa um pouco mais convencional, poderá relativizar esse preconceito.

A questão da língua como forma de resistência, e a relação entre colonizadores e colonizados através da língua, são importantes na obra de Gramiro, em especial na "Conspiração dos Búzios". Outros escritores de língua portuguesa foram tão longe quanto ele nesse aspecto?

Em relação à criação artística, pode-se dizer que há outros que se destacam tanto quanto ele. Isso porque as ex-colônias portuguesas foram verdadeiras “Mecas” para a contracultura brasileira tanto quanto a Índia ou o Marrocos o foram para a contracultura de outros países. Um dos maiores autores a produzir na África uma arte dionisíaca – ou melhor, de Exu – foi José Agrippino de Paula, cujas filmagens das danças de Maria Esther Stockler, se não são representações do processo de descolonização, certamente são vestígios da importância da contracultura enquanto um dispositivo de aproximação entre Brasil e África nos anos 60 e 70. Já em relação a estudos acadêmicos, há, sim, uma importância única da parte de Gramiro de Matos. Sua tese doutoral, financiada pela Fundação Caloustre Gulbenkian, investigou os impactos da poesia brasileira modernista dentro das literaturas de países africanos de língua portuguesa e é razoavelmente conhecida por pesquisadores desse ramo de estudo. Certamente os conceitos e métodos da literatura comparada mudaram bastante desde aquela época e existem trabalhos mais detalhados sobre o mesmo tema. Ainda assim, o trabalho de Gramiro é singular e insuperável no fato de haver sido realizado em contato direto com poetas africanos em meio às próprias lutas de descolonização.

Pretende editar outros livros de Gramiro fora de catálogo?

"A Conspiração dos Búzios" era uma lacuna da obra de Gramiro que necessitava passar por um processo de editoração e divulgação para ser finalmente conhecida pelo leitor brasileiro. Há grande interesse no relançamento de "Urubu-Rei" e de "Os morcegos estão comendo mamãos maduros". Tais edições certamente se justificariam pela própria possibilidade da inclusão de textos que não fizeram parte daquelas edições, mas que compunham a coletânea original. Ainda assim, as reedições teriam de respeitar o fato de Gramiro ser um autor vivo, não sendo cabível enquadrar sua obra enquanto material de arquivo ou edição crítica. No mais, o interesse renovado pelo sucesso de vendas de Leminski ou Ana C., e seus laços com Gramiro, tanto ajudam quanto comprometem a promoção de um escritor que ainda pode publicar novos textos.

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Poeta caribenho e vencedor do Nobel, Derek Walcott morre aos 87 anos

RIO - O poeta caribenho Derek Walcott, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1992, morreu nesta sexta-feira em casa, na ilha de Santa Lúcia, aos 87 anos. A morte foi anunciada pela sua família.

O mais famoso cidadão do pequeno país, Walcott manteve como os três pilares da sua poesia o Caribe, onde nasceu e viveu, a língua inglesa e sua origem africana. Sua obra, que atravessou seis décadas do século XX, o tornou um dos principais autores da segunda metade do século XX.

No Brasil, a Companhia das Letras publicou, em 2011, o livro "Omeros", com tradução de Paulo Vizioli. Na obra, um misto de poesia, romance e roteiro de cinema, Walcott vai dos heróis gregos a uma pequena aldeia no Caribe para refletir sobre a destruição da natureza, a identidade das minorias e o desenraizamento individual e coletivo.

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Morre o Prêmio Nobel de Literatura Derek Walcott aos 87 anos


A família do Prêmio Nobel de Literatura Derek Walcott informou que ele morreu em sua casa em Santa Lúcia, aos 87 anos. Walcott era um poeta prolífico e versátil, cujo trabalho deslumbrante e cuidadoso capturou a essência do seu Caribe nativo, e lhe rendeu uma reputação de um dos maiores escritores da segunda metade do século 20. Walcott era há tempos o cidadão mais proeminente da ilha no leste do Caribe, St. Lucia. Fonte: AP (webremix.info)


Evento no IMS apresenta as origens de Carolina Maria de Jesus

RIO — No final dos anos 1950, um repórter da revista “O Cruzeiro” fazia um artigo sobre a Favela do Canindé, em São Paulo, quando conheceu uma catadora de papel que vivia em um dos barracos com três filhos pequenos. Chamava-se Carolina Maria de Jesus e escrevia romances, poesia e memórias nos cadernos que encontrava no lixo. O repórter Audálio Dantas pediu para ver as brochuras e animou-se em publicar principalmente os diários de Carolina, onde ela escrevia sobre a vida na favela, em trechos corrosivos como o final do dia 24 de julho de 1955: “Como é horrível levantar de manhã e não ter nada pra comer. Pensei até em me suicidar. Eu me suicidando é pôr fim à deficiência de alimentação do meu estômago. E por infelicidade eu amanheci com fome. Os meninos ganharam uns pães duros, mas estavam ‘recheiados’ de pernas de baratas. Joguei fora e tomamos café. Botei o feijão pra cozinhar”.

“Quarto de despejo: diário de uma favelada” foi publicado em 1960 e tornou-se um sucesso editorial, vendendo dez mil exemplares só nos três primeiros dias de lançamento. Carolina foi traduzida para 14 idiomas, vendida em 40 países, viajou por todo o Brasil para eventos literários, foi aclamada por escritores ilustres, gravou um disco com canções de sua autoria. Mas os livros seguintes não tiveram tanto êxito comercial e até hoje são difíceis de encontrar. E a trajetória de Carolina foi repetida na história literária brasileira como obra do acaso — uma flor rara nascida no lixão, uma exceção voluntariosa da carência.

Literatura ofuscada

Na próxima terça-feira, dia do aniversário da escritora Carolina Maria de Jesus (1914-1977), o evento comemorativo “Carolina de Jesus: uma voz soberana”, na sede do Instituto Moreira Salles (IMS), vai mostrar ao público que a história não foi bem assim. Depois da exibição, às 15h, do filme “Favela: a vida na pobreza”, da alemã Christa Gottman — fita de 1971 impedida de ser exibida à época no Brasil, por mostrar a miséria do Canindé, sendo restaurada pelo IMS em 2014 —, haverá uma palestra da historiadora da USP e pós-doutora em Literatura pela Universidade de Boston Elena Pajaro Peres, especialista na obra de Carolina, que foi a primeira pesquisadora a levantar as raízes da autora.

— A literatura de Carolina foi ofuscada pela questão social. Para compreender a autora, é preciso se afastar do “Quarto de despejo”, e mergulhar na sua trajetória para entendê-la como artista. Deslocar o foco para o seu percurso criativo — explica Elena, que com apoio da Fapesp foi em busca dos rastros de Carolina na cidadezinha de Sacramento, no sudoeste de Minas, como trabalho do seu pós-doutorado.

Foi lá que Carolina nasceu, em uma família de ex-escravos oriundos da África Central.

— Acho importante destacar essa linhagem afro-diaspórica que não estava contada. Carolina nasceu num ambiente de tradição oral muito forte. Havia um homem citado em suas memórias, um oficial da Marinha, que lia os jornais do dia em voz alta para os negros que não sabiam ler na cidade, em praça pública. Foi com ele que Carolina começou a exercitar sue pensamento crítico. Ela era tão curiosa que aprendeu a ler sozinha e estudou por dois anos numa escola destacada, o Colégio Espírita Allan Kardec, que hoje é um centro espírita. A Congada, festa em homenagem à Nossa Senhora do Rosário, do grupo afro-católico daquela região de Minas Gerais, foi muito importante para a construção do imaginário da escritora. Portanto, Carolina não é um milagre surgido por acaso no lixo, autora de um relato testemunhal apenas. A sua obra não parte da carência. Ela já escrevia desde criança, e já tinha muitas poesias e romances prontos quando o Audálio a conheceu e se interessou por seus diários.

A história não estava esclarecida, lembra Elena, porque faltava interesse em pesquisá-la. O que aumentou bastante quando do centenário da autora, celebrado em 2014. Com a efeméride, sua obra foi mais divulgada no Brasil, e hoje há dissertações e teses brotando em universidades como USP, Unicamp, UFMG e faculdades americanas.

— Há uma figura que Carolina destaca muito em suas memórias, o avô Benedito, que reforça o elo que ela tinha com sua linhagem africana, ainda em Sacramento, antes de ir embora para São Paulo e passar pelas dificuldades que relata em “Quarto de despejo”. Ele era o “ancestral”. Desde menina, o que ela queria era publicar os romances, os contos, as peças de teatro, ela nunca teve a intenção de transformar as memórias em livros. O primeiro livro que leu, uma vizinha emprestou, “A escrava Isaura”. Também lia Camões, folhetins, poetas românticos brasileiros. Seus romances, como “Pedaço de fome”, hoje raríssimo em sebos, mostram essa influência. É absolutamente romântico — enfatiza Elena, lembrando que há muito material de Carolina ainda não publicado. — Há documentos no próprio acervo do IMS, que tem dois cadernos dela (desde 2006), mas há também manuscritos em Sacramento, na Biblioteca Nacional e até na Biblioteca do Congresso Americano. Há muito a ser descoberto sobre Carolina ainda.

O interesse internacional na obra de Carolina chama a atenção. Sucesso principalmente nos EUA, onde “Quarto de despejo” é lido em escolas até hoje, Carolina teve o livro “Diários de Bitita” publicado primeiramente na França, em 1982, na Espanha, em 1984, e só depois no Brasil, em 1986.

— Numa palestra que dei na Alemanha, um editor me procurou ao final, interessadíssimo em publicá-la. Carolina foi uma lavradora, contista, romancista, cozinheira, sambista, empregada doméstica, poeta. Para ela, a literatura não era uma opção, era uma condição de vida.

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Refugiados viram professores em curso de idiomas no Rio

RIO - Um jovem sírio escreve no quadro 28 letras incompreensíveis para um ocidental leigo. Explica que em árabe não existe som de "p", e que aquela escrita, feita da direita para a esquerda, é muito antiga. Na sala ao lado, um venezuelano ensina quando usar "usted" (senhor) ou "tú" (tu) para se dirigir a alguém em espanhol. E sugere aulas de arte pré-colombina ou salsa para imergir na cultura latina. São muitas línguas num mesmo ambiente: Hadi Bakkour e Gustavo Martínez são professores num curso de idiomas que cresce no Rio e em São Paulo com aulas dadas exclusivamente por refugiados ou solicitantes de refúgio no Brasil.

As vidas do sírio Hadi e do venezuelano Gustavo, antes separados por 11 mil quilômetros, se cruzaram na ONG Abraço Cultural no Rio. Além deles, há colegas haitianos, congoleses... A aposta é que, além de idioma, haja também troca de experiências culturais. Hadi, de 22 anos, gosta de levar música e referências de teatro - ele estuda Direção Teatral na UFRJ. Gustavo, de 28, comenta sobre comida, literatura latino-americana. Em comum, todos aprenderam a chamar o Brasil de casa.

- Não saí do meu país em busca de riqueza. Vim porque queria trabalhar e ter algo de liberdade - conta Gustavo, há cerca de dois anos no Rio. - O pior foi quando me dei conta de como a política se apropriava da sociedade venezuelana. Inclusive no meu trabalho. Eu dava aulas em escolas e queriam que eu usasse textos que falavam do governo.

Acolher, palavra poliglota: Refugiados viram professores em curso de idiomas no RioGustavo chegou ao Rio com um amigo. Para sair da Venezuela alegou que faria turismo no Brasil, mas não voltou mais a seu país. No Brasil, entrou com um pedido de refúgio. Para trás ficaram mãe, irmãs, amigos.

- Tento sempre me comunicar com eles, e tenho medo do que possa acontecer com a minha família. Existe racionamento de comida, e o governo tem o controle de tudo. Cada vez a porta se fecha mais. Quando cheguei não havia tantos venezuelanos vindo pro Brasil. Hoje são muitos. Por que será? É claro que algo de errado acontece no meu país - diz Gustavo.

Hadi saiu de Aleppo há três anos. Diz que a intensificação da guerra civil, no início afastada da sua cidade, alarmou sua família. Veio com o irmão para o Rio, onde já tinha uma meia irmã, fruto do primeiro casamento do pai.

- Meu irmão e eu estávamos em idade para prestar o serviço militar. A família ficou com medo. Já não dava para frequentar a faculdade, as ruas estavam perigosas - conta. - Meu pai e minha mãe tentaram morar aqui também, mas não se adaptaram. A vida da mulher é mais restrita na Síria. Para minha mãe tudo que ela tem é sua casa, suas memórias. Ela não quis deixar isso.

No Rio, Hadi e Gustavo aprendem, ensinam e se divertem com as diferenças.

- Uma das palavras que mais gosto em português é "cara". E "caraca". A primeira vez que ouvi a gíria falei: 'Mas é a capital do meu país!'. E falo muito 'cara'. Dizem que já sou quase um carioca - brinca Gustavo.

Hadi aprendeu português com amigos, e treina mais no curso de Direção Teatral, uma paixão que descobriu no Brasil.

- Os brasileiros gostam de ensinar e corrigir as palavras, sem serem rudes. A palavra que eu mais gosto em português é 'amor'. Mas não pelo jeito que se fala, e sim pelo que representa. Aprendi a amar mais aqui - explica Hadi.

Os dois pensam em voltar para seus países, mas não fazem planos a curto prazo. Sonhos eles têm.

- Muitos dos problemas da Síria poderiam ver solução no Brasil, que é mais aberto. E muitos problemas do Brasil poderiam ser resolvidos com inspiração na Síria, que é mais fechada. Um dia ainda vou fazer uma peça que una as duas culturas. Acho que ainda vou viajar por muitos países com isso - diz Hadi.

- Quero voltar um dia para a Venezuela, mas na situação atual não vejo como. Se volto de repente iria até pra cadeia, ou não conseguiria desempenhar meu trabalho de professor. O governo sabe que quem sai do país conta as verdades sobre o que acontece lá - diz Gustavo. Mas a História da humanidade mostra que nada é para sempre. Isso um dia vai mudar. Tenho esperança. Existe sempre uma luz no fim do túnel. Falam assim também em português, não é?

Novas turmas em março

As aulas de idiomas com refugiados começaram em São Paulo no meio de 2015, encabeçadas pela ONG Atados, e depois assumido por seu braço nessa empreitada, a ONG Abraço Cultural. A ideia chegou ao Rio em março do ano passado. Começaram com duas salas e oito turmas, com oito professores. Todos os horários encheram.

- Eles carregam a cultura dos países de onde vêm. Então por que não aproveitar a ideia e juntar cultura e língua, em um ambiente de integração para refugiados e alunos? Eles recebem salários, se destacam como professores. E mostram como são seus países, que normalmente não têm tanto destaque em cursos tradicionais - explica Tatiana Rodrigues, coordenadora da Abraço Cultural no Rio.

Hoje são 14 professores. E a previsão é que haja ao menos 25 turmas para o início do novo semestre de aulas, agora em março. O material didático, incluído no valor do curso, ressalta a variedade de culturas. No de francês, por exemplo, a África é destaque.

- A experiência tem sido excelente, tanto dos professores como dos alunos, que avançam nos módulos do curso, e indicam para amigos, parentes. Sem contar que são aulas acessíveis e diferentes - diz Tatiana. - Alguns alunos chegam sem saber o que significa ser um refugiado. A sociedade tem que conhecer que eles vieram fugidos de guerras, de perseguições. Não tiveram opção.

Ficou curioso? Mais informações em http://abracocultural.com.br

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Livro de Abdias Nascimento que confrontou teoria da democracia racial é relançado

RIO — Em 1977, Abdias Nascimento estava em Lagos, Nigéria, pronto para apresentar, no Colóquio do Segundo Festival Mundial de Arte e Cultura Negras, um ensaio combativo, que buscava desmontar uma teoria amplamente difundida na cultura brasileira e que vinha sendo propagada mundo afora pela ditadura militar da época: a de que a nação vivia em tranquila harmonia racial, e que os negros eram menos excluídos por aqui do que no apartheid da África do Sul ou em certos estados do Sul dos Estados Unidos. Mas o governo brasileiro impediu o dramaturgo e ativista de representar o país no evento, substituindo-o pelo professor Fernando A. A. Mourão, que defendia teorias opostas.

O texto, porém, foi publicado em mimeógrafo pela Universidade de Ife, na Nigéria, onde Nascimento lecionava como professor visitante, e depois distribuído pelo próprio autor aos participantes do colóquio, que foram apresentados a uma visão até então desconhecida do país. A sua tentativa de demonstrar, inclusive com números objetivos, o processo de aniquilação da identidade de homens e mulheres negros por mecanismos socioeconômicos marcou muitos intelectuais africanos. Em 1978, foi publicado em livro no Brasil com o título de “O genocídio do negro brasileiro — Processo de um racismo mascarado”, tornando-se um símbolo da denúncia do racismo — e de seu acobertamento pela sociedade —, inclusive pelo uso sem restrições da palavra “genocídio”, que até hoje gera controvérsia.

Links Prosa

Quarenta anos depois, a obra está sendo relançada pela editora Perspectiva, com prefácios do sociólogo Florestan Fernandes e do Nobel de literatura nigeriano Wole Soyinka (presente no colóquio de 1977), além de um posfácio da viúva de Nascimento, Elisa Larkin. A republicação do texto, acredita ela, traz o registro de um momento decisivo na evolução da luta contra o racismo no Brasil.

— O livro chega agora a um público talvez mais preparado para receber sua mensagem — argumenta Elisa, que dirige o Instituto Ipeafro, fundado por Nascimento. — Já passamos por várias fases de lutas e conquistas em relação a políticas públicas provocadas por questões que o Abdias colocou pela primeira vez. A sociedade se conscientizou o suficiente da existência do racismo para reconhecer o enfrentamento necessário para chegar a essas políticas.

Elisa lembra que, na época, o uso do termo “genocídio” foi visto como “inusitado” e até “agressivo” por alguns. Ao barrar a participação oficial de Nascimento no colóquio, o governo tentou impedir que sua denúncia alcançasse um contexto internacional. Porém, o conteúdo explosivo de seu texto ganhou enorme repercussão, em parte graças à mobilização de intelectuais nigerianos.

— O Brasil usava a imagem da chamada “democracia racial” como apelo para exportar produtos a países africanos — lembra Elisa. — Abdias sublinhava como esse comércio alimentado por uma mentira beneficiava apenas uma elite racista que discriminava os negros em condições de trabalho degradantes.

"O genocídio do negro brasileiro"

Autor: Abdias Nascimento

Editora: Perspectiva

Páginas: 232

Preço: R$ 45,00

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Clássico do humor americano, ‘Dicionário do diabo’ chega ao Brasil (webremix.info)


'A Odisseia do Cinema Brasileiro' traz outro olhar sobre produções nacionais (webremix.info)


Artigo: Antes de 1916, por Nei Lopes

Alguns antigos dicionários da língua brasileira, como o de Macedo Soares, publicado em 1888 e o de Beaurepaire-Rohan, do ano seguinte, verbetizaram o substantivo masculino “samba”, definindo-o apenas como um tipo de dança. Da mesma forma ocorreu com o “Dicionário da língua portuguesa”, de Cândido de Figueiredo, em 1899. Isso confirma a constatação do indispensável José Ramos Tinhorão, segundo a qual, antes de seu objeto ser visto e definido como gênero de música popular “cultivada conscientemente”, a designação samba se aplicava a qualquer estribilho batucado, de feição africana.

Links Especial 100 anos de sambaRealmente, em diversas obras da literatura brasileira com ação no meio rural, escritas no século XIX ou no início do seguinte, ocorrem referências a danças animadas por refrões e batucadas, mencionadas como batuques ou sambas, denominações essas estendidas aos eventos em que elas se realizavam. Assim, no clássico “Os sertões”, Euclides da Cunha escreveu: “Encourados de novo, seguem para os sambas e cateretês ruidosos...”. E isto quase ao mesmo tempo em que o memorialista baiano Manuel Querino, em 1916, escrevia: “Aqui era o samba arrojado, melodioso, enquanto as morenas, entregues a um miudinho de fazer paixão, entoavam as chulas”.

Com Querino, vemos que os simples refrãos já eram enriquecidos com esboços ou fragmentos de versos rimados. E é de supor-se que isso tenha acontecido em todas as regiões onde a mão de obra de trabalhadores bantos, provenientes da África centro-ocidental (Congo e Angola) foi utilizada. Pois a presença desses bantos foi majoritária no Brasil escravista e a mais impactante na formação da nacionalidade brasileira. E é entre línguas do universo banto, como o quicongo e o quioco, que se registra o vocábulo samba na acepção de dança.

Claro, então, que antes de 1916 já havia samba em várias localidades brasileiras, principalmente rurais e notadamente na Bahia, de onde migrou para o Rio a comunidade de Tia Ciata. Não obstante, a nascente indústria fonográfica, implantada no país ainda no século XIX, segundo autores respeitados como Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello, já tinha entregado ao consumo gravações rotuladas como sambas, como “Em casa da baiana”, de 1911, anunciado na gravação como “samba de partido-alto”, e “A viola está magoada”, de 1914, também rotulada como samba, aliás, nascido no meio rural paulista.

Mas o que celebramos agora é a gravação de “Pelo telefone”, em 1916. E essa gravação, além de legitimar um protótipo do samba urbano então nascente (já com letra completamente desenvolvida), é também o primeiro exemplar do gênero a ganhar “certidão de nascimento”, expressa numa declaração formal de autoria (a comprovação de autoria por registro só foi legalmente instituída em 1973) feita por Donga e Mauro de Almeida.

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Salão Carioca do Livro começa nesta quinta-feira na Zona Portuária (webremix.info)


Egberto Gismonti abre Festival Villa-Lobos com orquestra só de mulheres

RIO - Egberto Gismonti compôs, há cerca de dez anos, “Sertões veredas — Tributo à miscigenação”, uma suíte de 70 minutos de duração inspirada no universo de Guimarães Rosa. Quando quis gravar o diálogo entre referências que vão de Stravinski e Beethoven aos gêneros sertanejos, passando obviamente por Villa-Lobos, o compositor pensou que deveria fazer isso no Brasil. Ele conta que não conseguiu (“Faltava ou técnica ou a percepção do que era aquela música”, lembra). Fora do país diz ter encontrado o mesmo problema:

— Até que meu amigo Leo Brouwer (compositor cubano) me disse: “A melhor orquestra de música brasileira está em Cuba”. Ele falava da Camerata Romeu (orquestra cubana formada apenas por mulheres, criada e regida pela maestrina Zenaida Romeu). E tinha toda razão, o que percebi na primeira leitura delas de “Sertões veredas” (lançada em 2009, num dos discos do álbum duplo “Saudações”). Havia num momento uma expressão muito usada por Villa-Lobos, passada a ele por Mário de Andrade. E elas leram aquilo com enorme brasilidade. Elas têm toda a informação europeia profunda vinda da relação com a antiga União Soviética, e ao mesmo tempo têm uma munheca que conhece as cadências, os ritmos da América Latina.

Gismonti e a Camerata se reencontram nesta sexta-feira, às 20h, na Sala Cecília Meireles, para a abertura do Festival Villa-Lobos, no qual ele é o grande homenageado (veja outros destaques abaixo; a programação completa, que se espalha pela cidade, está no site festivalvillalobos.com.br). A apresentação de hoje terá ainda a participação da violinista Ana de Oliveira e do clarinetista José Batista Júnior. Juntos, eles mostram, além de quatro movimentos de “Sertões veredas”, outras músicas do repertório do compositor de 68 anos, como “Forrobodó” e “7 anéis”. O concerto se repetirá em Santos (dia 8) e em São Paulo (dia 10).

No ensaio para o encontro, num estúdio do Cosme Velho cercado de vegetação da Mata Atlântica, o entendimento entre Gismonti, a maestrina Zenaida e as 16 instrumentistas da Camerata Romeu é evidente. O compositor interrompe poucas vezes, com observações específicas sobre acentuações e cadências, e tem resposta imediata da orquestra. As peças, complexas, seguem com uma fluidez que leva Gismonti a brincar (“Essas músicas são coisa de criança”) e a se dedicar a explicar à orquestra, antes de tocarem “Forrobodó”, a possível origem da palavra “forró” (os bailes “for all” promovidos por militares americanos instalados no Nordeste na época da Segunda Guerra).

— O forrobodó é quando o sujeito vai ao forró e fica meio “borracho” (bêbado, em espanhol) — diz, para o riso das instrumentistas, que sinalizam que estão ansiosas pelas caipirinhas brasileiras. — Ah, essa é a Camerata de que eu gosto. Vamos tomar umas talagadas antes de tocar essa, senão não fica “Forrobodó”.

Fora do ensaio, Gismonti diz que se sente muito à vontade no diálogo com a Camerata Romeu — e explica o porquê:

— Conheço Cuba muito bem. Visitei o país pela literatura, por sua arte naïf, por sua música, além de ter rodado as cidades. Então falo com elas com muita proximidade, como quando disse no ensaio, para explicar um ritmo: “Vocês se lembram dos tambores de Matanzas? É aquilo”. E elas entendem de cara. E podemos brincar muito porque a Camerata tem técnica e segurança para isso. No palco, elas não usam partitura para nada. Acho isso fantástico, porque, quando você decora algo, aquilo passa a ser seu.

“REPERTÓRIO DE SEGUNDA CLASSE”

Criada em 1993 como a primeira orquestra de cordas feminina da América Latina, a Camerata Romeu se afirmou — mais do que pelo ineditismo da formação feminina — pela atenção ao repertório latino-americano, sobretudo cubano.

— Quando começamos, sofremos muito preconceito por sermos uma orquestra voltada para a música latina, considerada um repertório de segunda classe — conta Zenaida. — Tocamos compositores europeus, norte-americanos, mas nossos pressupostos eram conhecer e nos aprofundar nos valores da cultura latino-americana.

A relação de Zenaida com a música de Gismonti é bem anterior a “Sertões veredas”, lembra a maestrina:

— Em Cuba, todos os músicos de vanguarda conhecem Gismonti, as ideias que ele provoca. Minha aproximação com ele se deu por “Homenaje a Gismonti”, composta por Arturo Márquez. É uma peça que usa os procedimentos de Gismonti, seu pensamento, mas numa música mexicana. Quando eu o conheci, a Camerata a tocava. Eu o presenteei com a partitura que usava. No dia seguinte, ele já tinha estudado a partitura e deu seu aval à composição, como que dizendo que Arturo tinha entendido sua música.

No encerramento do Festival Villa-Lobos, no dia 15, Gismonti volta à Sala Cecília Meireles ao lado do Duo a Zero (de seu filho, Alexandre Gismonti, e Jean Charnaux), de Daniel Murray e da Orquestra Corações Futuristas. Afeito ao encontro, o compositor chama a atenção para o fato de sua música carregar essa abertura em si. Como exemplo, lembra que sua “Bodas de prata” foi gravada em contextos diversos, por intérpretes como Sarah Vaughan, Wayne Shorter, Yo-Yo Ma e Martha Argerich.

— E de 90% dessas gravações eu participei, tocando praticamente do mesmo jeito — diz, antes de comentar a afinidade com a Camerata Romeu. — Elas têm uma facilidade de compreensão muito ampla do pensamento rítmico brasileiro.

Zenaida nota o “tronco comum”, a presença do negro. Gismonti rebate que há, unido a isso, um desejo de olhar para dentro da própria cultura:

— É difícil encontrar isso na África, que está cheia de franceses e alemães que valorizam a linguagem europeia. Nós nos entendemos, apoiados sobretudo na melhor definição que existe para a música: ela tem que dar a quem ouve a esperança de que a vida vale a pena.

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Por que nenhuma mulher ganhou um prêmio Nobel em 2016?

ESTOCOLMO, Suécia — Quando o músico e compositor americano Bob Dylan recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, a lista dos notáveis que faturaram a láurea de maior prestígio internacional em 2016 foi fechada com uma característica no mínimo incômoda: todos os premiados deste ano são homens.

Links Nobel

Esta realidade não foi rara ao longo dos 115 anos de Nobel, mas, nos dias de hoje, com a discussão sobre igualdade de gêneros tão evidente, críticos estão questionando por que os jurados não conseguiram encontraram nenhuma mulher em todo o mundo merecedora de uma das seis categorias do prêmio (Medicina, Física, Química, Economia, Paz e Literatura).

"Nenhuma mulher recebe o prêmio Nobel este ano. Ah, os tempos eles não estão mudando", escreveu no Twitter a autora australiana Leah Kaminsky, fazendo referência à canção "The times they are a changin'", lançada por Dylan em 1964, no álbum de mesmo nome.

Já a sueca Ebba Witt-Brattstrom, escritora e professora de literatura, acusou os jurados do Nobel de falta de imaginação depois que eles escolheram 11 homens para receber os prêmios de 2016. "Isto é deplorável, considerando os avanços das mulheres não apenas na literatura mas também na ciência", disse ela ao jornal "Svenska Dagbladet", da Suécia.

Desde o início do Nobel, em 1901, foram distribuídos prêmios para 833 homens e 48 mulheres. A categoria Economia é a mais desigual, com apenas uma mulher agraciada na História. As láureas da Paz e de Literatura têm os maiores números de mulheres: 16 e 14, respectivamente.

Mesmo assim, os comitês do Nobel garantem que o gênero dos possíveis ganhadores não é um fator considerado ao longo do processo de escolha. "Nós não olhamos para gênero. Nós olhamos para as descobertas científicas", disse à agência de notícias Asssociated Press a cientista Sara Snogerup Linse, presidente do comitê que elege o premiado na categoria de Química.

Apenas quatro mulheres ganharam a honraria de Química até hoje, sendo que a mais recente foi a israelense Ada Yonath, em 2009. Sara Snogerup Linse explicou que, como os prêmios de ciência destacam descobertas de décadas atrás, a relação de agraciados reflete o domínio masculino na área de pesquisas no passado. Eventualmente, disse ela, as coisas vão se equiparar, já que mais mulheres estão conquistando avanços nos dias de hoje.

"Quando isso vai acontecer, ninguém pode dizer. Só podemos especular", ponderou Sara.

De acordo com a cientista, a Academia Real de Ciências, que confere os prêmios de Química, Física e Economia, tenta fazer sua parte motivando as pessoas que podem indicar nomes a sugerir mais mulheres para o Nobel. A última vez em que nenhuma mulher foi premiada aconteceu em 2012, mas a mesma situação foi observada recentemente em 2010, 2006 e 2005.

A maior razão é a histórica falta de mulheres envolvidas nos campos de pesquisa exaltados pelo Nobel todos os anos, opina Carl Johansson, representante do Conselho de Pesquisas Sueco, que não é ligado às instituições que distribuem os prêmios Nobel.

Ele acha que a maioria de homens entre os membros dos comitês que elegem os agraciados pode ser um outro fator para essa realidade desigual, mas reconhece que é difícil de saber com certeza.

"Acho que a academia ainda é bastante hierárquica. É mais fácil para homens serem notados. Mas isto é difícil provar. É somente uma suspeita minha", disse ele. "A dificuldade das mulheres para alcançar posições de destaque também pode ser outro motivo".

No ano passado, um dos prêmios mais festejados foi para a pesquisadora chinesa Youyou Tu, pela descoberta de medicamentos como a artemisina, que reduziu significativamente as taxas de mortalidade por malária na África e na Ásia. Ela foi a primeira mulher da China a receber a honraria, dividida com outros dois cientistas. Ambos homens.

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O demônio assombra Bernardo Carvalho em seu novo romance

RIO - Amor, sexo e violência formam um triângulo de forças que move “Simpatia pelo demônio” (Companhia das Letras), novo romance de Bernardo Carvalho. Rato é um brasileiro de meia-idade, casado, autor de uma aclamada tese sobre violência e funcionário de uma agência humanitária em Nova York. A paixão avassaladora por um jovem mexicano, que estuda filosofia em Berlim, vira sua vida do avesso. Rato está devastado pelos desdobramentos dessa relação quando recebe o pedido do chefe: viajar a um país conflagrado para pagar o resgate de um prisioneiro que não sabe quem é a um grupo terrorista que desconhece.

O romance alterna os dois momentos da vida de Rato, presente e passado: sua missão quase impossível na guerra e o relacionamento com o mexicano. O amante é identificado apenas por “chihuahua”, em referência à região no norte do México onde nasceu e à sua baixa estatura. As duas tramas nasceram separadamente, em fragmentos, e Carvalho demorou para encontrar o ponto que as unia. Esse foi, inclusive, o seu livro de mais longa gestação, quase cinco anos. O escritor, de 56 anos, conta que viveu uma crise pessoal nesse período e isso marcou a sua escrita:

— Assim como o Rato, eu tive uma crise de meia-idade. Pela primeira vez na minha vida, intimamente, as coisas saíram do lugar. Aí surge uma espécie de desespero em retomar o amor e o sexo numa intensidade adolescente, porque parece que você vai perdê-los. Eu vivi uma reorganização dos meus valores, do meu eixo. E calhou de isso acontecer quando percebi que o mundo também passava por uma mudança de valores.

Para Carvalho, a violência do terror está relacionada ao sexo e ao desejo e se manifesta no ataque a comportamentos considerados permissivos. Ele lembra que, em novembro de 2015, em Paris, o alvo foi um show de rock num sábado à noite. Em junho passado, em Orlando, foi uma boate gay. O nexo entre essa violência contemporânea e a sexualidade foi o que deu sentido aos textos que vinha escrevendo, diz.

— Esses atentados são cometidos com a desculpa da religião, mas são perpetrados por gente que está em um lugar incômodo, num mal-estar em relação à própria sexualidade e à apreensão do prazer do outro. Embora seja realizado em nome de Deus, o ato está ligado ao desejo individual — argumenta o escritor, que vê uma ofensiva legal. — Há uma série de leis que tentam coibir comportamentos sexuais considerados divergentes. No mundo todo há iniciativas contra a liberdade e os direitos das mulheres.

Os personagens de “Simpatia pelo demônio” trazem em comum com os seus livros anteriores o fato de estarem sempre em trânsito. Rato é brasileiro, vive em Nova York e passa boa parte do romance em Berlim, na companhia de chihuahua, quando não está em alguma viagem a trabalho à África ou ao Oriente Médio. Um dos diálogos mais significativos do livro ocorre dentro de um avião. Essa experiência é também de Carvalho. Durante a escrita do romance, ele participou de residências artísticas em Bruxelas, de dois meses, e em Berlim, de um ano e meio.

EM TRÂNSITO CONSTANTE

Contudo, o escritor afirma que não consegue produzir quando está em trânsito. No período que passou na capital alemã, escreveu alguns fragmentos que depois foram incorporados ao romance, mas a princípio eram só exercícios. Na Bélgica, já estava dedicado apenas a “Simpatia pelo demônio”, mas não falava do lugar onde estava. Carvalho acredita que viajar é mais importante para viver do que para fazer literatura:

— O fato de os personagens estarem em trânsito sempre tem a ver com quem eu sou. Preciso estar em deslocamento. Sou brasileiro, é daqui que eu venho, mas preciso da ideia de ser um viajante permanente. A partir do momento em que começo a pertencer a um lugar, isso me deixa louco e preciso sair dali. Nunca consegui ficar muito tempo numa cidade fora do Brasil.

Outro elemento de sua obra que reaparece no novo romance é a problemática da comunicação. Ao viajar para a guerra, Rato sofre com diálogos impossíveis. Ninguém o entende, ou fingem não o entender. Já na sua relação com chihuahua, a dominação e a manipulação são exercidas por meio da linguagem. A dificuldade de se fazer compreender fascina o escritor:

— Os personagens e os narradores dos meus livros, quando saem do Brasil, entendem tudo errado. E esse fato de entender tudo errado é o que permite a eles alargar o entendimento do mundo. Rato representa um pouco esse personagem, que também sou eu, no contato com o outro, ao estabelecer uma relação de projeção, desentendimento, fabulação, paranoia.

Logo no início no livro, para evitar desentendimentos, uma nota informa: apesar da referência explícita no título à música dos Rolling Stones “Sympathy for the devil”, o sentido é diferente. Em inglês, “sympathy” é “consideração”. Já Carvalho ressalta que, no caso do livro, trata-se de simpatia mesmo:

— A simpatia aí é, de fato, amor. O amor do Rato pelo chihuahua, essa ideia louca de encontrar a morte procurando a vida. Abrir os braços e se entregar a uma paixão que obviamente vai te destruir.

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Ensino de idiomas proporciona troca cultural e chances de trabalho a refugiados na região

Com a proposta de promover o ensino de línguas, trocas culturais e geração de renda a refugiados no Brasil, a ONG Abraço Cultural iniciou suas atividades no Rio. A entidade oferece cursos de inglês, francês, espanhol e árabe que custam a partir de R$ 550 e o programa inclui debates e palestras sobre a cultura dos países de origem dos professores, que são remunerados pelo trabalho em sala.

Sucesso em São Paulo desde 2015, quando foi criado por outra ONG, a Atados, o Abraço Cultural tem como objetivo a inclusão de refugiados na realidade brasileira, oferendo oportunidades concretas de trabalho, algo que nem todos os que chegam ao Brasil conseguem.

No Rio há quase um ano e meio, o congolês Audrey Mandala, de 27 anos, é um dos beneficiados pelo trabalho. Ele conta que foi bem recebido no país e que conseguiu regularizar sua situação facilmente, mas diz que o mesmo não aconteceu com muitos amigos e conhecidos.

— Nem todos conseguem achar um emprego com respeito e dignidade. Há injustiça e preconceito pelo fato de sermos estrangeiros e refugiados, sobretudo nas empresas — conta.

Vindo da República Democrática do Congo, onde já trabalhou como professor, ele diz que chegou a ser preso por causa dos conflitos no país, o maior da África subsaariana, que está mergulhado em uma das crises humanitárias mais graves de que se tem notícia, com quase cinco milhões de mortos desde o início do conflito, em 1997, e mais meio milhão de refugiados espalhados pelo mundo, segundo a ONU. Mandala dá aulas de francês no Abraço Cultural e também é escritor. Terminou recentemente um livro de poesias que fala sobre a cultura africana, e que está sendo traduzido para o português.

No programa dos cursos de línguas estão previstas aulas dedicadas à troca de experiências culturais entre professores e alunos. Nelas, são propostos temas relacionados a culinária, dança, música, literatura, cinema, curiosidades, política e história.

— Mais do que trabalhar para ganhar dinheiro, a parte mais interessante é a integração e troca de experiências. Pode-se aprender muitas coisas e tenho muito orgulho em passar o que tenho. A África tem uma historia, uma cultura e um monte de coisas boas que podem ser apresentadas ao mundo — conta.

A coordenadora do Abraço Cultural no Rio, Tatiana Rodrigues, foi uma das pessoas que ajudaram a implantar o projeto na cidade e explica que a equipe conta com administradores, comunicadores, pedagogos e outros voluntários que dão apoio ao treinamento e capacitação dos professores, que são encontrados através de uma parceria feita com a Cáritas, entidade de atuação social e defesa dos direitos humanos ligada à Igreja Católica, vinculada à ONU. Ela destaca a importância de oferecer oportunidades remuneradas aos refugiados:

— Ajuda a acabar com o estereótipo e estigma de que eles são “pobres coitados”. Os professores são jovens, frequentam festas e têm muito a compartilhar e a enriquecer nossa vida — conta.

No Rio, as aulas são ministradas na Casa de Cultura Habonim Dror e na sede da rede Meu Rio, ambas em Botafogo. A segunda leva de cursos começou segunda e teve as inscrições esgotadas rapidamente. Quem quiser participar deve ficar atento no site www.abracocultural.com.br para fazer as inscrições das novas turmas com início em 29 de agosto, cujas inscrições devem abrir a partir do dia 1º. O curso tem material didático e método de ensino próprios, aulas regulares duas vezes por semana, com duração de uma hora e meia cada, além de uma aula cultural por mês.

No primeiro ano de funcionamento do Abraço Cultural na capital paulistana, 350 alunos tiveram aulas com 25 professores. Agora já são 480 alunos inscritos, 40 refugiados capacitados como professores de países como Venezuela, Síria, Haiti, Nigéria e Cuba e 53 turmas em São Paulo e no Rio.

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Conceição Evaristo: a literatura como arte da ‘escrevivência’

RIO - Conceição Evaristo nasceu em uma família de mulheres negras cozinheiras, faxineiras, empregadas domésticas. Segunda de nove irmãos, a escritora, que completa 70 anos em novembro, diz que na infância não viveu a pobreza, mas a própria miséria na favela do Pendura Saia, encravada no alto da Avenida Afonso Pena, área nobre de Belo Horizonte. Ali, da mãe e das tias, ouviu muitas histórias e inventou outras. A ficção era indispensável à sobrevivência, uma forma de sublimar a realidade. Essa experiência é o alimento da sua escrita ou, como ela afirma, da sua “escrevivência”. Links Conceição Evaristo

Mulher, negra, de origem pobre. É desse lugar que Conceição fala, que Conceição escreveu e escreve seus livros. Da sua estreia em 2003 com “Ponciá vicêncio” (Ed. Maza), lançado nos Estados Unidos, na França e em breve no México, a “Olhos d’água” (Pallas), vencedor do Prêmio Jabuti na categoria Contos em 2015. Até chegar a “Histórias de leves enganos e parecenças”, reunião de contos recém-lançada que marca também a estreia da Editora Malê. Em todos os seus trabalhos estão presentes a crítica social e a religiosidade, que ela prefere chamar de ancestralidade. O mistério e o encantamento são os fios que ligam os contos de “Histórias de leves enganos...”.

— Eu sempre tenho dito que a minha condição de mulher negra marca a minha escrita, de forma consciente inclusive. Faço opção por esses temas, por escrever dessa forma. Isso me marca como cidadã e me marca como escritora também — diz Conceição. — Nos textos do livro novo eu trago toda uma memória ancestral, que já estava presente em “Ponciá vicêncio”.

A escritora recebeu O GLOBO em sua casa em Barra de Maricá na manhã da quarta-feira passada, a 65 quilômetros do Rio, um braço de terra incrustado na Lagoa de Maricá. As paredes são amarelas, a mesma cor favorita de Dóris da Conceição Aparecida, protagonista de um dos contos do livro novo. Na sala de estar, um cofre português feito de ferro e madeira maciça serve de apoio a objetos trazidos de suas viagens a Angola, São Tomé e Príncipe, África do Sul, Senegal. Síntese da língua e das culturas que compõem a sua literatura.

Uma escada estreita, do lado de fora, leva ao segundo andar, onde há uma enorme varanda com vista para a lagoa e a biblioteca de Conceição. É lá que ela escreve e, se fica tarde, também dorme na cama de solteiro que faz as vezes de sofá. Um quarto que nada lembra a casa de sua infância:

— Não nasci rodeada de livros, mas rodeada de palavras. Havia toda uma herança das culturas africanas de contação de histórias. Minha mãe fazia bonecas de pano ou de capim para mim e minhas irmãs e ia inventando tramas. Ela recolhia livros e revistas e mostrava para nós, mesmo sem saber ler. Víamos as figuras e inventávamos novas histórias. Meu interesse pela literatura nasce daí.

Não nasci rodeada de livros, mas rodeada de palavras. Havia toda uma herança das culturas africanas de contação de históriasO contato com a palavra escrita só veio no colégio. No primário, Conceição já se destacava nos clubes de leitura, lia sem gaguejar. Ao passar para o ginásio, começou uma série de interrupções. Entrava e saía da escola. Trabalhou como babá, faxineira, vendedora de revistas. Ela seguia o caminho das mulheres da sua família que tinham vindo antes dela, mas sabia que o que queria: ser professora. Terminou o ginásio, ingressou no curso normal. No início da década de 1970, formada, não conseguiu emprego em Belo Horizonte.

— Não havia concurso em Minas. Só entrava para dar aulas quem tinha o “quem indica”. Minha mãe e minhas tias tinham relações com famílias ricas de Belo Horizonte. Minha família trabalhou para parentes de grandes escritores, como Otto Lara Resende e Henriqueta Lisboa. Mas eram sempre relações de subalternidade. Nunca iam me indicar — afirma Conceição. — No Rio de Janeiro tinha concurso, e então eu vim em 1973.

A escritora fez carreira como professora do primeiro segmento do ensino fundamental na rede municipal, mas não parou de estudar. Cursou Letras na UFRJ no final da década de 1970, depois fez especialização em Literatura na Uerj, logo após ficar viúva, na década de 1980. Nos anos 1990, formou-se mestre em Literatura na PUC-Rio. E, há três anos, terminou o doutorado em Literatura Comparada na UFF, após enfrentar uma isquemia. Em todos esses espaços, era uma das poucas negras, e sempre era mais velha do que os colegas. Essa sensação de deslocamento atravessa sua escrita desde a infância. Conceição escreve para entender o mundo e para encontrar o seu lugar nele:

— Fui uma menina e uma jovem muito curiosa. Eu via as pessoas conquistando coisas e sempre achei que tinha o direito de conquistar também. A escrita foi sendo o lugar de desaguar os meus desejos. E também a tristeza, o sentimento de injustiça que percebia, mas não sabia definir bem. Desde criança me dava angústia ver minha família trabalhando muito e não ter nada.

REFERÊNCIA PARA JOVENS AUTORES NEGROS

A superação da pobreza permitiu que lançasse um olhar crítico sobre o seu passado e a sua experiência.

— A pobreza pode ser um lugar de aprendizagem, mas apenas quando você a vence. Se não, é o lugar da revolta, da impotência, da incompreensão. E aí você não faz nada. Hoje eu vejo que a pobreza foi o lugar fundamental da minha aprendizagem diante da vida — afirma. — Minha literatura não é pior nem melhor do que qualquer outra, só nasce de uma experiência diferente da qual eu me orgulho e que não quero camuflar.

Se hoje Conceição é uma referência para jovens autores negros, ela mesma só descobriu essa literatura ao tomar contato com o movimento negro na universidade. A escritora lembra o impacto que lhe causou a leitura de “Quarto de despejo”, de Carolina Maria de Jesus. A realidade descrita no livro era também a dela própria e de sua família. Depois vieram as leituras de Maria Firmina dos Reis, Lino Guedes, Oswaldo de Camargo. Num momento de explosão das lutas anticoloniais na África, caíram em suas mãos as obras de Frantz Fanon, José Craveirinha e Agostinho Neto.

Na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), a escritora confrontou o curador, Paulo Werneck, sobre a falta de negros na programação principal. Conceição conta que não sabia quem ele era nem que estava presente ao debate, e que apenas respondeu uma pergunta sobre o assunto. Ela mantém a crítica e aponta um desinteresse pelos autores negros.

— Se você vai no titio Google, que me parece mais democrático do que a Flip, e lança lá escritoras negras brasileiras, vai aparecer um monte de nomes. Hoje só não acha quem não quer. Mas nós somos teimosos, vamos estar lá — diz Conceição. — Isso tudo faz parte do nosso próprio aprendizado como brasileira. A questão negra não é uma questão para o negro resolver, a questão indígena não é para o índio resolver. São questões para todos os brasileiros pensarem.

A ausência dos negros vai além dos eventos literários e se estende às editoras. “Olhos d’água”, lançado em 2014, foi o primeiro livro de Conceição cuja tiragem ela não precisou bancar ao menos em parte. E, mesmo assim, porque foi publicado com o apoio de um edital governamental. “Histórias de leves enganos e parecenças” também foi editado sem custos. Contudo, “Ponciá vicêncio”, sua obra mais famosa, está hoje fora das livrarias. A editora fechou e pagou os direitos de Conceição em exemplares, hoje guardados na casa de Maricá. Antes de ir embora, ela presenteia o repórter com um livro autografado e pede ajuda para vender os outros. É só falar com ela, diz. E se despede com um abraço.

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Escritores refletem sobre ascensão do ultranacionalismo e falta de um projeto universal de união

PARATY - As múltiplas nacionalidades de autores presentes na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) trazem para a cidade a urgência de um debate que envolve múltiplas origens e se alastra pelo mundo. O ultranacionalismo está na Europa, no Oriente Médio, na África, nos EUA e no Brasil, e também está à sombra e às vezes até à luz da literatura. Com os movimentos que levaram, num plebiscito realizado na semana passada, à decisão de o Reino Unido deixar a União Europeia, o fantasma histórico da intolerância se tornou mais presente.

O escocês Irvine Welsh, autor de “Trainspotting” (editora Rocco), escreveu no fim de maio um artigo para o jornal inglês “The Guardian”, intitulado “Não importa em quem votarmos, as elites vão vencer o referendo”. Em Paraty, ontem à tarde, ele revelou ao GLOBO que não votou nem pela saída nem perla permanência na UE. Preferiu se abster:

— Eu não podia votar por nenhuma das duas posições. Não podia votar por manter um projeto esgotado como o da UE. Eu acredito na Europa, acredito na integração, mas o caminho está errado. Não poderia votar por uma burocracia não democrática, não poderia votar pelo que o aconteceu com a Grécia. Mas também não poderia votar contra a ideia da Europa. Era uma escolha difícil.

“Tempos piores podem vir”

Welsh lembra que uma das consequências da descrença na Europa é o fato de países como Polônia e Hungria terem elegido governos “nacionalistas autoritários”.

— O problema foi o que aconteceu com a esquerda. A esquerda social-democrata foi cooptada pelo neoliberalismo, e a esquerda marxista, com sua negação do capitalismo que não leva a nada, não apresenta alternativas para o modelo de globalização. Assim é mais fácil para demagogos de extrema-direita se estabelecerem — disse Welsh.

Outros britânicos da programação principal da Flip também trouxeram a Paraty as preocupações com o crescente nacionalismo e o resultado do referendo no Reino Unido. Kate Tempest, romancista inglesa, teme que “tempos piores podem vir”. Já a escritora Helen Macdonald afirmou que a “Inglaterra está em chamas”.

— Pessoas que não estavam no poder fizeram pressão na população e isso levou à vitória pela saída. O pior é que essa gente usa os imigrantes como culpa para os problemas econômicos. É um horror o que está acontecendo — diz Helen.

— É uma raiva nascida do medo. Estamos no meio de uma mudança de primeiro-ministro para alguém muito de direita, muito sinistro — afirma Kate. — Mas isso não é novo. Eu cresci num lugar extremamente misto, me sinto muito privilegiada por isso. Mas, quando você deixa Londres, a cidade grande, e vai a locais com menos imigrantes, o sentimento de medo da imigração é grande.

O medo foi o que levou o sírio Abud Said, mais um autor convidado da Flip 2016, a deixar a Síria e se mudar para Berlim depois da chegada do grupo extremista Estado Islâmico em 2013. Said notabilizou-se por publicar posts irônicos no Facebook sobre sua rotina. Ele tenta se afastar do rótulo, mas invariavelmente acaba tratando de política.

Em 2012, um ano após a Revolução Síria, ele escreveu sobre as disputas de diferentes etnias responsáveis por conflitos em seu país: “A despeito da guerra civil/ esta manhã vou convencer minha mãe de que ela é drusa/ em outra manhã, vou convencê-la de que ela é curda/ então vou convencê-la de que nós não somos sunitas e nossos estúpidos ancestrais nos enganaram, pois somos alauítas/ Numa noite chuvosa, vou convencê-la de que somos judeus”.

Said, contudo, renega o papel transformador da arte na luta contra o nacionalismo.

— Não acredito que a arte possa ajudar a resolver problemas. O que a arte pode fazer pela América? Você vai mudar Obama por um desenho? Você vai fazer um filme e tudo vai ficar bem? — afirma, lembrando que sofre preconceito na Europa por sua origem. — Berlim é uma cidade onde as pessoas pouco se preocupam de onde você é. Mas, quando vou para outros lugares da Europa, os olhares são cruéis.

Diferentemente de Said, há autores na Flip que já lidaram mais diretamente com o nacionalismo em sua obra e acreditam no efeito da literatura. No sexto e último livro da sua série “Minha luta”, ainda inédito no Brasil, o escritor norueguês Karl Ove Knausgård escreveu um longo ensaio sobre Adolf Hitler e terminou o livro com o julgamento do terrorista de extrema-direita Anders Breivik, que matou 77 pessoas e feriu 51 em julho de 2011. Hoje vivendo em Estocolmo, na Suécia, ele vê o crescimento dos partidos ultranacionalistas em toda a Escandinávia.

— Eu escrevi sobre Anders Breivik porque a questão era: “como isso foi possível?”. No início dos anos 1930, ninguém sabia o que estava prestes a acontecer. Você pode olhar para aquele momento e entender as razões da ascensão do nazismo e do fascismo. Em um momento de crise, as pessoas chamam os populistas de direita ou de esquerda.

Knausgård também critica o tratamento dado atualmente aos refugiados na Suécia, constantemente ameaçados de expulsão, e afirma que vê “muita raiva” no continente:

— A questão dos refugiados tem sido muito mal administrada, pelo menos na Suécia, dando margem ao surgimento de grupos anti-imigração e soluções simplistas. Há muita raiva na Europa, nos Estados Unidos. Estão culpando pessoas que são absolutamente inocentes, os refugiados e os imigrantes.

Já o psicanalista e professor da USP Christian Dunker, também convidado da programação oficial da Flip, aponta que o florescimento de movimentos ultranacionalistas está relacionado a um tipo de sofrimento específico do mundo contemporâneo. A questão passa, segundo ele, à ideia de que todo o sucesso, ou todo o fracasso, depende só do indivíduo ou do seu grupo.

— O neoliberalismo vem sendo bem-sucedido ao vender a ideia de que o sofrimento diz respeito ao combate entre particulares, o nós contra eles. É o confronto dos velhos contra os jovens, dos europeus contra os imigrantes. A saída da Inglaterra da comunidade econômica europeia significa que não se aposta mais num projeto universal de união. A hora que você incutir essa ideia de que todo o fracasso ou sucesso depende de você e do seu pequeno grupo, dá nisso. Por que vou financiar um grego? Um refugiado sírio? O outro ficou pequeno, é um outro “nós”, não é mais um conjunto indeterminado de diferenças. Mas um outro identificável — diz Dunker.

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Romance investiga a excêntrica relação entre o homem e os objetos

RIO — Em meados do século XIX, surgiu uma profissão peculiar em Cuba: o “leitor de tabacaria”. Para diminuir o tédio do trabalho manual repetitivo nas fábricas de charutos, um dos operários lia histórias em voz alta para os companheiros, de Émile Zola a maçantes volumes sobre a história da Espanha. A prática espalhou-se pelas fábricas da América Latina no início do século XX, mas logo caiu em desuso.

A escritora mexicana Valeria Luiselli lembrou-se dos “leitores de tabacaria” quando foi procurada por uma galeria de arte contemporânea da Cidade do México para escrever um texto para o catálogo de uma exibição em andamento. Financiada por uma fábrica de sucos, a exposição beberia nos elementos comuns entre a vida dos operários da fábrica e a dos artistas da galeria — criando uma relação inesperada entre eles. Valeria propôs aos curadores escrever uma história sobre o universo artístico direcionada aos funcionários, a ser lida e comentada por eles, em encontros semanais.

Assim, entre sumos artificiais da empresa e a sede espontânea da autora, surgiu “A história dos meus dentes”, romance que lança na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), na próxima semana, e que foi apontado como um dos “livros do ano” de 2015 por publicações como “New York Times”. Que pouco tem a ver com os dentes da autora, aliás: esse não é mais um livro de autoficção, diz Valeria.

— O livro foi criado muito em cima das histórias dos próprios operários, dos comentários que eles faziam sobre os fascículos que eu enviava para a leitura em grupo — detalha Valeria. — A estrutura se impôs pelo fato de ser uma novela por encomenda, feita em partes. Era um compromisso escrever para os operários, contra o tempo, seguindo o ritmo da história da semana anterior, como se faziam os folhetins no século XIX. Quando se escreve assim, é preciso se agarrar a algo de cara.

Valeria agarrou-se a um incômodo que observava na relação entre artistas e obras:

— Eu queria entender o lugar do excêntrico, a importância da excentricidade no entorno da produção de um artista para a circulação e valorização da sua obra. E foi lendo uma enciclopédia de filosofia que encontrei uma definição para a excentricidade que tem a ver com as categorias matemáticas que uso para organizar a novela, como a hipérbole, o círculo ou a parábola. Todas são também formas literárias de contar uma história — conta Valeria.

Trajetória peculiar

“A história dos meus dentes” é um ensaio sobre o valor atribuído aos objetos que também reinaugura uma maneira de enxergá-los. Se a estrutura da novela brotou das condições de escrita, a trama acompanha a trajetória peculiar de Gustavo Sanchéz Sanchéz, o Estrada, um sujeito carismático, desses que começam a imitar Janis Joplin depois de duas doses de bebida. Estrada entra no ramo dos leilões como uma estratégia rápida para levantar dinheiro para comprar dentes novos.

No curso que faz para refinar a retórica — talento primal dos que conseguem vender uma tesoura aparentemente banal por quantias altíssimas —, o leiloeiro neófito aprende como contar uma história de forma a valorizar a peça, conquistando os possíveis compradores com hipérboles, alegorias, elipses, parábolas. Estrada não só compra novos dentes para si, como investe em cada canino ou incisivo uma história fabular — transformando o romance num legítimo “gabinete de curiosidades”. Nessa atmosfera kitsch, misturam-se informações supreendentes sobre a dentadura de Montaigne, John Lennon, Borges, Rousseau ou Virginia Woolf (que, segundo seu psiquiatra, tinha tantas bactérias na raiz de um dente que isso pode ter agravado seus males sentimentais, quiçá animado sua literatura).

— Pesquisei muitos detalhes biográficos, históricos, foi um trabalho extenso enriquecer a narrativa. Quando lançamos a edição em inglês, houve uma revisora que checou exaustivamente cada informação, separando as reais das inventadas, produzindo uma cronologia curiosa desses dados, como um mapa, que agora acrescentamos às novas edições. Foi engraçado ouvi-la dizer que as informações verdadeiras eram justamente as que pareciam mais excêntricas — observa a autora, que vai à Flip com o marido, também escritor, Álvaro Enrique (de quem a Companhia das Letras aproveita para lançar “Morte súbita”).

National Book Award

Nascida no México, Valeria tem 33 anos e mora hoje em Nova York, onde estuda Literatura Comparada na Universidade Columbia e faz colaborações para a revista “New Yorker”. Em 2014, ganhou o National Book Award pelo romance “Rostos na multidão”, também lançado no Brasil pela Alfaguara. O próximo livro será sobre os deslocamentos, especialmente de imigrantes, tema confortável à autora — Valeria passou a infância na Coreia do Sul, depois morou em África do Sul, França, Espanha e Índia. Do Brasil, guarda lembranças de visitas a Brasília e ao Rio de Janeiro, onde leu Clarice Lispector e ouviu Caetano Veloso. Hoje, lê “Um copo de cólera”, de Raduan Nassar. Na Flip, espera conhecer mais autores brasileiros da sua geração:

— O que mais gosto em feiras literárias, e em geral não gosto muito desses eventos, é de entrar em contato com autores locais e levar alguns livros bem escolhidos de autores que desconheço. Ainda mais na América Latina, onde há poucas chances de conhecer outros autores.

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Campanha chama atenção para desafios de pessoas albinas no país

RIO — Eles são invisíveis aos "olhos" do censo demográfico, que jamais os contablizou, e também não são alvo de políticas públicas. Mas os brasileiros com albinismo, condição genética que leva o corpo a produzir pouca ou nenhuma pigmentação, estão se organizando para mudar essa realidade. Eles querem chamar atenção aos desafios que enfrentam no cotidiano.

albinosNesta segunda-feira, Dia Mundial de Conscientização do Albinismo, o Grupo de Pessoas com Albinismo do Rio de Janeiro lança na internet uma plataforma de "censo albino". Por meio do site, divulgado pela página do grupo no Facebook, quem tem a condição poderá responder a um questionário que ajudará a traçar o retrato de quem são e como vivem esses brasileiros.

Além disso, a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) também lança a campanha "Albinismo: além do que se vê”, para estimular a criação de ambulatórios especializados no atendimento de pessoas albinas, com abordagem multidisciplinar: dermato, oftalmo e psicológica.

Pessoas com albinismo precisam de atenção extra para evitar problemas de pele e têm olhos bastante sensíveis (boa parte têm problemas de visão). E eles muitas vezes precisam de apoio psicológico — dos pais, da escola ou de psicólogos mesmo — para lidar com olhares inconvenientes e apelidos como "gasparzinho" e "vovô". Sobretudo na infância.

Foi para ajudar outros neste caminho que a enfermeira Nereida Santos — mãe de Ana Claudia, a Cacau, uma albina de 7 anos — fundou o Grupo de Pessoas com Albinismo do Rio, em parceria com Mirian Miguel, que é albina. As duas organizam encontros mensais na Escola de Enfermagem da UFRJ, no Centro, onde Nereida dá aula. O grupo virou um projeto de extensão da universidade, no qual são produzidos estudos e palestras, além de rodas de conversa para troca de experiências.

— Queremos fazer com que a pessoa albina se reconheça como tal. Não como um doente, mas como alguém que tem uma condição genética que precisa ser reconhecida e desmistificada — afirma Mirian.

O albinismo é uma mutação genética que pode ocorrer em qualquer família, então é comum que uma criança albina não tenha pais albinos. Mas o que chama atenção na história de Nereida e Cacau é que elas se conheceram por meio de uma adoção. Nereira virou "mãe de coração" da menina quando ela já ia completar 2 anos.

— É impensável, para muitos, adotar uma criança albina, até por não saberem muito bem o que é isso e como administrar. Eu me apaixonei por ela quando a vi — lembra Nereida, que tem também um filho cinco anos mais velho do que Cacau. — Tento mostrar a ela que cada pessoa tem particularidades e que ela pode lidar com as dela de maneira natural e ser feliz.

É difícil encontrar dermatologistas ou oftalmologistas que saibam como lidar com o albinismo, e nem todos os albinos têm renda suficiente para comprar de seis a oito frascos de 120ml de filtro solar necessários para uma proteção adequada todo mês. Por não suportar o peso do bullying, muitos deles chegam a se isolar e abandonar os estudos, porque não contam com escolas que trabalham a inclusão entre os alunos — no Rio, as únicas instituições públicas que fazem isso são o Benjamin Constant e o Colégio Pedro II.

Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), Gabriel Gontijo, a incidência mundial é de uma pessoa albina em cada 20 mil. No entanto, esta é uma condição genética mais comum entre negros, logo a incidência é maior na África: um albino em cada 1.500 pessoas, em alguns países do continente. Quem é albino tem a probabilidade de ter um filho assim em cada quatro rebentos. Mas a mutação também pode ocorrer, com menor frequência, numa família na qual ninguém tem a condição.

— Há ambulatórios assim em estados como Bahia e Minas Gerais — diz o médico. — Mas é preciso que esse serviço se espalhe, por isso incentivamos a criação de mais ambulatórios deste tipo em hospitais credenciados pela SBD.

Gontijo explica que, por conta da extrema sensibilidade à luz solar, os albinos costumam envelhecer mais rapidamente e ter um risco aumentado de câncer de pele — e é um tipo mais agressivo. Além disso, problemas no nervo ótico e estrabismo são muito comuns, então realizar exames oftalmológicos quando crianças é importante para evitar futuras complicações na visão. Ele conta, ainda, que o olho avermelhado tão característico do albinismo ocorre pela falta de pigmentação na íris, o que faz com que seja possível ver a retina deles.

CONDIÇÃO CERCADA DE MITOS

Entre os mitos relacionados ao albinismo, está o risco de contágio. Alguns também acreditam que os albinos enxergam melhor no escuro ou que eles necessariamente têm algum problema de cognição.

O professor de inglês e literatura Roberto Rillo Bíscaro, albino e doutor pela USP, já passou por todas essas situações. O desconhecimento sobre o tema atinge até mesmo médicos.

— Eu já me consultei com um dermatologista que perguntou há quanto tempo eu era albino. Achei que ele estivesse brincando, mas ele continuou me olhando sério. Já teve vez também de eu ir renovar o meu visto americano e a moça que me atendeu perguntar "o senhor sabe ler?". Eu não estava nos meus bons dias, então tive que responder: "Em qual idioma você quer?" — conta ele, que fala como línguas estrangeiras inglês, francês e espanhol.

Quando criança, ele não entendia muito bem o que era ser albino e conta que não considerava um sacrifício não poder jogar futebol ao ar livre, sob um Sol de meio-dia. Nunca gostou muito do esporte e, por outro lado, sempre adorou livros, música e filmes. Atividades perfeitamente adaptadas a ambientes fechados. O grande problema era, de fato, a relação com o outro.

— Não brincar tanto na rua nunca me pesou muito. O tormento era o bullying. Me chamavam de "gasparzinho", "vovô", "Branca de Neve", "Papai Noel". A relaçaõ com o outro sempre foi mais difícil. Com o tempo isso foi diminuindo. Na idade adulta, na faculdade, não tinha mais esse problema — relata Bíscaro, que escreveu o livro "Eu escolhi ser albino". — Nunca me escondi. Ficava bravo, chorava, mas me esconder nunca foi uma opção. Você acaba achando, para a sua própria sobrevivência psíquica, outros caminhos. Então eu acabei me dedicando mais aos livros, ao cinema, à música.

Quem também nunca cogitou se esconder é o músico de sucesso Hermeto Pascoal, também albino, que completa 80 anos no próximo dia 22.

— Para mim, é uma dádiva ser albino. Sou rosinha, o que quero mais? — brinca ele, soltando uma risada. — Outro dia, um casal foi a um show meu e me disse que estava preocupado com o filho, que é albino. Eu disse a eles para tratarem a criança de forma normal, como meus pais fizeram. Disse que a única coisa para se preocupar é não deixar que ele pense que não pode fazer as coisas. Cada pessoa tem os seus problemas, suas particularidades. A vida da gente é cheia de percalços, sendo albino ou não.

PERSEGUIÇÃO MACABRA NA ÁFRICA

Uma das situações internacionais que mais vem chamando atenção — e que motivou as Nações Unidas a criarem, em 2015, o Dia Mundial de Conscientização do Albinismo — é a perseguição que ocorre em países africanos. Principalmente na Tanzânia, no Malaui e em Moçambique, pessoas que participam de uma seita matam e cortam partes do corpo de albinos para fazer poções, acreditando que isso lhes trará riqueza. As partes mais requisitadas são genitálias, cabelos e membros, e a maioria dos perseguidos é formada por crianças.

— Isso é uma loucura. No Malaui, já é considerado calamidade pública, porque o número de casos está aumentando muito — lamenta Roberto Rillo Bíscaro. — Existe um mercado negro disso também no Burundi e no Congo.

O alto comissariado da ONU para Direitos Humanos chegou a afirmar que centenas de pessoas com albinismo foram atacadas, mortas ou mutiladas em pelo menos 25 países africanos. muitos casos continuam não documentados por causa do isolamento das vítimas e da indiferença.

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Os olhares ficcionais sobre a África em debate na ABL

RIO - A relação entre a literatura brasileira e a cultura africana é o tema do ciclo de debates “África: olhares ficcionais da ABL”, que será promovido neste mês pela Academia Brasileira de Letras. Idealizado por Ana Maria Machado e coordenado por Antônio Torres, o ciclo começa hoje e vai até o fim do mês, com palestras semanais, sempre às terças, sobre escritores que viveram e retrataram a cultura afro-brasileira.

A primeira conferência, hoje, será do escritor Cyro de Mattos sobre a obra do baiano Adonias Filho (1915-1990), autor do romance “Luanda Beira Bahia” (1971). No dia 14, Reginaldo de Jesus fala sobre o romance “Os tambores de São Luís” (1975), do maranhense Josué Montello (1917-2006). No dia 21, Ana Maria Gonçalves faz palestra sobre a obra do baiano Jorge Amado (1912-2001). E, no dia 28, Alberto Mussa analisa a relação do mineiro Antônio Olinto (1909-2009) com a África.

— Nossa ideia é inserir a ABL no debate atual sobre o racismo, uma questão grave que precisa ser discutida. Para isso, queremos falar de uma dimensão da literatura brasileira que às vezes é menos lembrada, a que se relaciona com a África e a cultura negra. E faremos isso lembrando a produção de integrantes da ABL que se dedicaram a isso — diz Antônio Torres.

Os quatro acadêmicos que serão debatidos no ciclo são “santos da minha cabeceira”, brinca Torres. Ele considera o romance “Luanda Beira Bahia” um pioneiro no tratamento “da diversidade e da diferença” na literatura brasileira. O livro, ambientado em Angola, em Moçambique e no Brasil, foi escrito depois de uma viagem de Adonias Filho pela África.

Nesta conferência e nas seguintes, diz Torres, o objetivo é apresentar as reflexões sobre a cultura afro-brasileira produzidas pelos integrantes da ABL. Se Jorge Amado é sempre lembrado por clássicos como “Mar morto” (1936) e “Gabriela, cravo e canela” (1958), o ciclo é uma oportunidade de abordar também os trabalhos de Montello e Olinto. Este último foi adido cultural do Brasil na Nigéria nos anos 1960, viajou por vários países africanos e se inspirou nessas experiências para escrever livros como o romance “A casa da água” (1969), em que uma família negra brasileira vai à África em busca de suas origens.

(webremix.info)


Niterói promove intercâmbio cultural e sedia ‘Encontros com África’

NITERÓI — Receber artistas estrangeiros é uma tradição em Niterói. Desde a década de 1990, o município organiza encontros culturais em parceria com um determinado país. Começou com Cuba, seguiu com Portugal, Itália, Japão, Espanha, e, mais recentemente, em 2011, o tema foi a América do Sul. As atividades culturais, que se tornaram uma política pública de vários governos, eram desenvolvidas em três semanas. Também seria assim com a África, mas uma sucessão de crises mudou os planos dos organizadores. Agora, em vez de um único grande evento, serão realizados vários “Encontros com África” ao longo de dois anos. A gratuidade em todas as atividades, porém, está mantida. As primeiras exibições começam na próxima quinta-feira, com apresentações no Teatro Municipal.

— Em 2013 começamos a organizar um encontro com a África e tínhamos a ideia de fazer tudo como fazíamos antes, mas neste meio tempo surgiram a epidemia de ebola e a crise econômica e política no Brasil, que, obviamente, mexeram com as possibilidades do evento. Como tivemos dificuldades para o grande encontro, resolvemos fazer vários. Particularmente, estou muito satisfeito com o que estamos realizando — afirma o organizador, Marcos Gomes.

As atividades promovem um intercâmbio entre niteroienses e africanos. Nesta primeira quinzena, a cidade vai receber artistas de Angola, de Benim e da África do Sul. Para esta semana estão programadas apresentações do Jongo Folha de Amendoeira, de Niterói; da Companhia de Dança Contemporânea de Angola; do espetáculo de música teatral “Vida de vassoureiro”, com o artista brasileiro Elias Rosa; e show com o cantor beninense John Arcadius.

Na próxima semana tem jongo com o Grupo Dandalua; um fórum de cultura angolana; a peça “Laços de sangue”, da Companhia Elinga, de Angola; e show do compositor Ndaka Yo Wiñi, com participação da cantora Anabela Aya, ambos angolanos. Todas as apresentações serão no Teatro Municipal. A única em outro endereço será a do grupo sul-africano Obrigado, que, no dia 17, encerra a programação abrindo o show de Emicida, no Teatro Popular Oscar Niemeyer.

Gomes enfatiza que o evento, mesmo com sua grandiosidade, não gera custos para os cofres municipais.

— Desde os primeiros encontros conseguimos parcerias que permitiram que os artistas viessem a Niterói sem cobrar cachê e sem que o município arcasse com as passagens. Viajamos muito e mostramos credibilidade para que fundações, como a Sindika Dokolo, apoiassem a iniciativa — diz o organizador, acrescentando que espera consolidar a parceria para que artistas niteroienses também possam viajar aos países africanos para se exibirem lá.

A escolha da África, garante Gomes, foi natural, embora o secretário municipal de Cultura, o músico Arthur Maia, conheça bem o continente, onde se apresentou várias vezes, e seja entusiasta da cultura africana.

— Nós compartilhamos desta opção. Foi um gosto particular e coletivo, muito pela concepção e pelo respeito que temos pelo continente — justifica Maia.

A garantia de dar continuidade aos eventos do encontro pelos próximos dois anos também pesou na opção pelo continente, já que, diz Gomes, há relacionamento estreito com cerca de 20 países. Na opinião dele, não seria possível mostrar todas as culturas num único evento. A intenção é que as atividades sejam desenvolvidas semestralmente. As negociações para a próxima edição estão adiantadas, faltando apenas a confirmação das atrações.

— Com essa nova fórmula, nós damos uma continuidade que é fundamental no caso da África, que não é um país, mas um continente com diferentes culturas. O grande desafio é mostrar a influência africana na nossa cultura, que é tão presente, mas pouco conhecida. E começamos com Angola, que é o país com maior presença no nosso país. Pouca gente sabe, mas Cubango, o nome do bairro de Niterói, é uma palavra angolana. E há muitas outras referências espalhadas por aí — ensina o organizador.

Para Maia, a relação entre Brasil e África é maior do que a história construída no período de colonização.

— Existe um rio da África que corre muito perto da gente, e sempre passou. Continua limpo, mas a gente bebe muito pouco dele — define o secretário.

A coordenadora de Políticas e Promoção da Igualdade Racial de Niterói, Tatiara Souza, ressalta que eventos como o “Encontros com África” atendem ao programa da Organização das Nações Unidas (ONU) que desenvolve a Década do Afrodescentendente, com intuito relembrar o histórico dos negros na formação dos países ao redor do mundo.

— O Brasil só é o que é hoje graças à cultura africana — enfatiza.

Além das apresentações culturais, o encontro pretende abordar os aspectos citados por Tatiara. Um dos objetivos da Fundação Sindika Dokolo é apresentar parte da terceira Trienal de Luanda, que tem como tema “Da utopia à realidade: da escravidão ao apartheid”. O Fórum Cultura Angolana vai discutir literatura, língua portuguesa e arquitetura. Também será feito o lançamento do site Malungo Eu, feito por brasileiros, com colaboração africana, para discutir o tema.

Como as apresentações são gratuitas, a entrada está condicionada à lotação do Teatro Municipal. A distribuição de senhas começa uma hora antes de cada espetáculo. A programação completa está no site niteroi.rj.gov.br/encontroscomafrica.

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Diversidade marca ciclo de conferências da ABL em 2016

RIO - A Academia Brasileira de Letras (ABL) vai realizar uma série de conferências marcadas pela diversidade em 2016. Sob a coordenação geral da escritora e acadêmica Ana Maria Machado, os debates (sempre às terças-feiras) vão contemplar temas tão diferentes quanto a espiritualidade, a política e, é claro, a literatura. O primeiro ciclo, “Sociedade e espiritualidade”, começa hoje, às 17h30m, com palestra do rabino e escritor Nilton Bonder intitulada “Judaísmo: a passionalidade ética”. Responsável e idealizador do ciclo de estreia, o jornalista e acadêmico Cícero Sandroni faz questão de destacar que não se trata de proselitismo religioso:

— Não é uma série para catequese, não queremos convencer ninguém. Procuramos, na programação, mostrar como a espiritualidade influencia a sociedade. Nós teremos cinco conferências, cada uma dedicada a uma religião. O Nilton Bonder, por exemplo, vai abordar o que há de ético no judaísmo, uma religião que tem mais de 5 mil anos e continua resistindo e permanecendo.

No dia 8 de março, será a vez de Clodomir Andrade, professor do programa de pós-graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), ministrar a palestra “A estética do despertar na tradição budista”. No dia 15, o escritor e frade dominicano Frei Betto vai falar sobre “Cristianismo: uma nova proposta civilizatória” e, no dia 22, o teólogo e também professor da UFJF Faustino Teixeira vai abordar “A dimensão interior do Islã”. Encerrando o ciclo, no dia 29, Muniz Sodré, professor titular da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), vai se debruçar sobre a tradição religiosa africana em “Culto afro: uma filosofia da diáspora”.

O acadêmico lembra que a maioria das religiões tem em livros considerados sagrados os seus pilares. Sandroni pondera, no entanto, que cinco eventos não são suficientes para dar conta da imensidão do tema. Por isso, ele já planeja uma outra série.

— Gostaria de fazer também um ciclo que fosse maior, para poder incluir o hinduísmo, o xintoísmo, o taoísmo e as civilizações pré-colombianas. Mas isso vai ficar para uma próxima vez.

SUGESTÕES DOS ACADÊMICOS

Ana Maria Machado conta que, ao planejar a programação de 2016, pediu sugestões de temas aos colegas, que assumiram a responsabilidade de escalar os convidados. Seu objetivo era que as conferências refletissem a diversidade dos próprios membros da ABL:

— Muitas vezes, a gente gira em torno de determinados temas, vistos de diferentes ângulos. Quis partir da diversidade que temos hoje na academia. É tão interessante quando conversamos nos nossos encontros. Queremos promover debates no sentido de fazer pensar, de despertar o pensamento. As conferências serão um alimento para o pensamento, como dizem os ingleses — conta ela, que já tem fechada a programação até julho.

Em abril, a segunda série de debates do ano terá como tema a identidade em suas múltiplas perspectivas, sob coordenação do professor e acadêmico Eduardo Portella. No mês seguinte, a política e as diferentes formas de governo estarão em discussão. O coordenador será o acadêmico e colunista do GLOBO Merval Pereira. Em junho, o foco será nos romancistas da ABL que escreveram sobre a África: Adonias Filho, Josué Montello, Jorge Amado e Antônio Olinto, com coordenação do escritor e acadêmico Antônio Torres. Em julho, Marco Lucchesi vai comandar as conferências sobre o lugar da música na cultura.

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O ponto de encontro dos líderes das independências africanas em Portugal

PRAIA (CABO VERDE) - Criada em 1944, em Portugal, para receber jovens das colônias da África e da Ásia, a Casa dos Estudantes do Império tinha um objetivo expresso já no nome: formar quadros para o sistema colonial. Mas a convivência entre alunos de origens diversas, unidos pela revolta contra a dominação portuguesa, teve o efeito contrário. Antes de ser fechada pelo ditador Antonio Salazar, em 1965, a Casa se tornou um polo difusor das culturas de países como Angola, Moçambique e Cabo Verde. Muitos estudantes saíram dali para liderar as lutas de independência que acabaram com o império português.

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Essa história é resgatada em uma exposição promovida nos países lusófonos pela União das Cidades Capitais da Língua Portuguesa (UCCLA). Com fotografias, documentos e obras da época, a mostra já passou por Lisboa e Maputo, em Moçambique, e está em cartaz em Praia, capital de Cabo Verde. Além disso, a UCCLA publicou fac-símiles dos 22 volumes lançados pela editora da Casa dos Estudantes do Império. São os raros livros de estreia de jovens que se tornariam pioneiros das literaturas dos países africanos de língua portuguesa

Secretário-geral da UCCLA e idealizador da exposição, Vitor Ramalho afirma que a Casa é uma instituição singular na história do colonialismo

— Portugal foi o único país com uma instituição onde surgiram laços entre futuros governantes e escritores das ex-colônias. Nasci em Angola e ouvia sempre essa história dos mais velhos, mas ela é pouco lembrada hoje nos países lusófonos — diz Ramalho, que espera trazer a mostra para o Brasil nos próximos meses.

A Casa era um centro de convivência, lazer e assistência médica e social para universitários das colônias portuguesas, onde não havia ensino superior. A maior parte dos sócios vinha da África, com alguns egressos de Timor-Leste, Macau e Goa, na Ásia. Entre os estudantes estavam Agostinho Neto, que viria a ser o primeiro presidente de Angola, de 1975 a 1979; Joaquim Chissano, que governou Moçambique de 1986 a 2005; e Amílcar Cabral, líder do movimento de libertação de Guiné-Bissau e Cabo Verde, assassinado em 1973, antes das independências.

Os estudantes promoviam debates, festas e eventos que movimentavam a Casa. Nos anos 1960, criaram um selo editorial que publicava obras não só de associados (como “Poemas”, de Agostinho Neto), mas também de jovens autores que viviam nas colônias. Por isso, foram lançadas primeiro em Lisboa obras seminais da literatura africana, como “Caminhada”, do cabo-verdiano Ovídio Martins; “A cidade e a infância”, do angolano Luandino Vieira; e “Chigubo”, do moçambicano José Craveirinha (de versos como “Vim de qualquer parte/ duma nação que ainda não existe”). Décadas mais tarde, Craveirinha e Vieira receberiam o Prêmio Camões, maior distinção da língua portuguesa.

CASA INSPIROU ROMANCE DE PEPETELA

Também ganhador do Camões, o angolano Pepetela frequentou a Casa entre 1959 e 1962. No convívio com outros estudantes africanos, o jovem fã de Julio Verne e Eça de Queirós passou a conhecer melhor a cultura de sua terra natal. Pepetela se inspirou nessa experiência para escrever o romance “A geração da utopia” (Leya), no qual uma sócia da Casa, “no centro mesmo do Império”, descobre “sua diferença cultural em relação aos portugueses”.

— Foi na Casa que pela primeira vez me apercebi da riqueza das culturas africanas, não só de Angola, mas de todo o continente. Foi também aí que tomei maior contato com a literatura que se fazia em Angola, mas que era quase clandestina. Compreendi cada vez mais que a cultura, particularmente tudo o que tivesse como origem as tradições e crenças seculares, se transmitiam de geração em geração, conservando o núcleo de uma consciência que mais cedo ou mais tarde explodiria em consciência social e política — diz Pepetela, por e-mail.

Dos cerca de 600 sócios da Casa, pouco mais de cem fugiram de Portugal em 1961 para participar das lutas de independência nos países africanos, que durariam até a metade da década seguinte. O regime Salazar apertou a vigilância sobre a instituição, que foi fechada em 1965. Autora de “A Casa dos Estudantes do Império e o lugar da literatura na conscientização política”, Inocência Mata, professora das universidades de Lisboa e de Macau, diz que a instituição foi “um bumerangue” que se voltou contra o regime colonial.

— Os estudantes cooptaram a Casa para difundir o ideal de autonomia e combater a invisibilidade dos africanos — diz Inocência, nascida em São Tomé e Príncipe. — O regime fechou a instituição porque passou a vê-la como um ninho de rebeldes. Mas seus integrantes deixaram um legado: formaram uma nova elite política africana e ajudaram a construir as literaturas de seus países.

Guilherme Freitas viajou a convite da UCCLA

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A tradição da literatura de língua portuguesa em Cabo Verde

PRAIA (CABO VERDE) - Celebrado por sua música, o arquipélago de Cabo Verde tem também uma rica tradição literária, ainda pouco conhecida pelos leitores brasileiros. Na semana passada, o país africano sediou em sua capital, Praia, o VI Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, que serviu também de vitrine para a literatura cabo-verdiana. Ela é escrita sobretudo em português, ao contrário das canções, geralmente compostas em crioulo, idioma mais falado nas ruas.

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Promovido pela União das Cidades Capitais da Língua Portuguesa (UCCLA), o evento reuniu mais de 30 convidados de países lusófonos e de Macau. Participaram alguns dos principais autores de Cabo Verde, como o romancista Germano Almeida, e houve uma mesa só com jovens escritores do país. Único cabo-verdiano a receber o Prêmio Camões, em 2009, o poeta Arménio Vieira foi um dos homenageados. Porém, fiel a seu estilo reservado, desistiu de comparecer. Não adiantava procurá-lo no Café Sofia, no centro de Praia, onde se diz que ele costuma passar as tardes de papo com os amigos ou rascunhando poemas no celular.

Na ausência do homenageado, a obra de Arménio foi exaltada no evento por um convidado ilustre: o presidente de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca. Amigo do escritor, ele também é poeta e publicou nos anos 1990 dois livros de versos surreais: “Porcos em delírio” (1998) e “O silêncio acusado de alta traição e de incitamento ao mau hálito geral” (1995).

Em uma conferência de meia hora, Fonseca destacou o humor corrosivo de Arménio. Em um poema, ele ironiza os versos clássicos de Fernando Pessoa e escreve: "O poeta é um fingidor/ um pedreiro muito lido, /calceteiro dolorido/ cujas pedras são pedaços/que ele arranca dos penhascos/de uma alma/ nua e sua/ e da alma de outros poetas". Mas também sublinhou sua atuação crítica contra o domínio português.

— Arménio Vieira é um dos altos dignatários da pátria — disse Fonseca, citando um poema que o autor escreveu quando foi preso pelo regime de Salazar, “Lisboa, 1971”: “Em verdade éramos o gado mais pobre d’África/ trazido àquele lugar”.

Comparado em Cabo Verde a Jorge Amado, de quem é admirador, Germano Almeida tem apenas um romance publicado no Brasil, “O testamento do senhor Napumoceno” (Companhia das Letras). A premissa fica a meio caminho entre Amado e Machado de Assis: ao morrer, Napumoceno da Silva Araújo, um comerciante solteirão e excêntrico, deixa um testamento de mais de 300 páginas no qual, além de inventariar seus muitos bens, revela segredos e acerta as contas com amigos, parentes e desafetos. Com esse livro, Almeida revolucionou a literatura de Cabo Verde, e hoje é considerado um dos maiores nomes da literatura de língua portuguesa contemporânea. Seu título mais recente, “Regresso ao paraíso”, está em todas as livrarias portuguesas.

Em sua conferência no evento, Germano revisitou a história da literatura cabo-verdiana. Lembrou pioneiros como Baltasar Lopes e Jorge Barbosa, que em 1936 fundaram a revista “Claridade”, primeira a valorizar a cultura do país em tempos de colonização

Germano homenageou o poeta cabo-verdiano Corsino Fortes, morto em 2015 aos 82 anos, integrante da geração de escritores que atuou pela conquista da independência, em 1975. E citou versos de outro poeta da mesma época, Ovídio Martins, para definir o espírito cabo-verdiano: “Morremos e ressuscitamos todos os anos/ para desespero dos que nos impedem a caminhada/ Teimosamente continuamos de pé”.

— A marca nacional de Cabo Verde é a sobrevivência a todo custo — disse Germano.

Guilherme Freitas viajou a convite da UCCLA

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Finalista do Man Booker Prize, livro de Chigozie Obioma chega ao Brasil

RIO - Ao se tornar finalista do prestigiado Man Booker Prize de 2015 logo com seu primeiro romance, “Os pescadores”, o nigeriano Chigozie Obioma, de 29 anos, juntou-se a uma nova geração de escritores africanos que ganha destaque no cenário internacional. Alguns já são conhecidos no Brasil, como Teju Cole e Chimamanda Ngozi Adichie, também da Nigéria. Outros continuam inéditos no país, apesar de colecionarem prêmios no exterior, como Dinaw Mengestu, da Etiópia, e NoViolet Bulawayo, do Zimbábue.

O livro com que Obioma se firmou nesse grupo chega às livrarias brasileiras neste mês, pela Globo Livros, depois de ter os direitos de tradução negociados para 22 idiomas. “Os pescadores” acompanha uma década na vida da família Agwu, na cidade nigeriana de Akure. A rotina harmoniosa dos quatro filhos de James Agwu começam a se esfacelar quando, durante uma pescaria em um rio com fama de amaldiçoado, um profeta local prevê que o primogênito será assassinado por um de seus irmãos.

A trama é influenciada pelas leituras variadas de Obioma. Desde jovem, ele gostava de ler os clássicos ocidentais, como Shakespeare e as tragédias gregas, e os autores nigerianos que fundaram a literatura moderna do país, como Chinua Achebe e Amos Tutuola. Em “Os pescadores”, essas referências se misturam às histórias tradicionais que ouvia durante a infância na casa de sua família, de origem ibo.

— Tanto as tragédias gregas quanto as histórias ibo falam sobre a Humanidade lutando contra forças superiores — diz Obioma, que atribui o interesse do público de vários países pelo romance a essa mescla de elementos locais e ocidentais. — Muitos escritores africanos hoje têm consciência do público internacional, mas às vezes se sentem pressionados a falar só da realidade africana. Com isso, correm o risco de se tonar provincianos. O que quero é escrever boas histórias universais, que possam ser lidas em Lagos, Roma ou São Paulo.

LIVRO FOI ESCRITO EM TRÊS CONTINENTES

Enquanto escrevia “Os pescadores”, Obioma viveu em três continentes. Mudou-se da Nigéria para o Chipre, onde estudou por dois anos, e depois para os Estados Unidos, onde hoje é professor de Literatura na Universidade de Nebraska–Lincoln. A experiência multicultural teve um papel importante para sua escrita:

— O romance nasceu um pouco da saudade que eu sentia da Nigéria quando estava no Chipre. Mas também passei a acreditar que só é possível escrever ficção sobre um lugar quando se está longe dele — diz Obioma.

A visão do escritor sobre seu país natal está representada em um dos personagens centrais do romance, o vidente maltrapilho Abulu. “Os pescadores” se passa na década de 1990, quando a Nigéria viveu um golpe militar que anulou as primeiras eleições do país em três décadas. A profecia de Abulu sobre a desgraça da família Agwu coincide com a derrocada do país, que levou dez anos para retornar à democracia.

— Este é um romance sobre uma família, mas tem outras camadas. Abulu, por exemplo, parece só um louco, mas é um sintoma da sociedade nigeriana. É também uma figura mítica, o intruso que dissolve a unidade de um ambiente.

Leia trecho de 'Os pescadores'

"O Omi-Ala era um rio terrível. Havia muito tempo era desprezado pelos habitantes da cidade de Akure, como uma mãe abandonada pelos próprios filhos. Ele já havia sido um rio cristalino, que propiciava peixes e água potável aos primeiros assentadores. Passava ao redor de Akure e serpenteava por dentro e pelas bordas da cidade. Como muitos rios semelhantes na África, o Omi-Ala já foi visto como uma divindade: as pessoas o veneravam. Erguiam templos em seu nome, procuravam a mediação e os conselhos de entidades como Iyemoja e Osha, de sereias e outros espíritos e deuses que habitavam os corpos aquáticos. Isso mudou quando os colonizadores chegaram da Europa e introduziram a Bíblia, diferenciando os adeptos do Omi-Ala dos outros, fazendo com quem as pessoas, agora de maioria cristã, começassem a ver nele um local amaldiçoado. Um berço emporcalhado.

O rio tornou-se uma fonte de rumores sombrios. Um deles dizia que as pessoas faziam todos os tipos de rituais em suas margens. Isso era confirmado pela quantidade de carcaças de animais e outros materiais ritualísticos que boiavam na superfície do rio ou eram jogados em suas margens. Então, no início de 1995, o corpo mutilado de uma mulher foi encontrado naquelas água, com as partes vitais desmembradas. Quando seus restos mortais foram descobertos, o conselho da cidade fez uma vigília no rio do amanhecer ao crepúsculo, e depois disso o rio foi abandonado".

“Os pescadores”

Autor: Chigozie Obioma.

Editora: Globo Livros.

Tradução: Claudio Carina.

Páginas: 270.

Preço: R$ 39,90.

(webremix.info)


Juntos em Cabo Verde, autores dizem: acordo ortográfico não une lusófonos

PRAIA - Uma caminhada por Praia, capital de Cabo Verde, vale por uma aula prática sobre as idas e vindas da língua portuguesa ao longo da História. No centro da cidade, um platô de onde se vê o Oceano Atlântico, casinhas de arquitetura colonial que poderiam estar em Paraty exibem letreiros como Loja Elegância, Padaria Pão Quente, Farmácia Africana. Basta descer uma ladeira, porém, para chegar a uma grande feira de rua onde se negocia de tudo — porcos e galinhas vivas, bugigangas eletrônicas, tecidos de Senegal, Gana e Guiné — em meio a gritos de “moia, moia, moia”, a palavra para “desconto” no idioma crioulo, o mais falado nas ruas do país. É o Mercado Sucupira, batizado em homenagem à terra de Odorico Paraguaçu na novela “O bem-amado”.

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Essa história de trocas culturais é o pano de fundo do sexto Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, que termina hoje, em Praia. Ao longo de três dias, o evento promovido pela União das Cidades Capitais da Língua Portuguesa (UCCLA) reuniu mais de 30 autores de nove países. A maioria já ratificou o acordo, em vigor desde 1º de janeiro no Brasil, mas em muitos locais ele ainda é aplicado de forma inconsistente, ou sequer foi implementado, como no caso de Angola e Moçambique. As experiências dos escritores mostram que o ideal do acordo, de aproximar os 250 milhões de falantes nativos de português, enfrenta desafios mais complexos do que a unificação da ortografia.

— Grafar uma palavra com uma letra a mais ou a menos não vai resolver os problemas do português em Angola, como as dificuldades do ensino e a falta de leitura. Essas são as questões reais — diz a poeta e historiadora angolana Ana Paula Tavares, de 63 anos, autora de mais de dez livros, que teve uma antologia de poemas publicada no Brasil, “Amargos como os frutos” (editora Pallas, 2012).

Radicada em Portugal, onde o acordo vigora oficialmente desde maio de 2015, Ana Paula não é contra a nova ortografia, embora estranhe quando num de seus versos aparece a palavra “afeto”, em vez de “afecto”. Ela conta que o governo angolano criou uma comissão para implantar o acordo, mas ainda estuda como dar conta da convivência entre o português e vários idiomas tradicionais dos povos banto de Angola. Para a escritora, do mesmo modo que palavras de origem banto, como “cachimbo” e “carimbo”, foram incorporadas à língua portuguesa, a mistura de idiomas feita hoje por músicos angolanos de kuduro não pode ser ignorada:

— O português está a se reinventar todos os dias.

IDIOMA FALADO POR APENAS 5% NO TIMOR LESTE

Grafar uma palavra com uma letra a mais ou a menos não vai resolver as dificuldades do ensino e a falta de leitura. Essas são as questões reais

O arquipélago de Cabo Verde tem um lugar central na história do idioma. Ali foi fundada em 1462 a primeira cidade europeia dos trópicos, Ribeira Grande, conhecida como Cidade Velha. A 15 quilômetros de onde hoje fica Praia, ela foi por séculos um dos principais entrepostos para o comércio de escravos. Um pelourinho no centro do povoado serve de lembrete aos visitantes sobre a história violenta do colonialismo e da língua portuguesa.

O idioma crioulo cabo-verdiano surgiu da mescla entre a língua dos colonizadores e a dos escravos trazidos da África Ocidental. Isso é visível em canções clássicas em crioulo, como “Sodade”, famosa na voz de Cesária Évora: “Quem mostra’ bo/ Ess caminho longe?/ Ess caminho/ Pa Sã Tomé”. Um dos principais romancistas do país, Germano Almeida, de 70 anos, é fã de Eça de Queiroz e Jorge Amado (principalmente “Mar Morto” e “Jubiabá”), mas diz que sua maior influência foram histórias contadas por antepassados numa mistura de crioulo e português. O acordo ortográfico entrou em vigor em Cabo Verde em outubro de 2015, mas Germano não se empolga com o tema.

— Só peço que me avisem onde botar os acentos — brinca Germano, que defende a importância da língua portuguesa para o país. — O crioulo é a língua oral de Cabo Verde, a que toda a gente fala, mas precisamos muito do português também, ele é fundamental na nossa história e literatura. Isso deveria ser reforçado nas escolas.

O crioulo é a língua oral de Cabo Verde, mas o português é fundamental na nossa história e literatura. Isso deveria ser reforçado nas escolas

Embora seja hoje um autor de destaque da língua portuguesa, com boa recepção crítica em Portugal, Germano só teve um romance lançado no Brasil, “O testamento do Sr. Napumoceno”, há 20 anos, pela Companhia das Letras. Ainda assim, é um dos poucos autores do evento já publicados no país. O poeta Arménio Vieira, por exemplo, primeiro cabo-verdiano a ganhar o Prêmio Camões, em 2006, e um dos homenageados do encontro, continua inédito em solo brasileiro.

— Fui ao Brasil lançar o livro e me pareceu que a literatura africana era uma ilustre desconhecida. Mas acredito que isso tem mudado, com mais estudos sobre o assunto — avalia Germano.

Representante do Timor Leste no evento, o romancista Luís Cardoso também tem apenas um livro no Brasil, “Réquiem para um navegador solitário” (Língua Geral, 2010). A língua portuguesa foi banida do Timor em 1975, quando o pequeno país, que ocupa metade de uma ilha no Oceano Índico, conquistou a independência de Portugal mas foi logo ocupado pela Indonésia. O idioma voltou a ser liberado em 2002, com o fim da ocupação.

Mais jovem do que o próprio acordo ortográfico, assinado em 1990, o Timor aderiu ao protocolo em 2009. Mas hoje a adequação às novas regras é uma preocupação menor do que a própria sobrevivência do português no país, onde ele é falado por apenas 5% da população e é o quarto idioma oficial, ao lado do inglês, do indonésio e do tétum, uma língua local muito influenciada pelo português — o vocabulário tétum tem palavras como “democracia” e “liberdade”, conta o escritor.

LUSOFONIA É UMA “PALAVRA PARADOXAL”

Hoje, ‘lusofonia’ é o conjunto dos falantes de português, com todas as suas diferenças. É isso o que estamos a celebrar

Nascido em 1959, numa família timorense onde se falavam esses e outros idiomas não oficiais, Cardoso escolheu escrever em português. Radicado em Portugal desde a ocupação indonésia, é autor do primeiro romance lusófono timorense, “Crônica de uma travessia”, de 1997.

— O português é a minha língua literária — diz.

O historiador português Miguel Real define “lusofonia” como uma palavra “paradoxal”. Na Idade Média, ela se referia apenas aos portugueses, diz. Depois de séculos sem uso, voltou nos anos 1970, após as independências das ex-colônias africanas, com um viés conservador, de valorização da influência portuguesa e dos valores morais europeus. Mas também já deixou de ser isso, diz Real:

— Hoje, “lusofonia” é o conjunto dos falantes de português, com todas as suas diferenças. É isso o que estamos a celebrar nesse encontro.

*Guilherme Freitas viajou a convite da União das Cidades Capitais da Língua Portuguesa (UCCLA)

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Cabo Verde recebe nesta segunda-feira festa da literatura lusófona (webremix.info)


Estudo clássico de Tzvetan Todorov chega ao Brasil após duas décadas

RIO - Radicado em Paris desde os anos 1960, o búlgaro Tzvetan Todorov foi aluno de Roland Barthes e viveu uma época em que o cenário intelectual era dominado por críticos literários, como Julia Kristeva e Jacques Derrida. No livro “Crítica da crítica”, lançado em 1984 e publicado agora pela primeira vez no Brasil pela Unesp, ele faz um balanço pessoal dos estudos literários no século XX. Discute obras de autores que o influenciaram, como o russo Roman Jakobson, o canadense Northrop Frye e o francês Maurice Blanchot, além do próprio Barthes, entre outros. Ao fim desse percurso, propõe seu conceito de “crítica dialógica”, que mescla a análise estrutural da obra literária com a busca por uma verdade mais ampla sobre o mundo revelada pelo texto. Em entrevista por e-mail, Todorov, de 76 anos, diz que o livro transformou sua compreensão do ofício, que hoje vê como o compromisso de lançar um olhar crítico sobre a realidade. Exemplo disso é seu novo livro, “Insubmissos”, inédito no Brasil, sobre escritores e ativistas dos séculos XX e XXI.

No livro, o senhor escreve que a crítica literária “não é um apêndice da literatura, mas seu duplo”. Que tipo de duplo? Qual é a relação entre crítica e texto literário, na sua opinião?

A literatura encarna sempre um pensamento sobre o mundo e sobre o que é humano, e a crítica pode fazer a mesma coisa. Por isso digo que esse livro de crítica é como um romance. Ele conta as etapas de uma história, de uma educação intelectual. Por séculos, a literatura foi a única “ciência humana”. Hoje há outras.

A literatura encarna sempre um pensamento sobre o mundo e sobre o que é humano, e a crítica pode fazer a mesma coisa.

Quais foram as transformações mais importantes da crítica literária desde o lançamento do livro, em 1984? Acredita que a crítica perdeu prestígio no debate público?

Infelizmente, tenho dificuldades para responder a essa pergunta, porque este livro foi para mim uma espécie de adeus à crítica como objeto de reflexão. Depois só me preocupei com a prática, e não mais com a teoria. Não conheço bem o que acontece nesse campo desde então. Mas me parece que, ao menos na França, a opinião pública e a crítica não têm se cruzado. Nos anos 1960 e 1970, os debates sobre a crítica aconteciam em praça pública, como aquele entre a crítica universitária de (Raymond) Picard e a crítica inovadora de (Roland) Barthes, e muitas outras. Nada comparável a isso chegou aos meus ouvidos desde então.

O senhor descreve “Crítica da crítica” como um “romance de formação”. Qual foi a importância desse livro para sua obra naquele momento? O que aprendeu sobre a crítica enquanto o escrevia?

O livro marca o corte mais importante em meu percurso profissional. Encerrou uma primeira etapa, que teve como objeto de estudo os métodos críticos e a teoria literária. E abriu uma segunda, que dura até hoje, na qual me interesso pelo mundo e pela condição humana mais do que pelas formas de falar sobre eles. Foi graças à evolução descrita nesse livro que pude me aproximar de temas como o encontro entre culturas, a unidade e a diversidade da espécie humana, o totalitarismo e a democracia, o lugar do indivíduo na sociedade e o lugar do social na construção do indivíduo. Descrevo o livro como um “romance de formação” também porque ele evoca várias etapas da crítica, começando pelo formalismo russo e terminando pelas abordagens sociológicas e históricas de (Ian) Watt e (Paul) Bénichou.

Descrevo o livro como um “romance de formação” também porque ele evoca várias etapas da crítica

Como o senhor define hoje o conceito de “crítica dialógica”, que formulou pela primeira vez naquele livro?

Como uma crítica que não se contenta apenas em reconstituir, com a fidelidade possível, o pensamento do autor lido, primeira tarefa de toda crítica. A “crítica dialógica” se engaja também em um debate mais amplo com o autor em questão, no qual busca não só capturar seu sentido, mas também avaliar o grau de verdade do que ele nos apresenta. Foi assim que procedi, por exemplo, em meu livro “A beleza salvará o mundo” (de 2006, publicado no Brasil em 2011 pela editora Difel), que examina o pensamento de três escritores, Oscar Wilde, Rainer Maria Rilke e Marina Tsvetaeva, na forma como se manifestam em sua obra mas também na maneira como conduziram suas vidas. São três brilhantes versões do pensamento romântico. Procurei elucidar esse pensamento, mas também colocar em questão suas conclusões.

Em seu livro mais recente, “Insoumis” (“Insubmissos”, de 2015, inédito no Brasil), o senhor escreve sobre oito pessoas muito diferentes: dos escritores russos Boris Pasternak e Alexander Soljenítsin a Nelson Mandela e Edward Snowden. Qual é a ligação entre elas?

“Insubmissos” é um livro dedicado às relações entre moral e política, mais precisamente ao papel que podem ter na vida pública as qualidades morais (e portanto privadas) de um indivíduo. É esclarecedor separar essas duas esferas, mas as virtudes pessoais têm um papel na vida política. Mais do que teorizar sobre isso, escolhi reconstituir oito biografias de personalidades, do século XX ou do presente, que encarnam as diversas articulações entre esses dois campos. O que elas têm em comum é também a escolha de lutar não só contra um inimigo externo (a ocupação nazista nos Países Baixos e na França, a ditadura comunista na URSS, a discriminação racial na África do Sul e nos EUA etc.), mas também contra seus demônios interiores. Outra característica comum é minha grande admiração por elas.

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