Bandas e Artistas de Kuduro

País : Angola Cabo Verde

O kuduru nasceu em 1996 na Angola. Ele foi criado por Tony Amado.
O Kuduru (tradução do português de "bumbum duro") é uma mistura potente de ritmos tradicionais da percussão angolana à 140Bpm (Descendente do samba brasileiro) e das batidas eletrônica de influência house. Sobre esta base de arranjos inesperados, os Kuduristas colocaram seus textos reivindicatórios. O Kuduru é uma produção eletrônica totalmente africana, um estilo musical único no mundo, 100% angolano.
Para acompanhar estes novos ritmos, Tony Amado também criou uma dança, a batida dura e sensual. Alternando descidas e balanços languidos, esta dança constitui um espetáculo fascinante.

Videos do Kuduro

Video clips do Kuduro (YouTube e DailyMotion)

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Notícia : Bandas e Artistas de Kuduro

O fim das obras no centro de Lisboa é assinalado no domingo com concertos, aulas de dança e desporto. A oposição camarária acusa o executivo socialista de eleitoralismo.
Source : publico.pt | 2017-01-21 10:00:00.0
No Eurosonic fez-se um resumo histórico da música feita em Portugal, de Amália aos Buraka e praticou-se com Rodrigo Leão, Marta Ren, Gisela João e Throes + The Shine.
Source : publico.pt | 2017-01-13 21:43:23.0

RIO — Há cerca de um ano, um músico angolano foi preso em Luanda por ler um livro. Detido pela polícia do regime do MPLA junto a outros 16 amigos que discutiam em grupo a obra “Da democracia à ditadura”, do cientista político americano Gene Sharp, o rapper Luaty Beirão deu início a uma greve de fome na cadeia, em protesto à condenação por “atos preparatórios para rebelião” e “associação criminosa”. Durante 36 dias, tempo que resistiu sem comer, sua história correu o mundo em manifestações de solidariedade. Foram petições, vigílias e manifestos de apoio — no Brasil, artistas como Mano Brown (um dos ídolos de Luaty), Emicida, Chico César, Maria Gadu, Gaby Amarantos, Negra Li, MC Marechal, Rincon Sapiência e Kamau aderiram à causa. Luaty ficou confinado até junho deste ano, quando o governo decretou anistia aos presos políticos.

Ao longo de todo este tempo, o rapper conseguiu burlar a vigília e escrever um diário, que ocupou dois cadernos. O primeiro ele conseguiu fazer sair do presídio em meio aos jornais levados pelas visitas. O segundo foi interceptado e perdeu-se. As 125 páginas do material que resistiu acabam de ser lançadas em Portugal com o título “Sou eu mais livre, então: diário de um preso político angolano” (Tinta da China), que em breve chegará também ao Brasil.

— A mente não gosta de estar desocupada — comenta Luaty, por telefone, de Luanda, pouco antes de sair para o ensaio do primeiro show que fará depois da soltura. — Todo este caderno escrito abrange apenas poucos dias da prisão. Eu teria escrito muito mais se deixassem.

Neste “Memórias do cárcere” angolano, Luaty conta em detalhes o momento em que foi preso, a rotina na cadeia, as conquistas para si mesmo e os outros detidos, como o aumento da frequência dos banhos de sol e da ração de água semanal (quando chegou, tinha direito a apenas 1,5 litro de água a cada dois dias, para tomar banho, lavar pratos, talheres e roupas).

ISOLADO NA SOLITÁRIA

“Fui transportado de uma forma que me fez sentir como uma espécie de Hannibal Lecter meets David Copperfield: de noite, num minibus, dentro de um cubículo de metal que parecia um caixão na vertical, algemado e com meus parcos pertences amontoados aos meus pés”, escreve ele.

Isolado na ‘‘mombaka’’, a solitária, no mesmo bloco dos homicidas e violadores, convivendo com ratos e baratas, Luaty conta que começou a greve de fome quase espontaneamente, ao recusar o “matabicho” (café da manhã) servido na prisão, com medo de ser envenenado. Até decidir interromper de vez a alimentação para chamar a atenção para as reivindicações do grupo. A um custo emocional arriscado, a tática deu certo. Questionado sobre os perigos de expor num livro o sistema prisional do país, Luaty reflete:

— Fomos anistiados sendo inocentes. Vamos continuar a expor o nosso sistema judicial. Não acho que seja mais perigoso o que tenho feito do que o que já fizemos antes. Quanto mais expomos, mais me sinto protegido, pois mais gente sabe o que acontece em Angola. Vários países pressionaram pela nossa anistia.

No diário, o rapper também compartilha as leituras feitas na prisão (devorou obras do conterrâneo José Eduardo Agualusa), faz reflexões existenciais e comentários musicais (há até um set inteiro de rap montado para uma futura mixtape), rascunha letras de rap e esboça um romance. Num trecho, comenta que quando ouvia de longe o som da TV, sabia que era noite, pois os carcereiros assistiam à novela “Avenida Brasil’’. Era o irônico som do kuduro da abertura que dava as horas a ele.

Também registra as músicas dos presos (“Já nos comeram a carne, estão a nos comer também os ossos/ queremos o dinheiro do petróleo/ é nosso”), e os “louvores de cadeia”, estrofes cantadas em uníssono por um coro de mais de cem presos, o que o emocionava bastante:

— Todo angolano é artista. A falta de emprego, a necessidade de sobrevivência, a criatividade aqui é genética. Tudo virava kuduro. Eu pensei até em pedir as letras dos louvores, e assim as punha alinhada em versos, e publicar este livro com um CD. Mas pá, os caras estão ali a sonhar em ser livres, não estão pensando nisso. Mas ainda quero voltar lá e fazer um documentário.

TRECHO

“Acho isso muito bonito mesmo”

Todas as manhãs, depois do matabicho, é hora das orações, normalmente girando em torno do tema do arrependimento. Parecem atribuir ao cigarro uma característica demoníaca da qual se devem afastar. Parecem muito engajados na sua reconversão... Até acabar a missa. Imediatamente a seguir voltam ao mercado de cigarros e entregam-se a animadas sessões de batucadas que em qualquer outra prisão do mundo seriam consideradas um ato de rebelião e travadas pela força. Acho isso bonito mesmo. É o momento em que se desfazem as desavenças.

Source : Globo Online | 2016-11-07 15:59:00.0

RIO — Há cerca de um ano, um músico angolano foi preso em Luanda por ler um livro. Detido pela polícia do regime do MPLA junto a outros 16 amigos que discutiam em grupo a obra “Da democracia à ditadura”, do cientista político americano Gene Sharp, o rapper Luaty Beirão deu início a uma greve de fome na cadeia, em protesto à condenação por “atos preparatórios para rebelião” e “associação criminosa”. Durante 36 dias, tempo que resistiu sem comer, sua história correu o mundo em manifestações de solidariedade. Foram petições, vigílias e manifestos de apoio — no Brasil, artistas como Mano Brown (um dos ídolos de Luaty), Emicida, Chico César, Maria Gadu, Gaby Amarantos, Negra Li, MC Marechal, Rincon Sapiência e Kamau aderiram à causa. Luaty ficou confinado até junho deste ano, quando o governo decretou anistia aos presos políticos.

Ao longo de todo este tempo, o rapper conseguiu burlar a vigília e escrever um diário, que ocupou dois cadernos. O primeiro ele conseguiu fazer sair do presídio em meio aos jornais levados pelas visitas. O segundo foi interceptado e perdeu-se. As 125 páginas do material que resistiu acabam de ser lançadas em Portugal com o título “Sou eu mais livre, então: diário de um preso político angolano” (Tinta da China), que em breve chegará também ao Brasil.

— A mente não gosta de estar desocupada — comenta Luaty, por telefone, de Luanda, pouco antes de sair para o ensaio do primeiro show que fará depois da soltura. — Todo este caderno escrito abrange apenas poucos dias da prisão. Eu teria escrito muito mais se deixassem.

Neste “Memórias do cárcere” angolano, Luaty conta em detalhes o momento em que foi preso, a rotina na cadeia, as conquistas para si mesmo e os outros detidos, como o aumento da frequência dos banhos de sol e da ração de água semanal (quando chegou, tinha direito a apenas 1,5 litro de água a cada dois dias, para tomar banho, lavar pratos, talheres e roupas).

ISOLADO NA SOLITÁRIA

“Fui transportado de uma forma que me fez sentir como uma espécie de Hannibal Lecter meets David Copperfield: de noite, num minibus, dentro de um cubículo de metal que parecia um caixão na vertical, algemado e com meus parcos pertences amontoados aos meus pés”, escreve ele.

Isolado na ‘‘mombaka’’, a solitária, no mesmo bloco dos homicidas e violadores, convivendo com ratos e baratas, Luaty conta que começou a greve de fome quase espontaneamente, ao recusar o “matabicho” (café da manhã) servido na prisão, com medo de ser envenenado. Até decidir interromper de vez a alimentação para chamar a atenção para as reivindicações do grupo. A um custo emocional arriscado, a tática deu certo. Questionado sobre os perigos de expor num livro o sistema prisional do país, Luaty reflete:

— Fomos anistiados sendo inocentes. Vamos continuar a expor o nosso sistema judicial. Não acho que seja mais perigoso o que tenho feito do que o que já fizemos antes. Quanto mais expomos, mais me sinto protegido, pois mais gente sabe o que acontece em Angola. Vários países pressionaram pela nossa anistia.

No diário, o rapper também compartilha as leituras feitas na prisão (devorou obras do conterrâneo José Eduardo Agualusa), faz reflexões existenciais e comentários musicais (há até um set inteiro de rap montado para uma futura mixtape), rascunha letras de rap e esboça um romance. Num trecho, comenta que quando ouvia de longe o som da TV, sabia que era noite, pois os carcereiros assistiam à novela “Avenida Brasil’’. Era o irônico som do kuduro da abertura que dava as horas a ele.

Também registra as músicas dos presos (“Já nos comeram a carne, estão a nos comer também os ossos/ queremos o dinheiro do petróleo/ é nosso”), e os “louvores de cadeia”, estrofes cantadas em uníssono por um coro de mais de cem presos, o que o emocionava bastante:

— Todo angolano é artista. A falta de emprego, a necessidade de sobrevivência, a criatividade aqui é genética. Tudo virava kuduro. Eu pensei até em pedir as letras dos louvores, e assim as punha alinhada em versos, e publicar este livro com um CD. Mas pá, os caras estão ali a sonhar em ser livres, não estão pensando nisso. Mas ainda quero voltar lá e fazer um documentário.

Source : Globo Online | 2016-11-06 10:23:29.0
Claudia Leitte dividiu um momento divertido com os seus fãs no fim fim da tarde desta quarta- ...
Source : Terra Brasil | 2016-10-12 20:47:10.0

RIO - O movimento de renovação do fado sacudiu, como nenhum outro, a música portuguesa nos últimos anos. Banda formada em 2006 pelos irmãos Pedro e Luís José Martins, com sua prima Ana Bacalhau e ainda José Pedro Leitão (que depois se casaria com Ana), o Deolinda não ficou de fora da dança, mas seguiu em frente, com novos passos.

Pela primeira vez no Rio (ele se apresentou em 2013 em Pernambuco e São Paulo), o quarteto é a grande estrela da Festa dos Santos Populares Portugueses, evento de música, gastronomia, arte popular e literatura, gratuito, que acontece de sexta a domingo, na Praça XV e no Paço Imperial. O grupo faz na sexta, na praça, o show do seu quarto álbum, “Outras histórias”, lançado com sucesso em fevereiro em Portugal.

— Enquanto nossos dois primeiros álbuns iam beber à tradição do fado, mas sem ser fado, no terceiro, “Mundo pequenino”, começamos a olhar de Portugal para o mundo. Fomos nos deixando influenciar pelos sons e pelas culturas dos países em que íamos fazer concertos — conta Ana, cantora do Deolinda, em entrevista por telefone. — “Outras histórias” é um álbum da maturidade, em que sentimos confiança para arriscar. As canções desse disco pediam coisas diferentes. De fato, há um lote delas que não tem lá tanto fado, ou nada de fado, mas que traz a influência da música tradicional portuguesa, uma predominância de percussão que está dentro de uma tradição.

Os elementos alienígenas despontam numa série de canções do novo disco, indica Ana Bacalhau:

— Há um cheirinho à bossa na “Canção aranha”, um baião no refrão do “Bom partido”, uma orquestra meio inspirada no “A day in the life” dos Beatles em “Nunca é tarde” e, se calhar, a maior experiência de todas, que foi ter convidado um DJ, o Riot, do Buraka Som Sistema (grupo português que se baseia no kuduro angolano), para pôr uns beats eletrônicos de funaná, que é um ritmo tradicional de Cabo Verde, por cima de uma canção tocada com nossos instrumentos acústicos (“A velha e o DJ”). Ficou uma coisa maravilhosa, mas Deolinda mesmo.

Uma característica que o grupo gosta de exercitar em suas canções (todas de Pedro Martins) é a da crônica, como se vê bem no novo disco em “Bom partido”, que fala sobre uma tal moça que pede aos santos para que lhe encontrem um marido.

— É um lado muito característico do Deolinda, esse do olhar sobre o mundo que nos rodeia, das histórias do cotidiano — diz a cantora. — Tem também a história do casal que está zangado, mas partilha no sofá uma manta (de “Manta para dois”). Uma situação comum que, se calhar, não pensávamos que pudesse dar numa música. Em geral, as canções falam do amor de coisas elevadas, do amor em uma forma abstrata, mas gostamos de pegar essas coisinhas do dia a dia e transformá-las em músicas.

"SOMOS POLITIZADOS"

A crônica do Deolinda, porém, algumas vezes esbarra na política, como foi o caso de “Parva que sou” (“que mundo tão parvo/ onde para ser escravo é preciso estudar”), música que causou rebuliço em 2011, em meio à crise política e econômica enfrentada por Portugal.

— Foi um pouco inesperado, a canção não veio em nenhum disco, nós a tocamos em dois concertos importantes, no Coliseu de Lisboa e no do Porto — relata Ana. — A reação do público foi absolutamente emotiva, as pessoas ouviam a letra e aplaudiam. Depois, a canção começou a passar de mão em mão nas redes sociais e houve até uma manifestação feita em março em que ela foi a trilha sonora dos protestos contra todas as dificuldades enfrentadas por alguém que começa a sua vida profissional. O que, infelizmente, existe ainda hoje.

Deolinda, Corzinha de Verão

Segundo a cantora, o Deolinda tem uma postura crítica em relação a tudo aquilo que a cerca:

— Somos politizados, a cidadania é importante para nós. Portanto, é natural que isso passe para a música que fazemos. Neste novo álbum, por exemplo, temos uma canção chamada “Bote furado” — conta. — A situação em Portugal esteve muito difícil até há pouco tempo, ainda atravessamos algumas dificuldades econômicas, ainda estamos às voltas com algumas regras de austeridade impostas pela União Europeia, mas estamos neste momento respirando um pouquinho mais de alívio com o novo governo, que é mais atento ao humanismo e às questões sociais, que freia um pouco o ímpeto neoliberal. Estamos um pouquinho mais serenos para enfrentar o futuro.

Com fãs brasileiros da importância de Fafá de Belém (que já cantou em seus shows uma música do grupo, “Ele passou por mim e sorriu”), o Deolinda espera que a visita ao Rio renda frutos.

— Sabemos que temos um grupo de fãs no Brasil, para lá da comunidade portuguesa, que estava torcendo há muito tempo para que voltássemos. Tomara que esteja no nosso destino encontrar com músicos brasileiros — torce a cantora.

Deolinda

Onde: Praça XV, Centro (veja programação do festival no site santospopularesportugueses.com.br).

Quando: Nesta sexta, às 21h.

Quanto: Entrada franca.

Source : Globo Online | 2016-06-08 11:00:00.0

RIO — “O que torna a música tão poderosa?”, parece se perguntar o tempo inteiro o inglês Marcus Boon, que chegou ao Rio esta semana para pesquisar cenas musicais independentes, como a que fervilha a Audio Rebel, em Botafogo; e para dar a palestra “Vanguardas, Underground e Pirataria” nesta segunda-feira, às 18h30m, no Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS), que tem entrada franca. Pesquisador musical, professor de História Cultural da University of York, em Toronto, e colunista da revista de música underground “The wire”, Marcus está sempre em busca desta resposta em todos os estudos que faz. Seja ao investigar as vantagens da “cultura da cópia” contemporânea no livro “In praise of copying” (segundo ele, o grande poder das apropriações musicais de hoje em dia são as novas formas de compartilhamento que geram); ou ao estudar os poderes que a vibração da música têm sobre o nosso corpo, gerando performances ora eróticas, ora violentas, tema de seu próximo livro, “As políticas da vibração”. Ele tenta responder a si mesmo nesta entrevista ao GLOBO: “A música bem-feita nos leva ao coração do ser”.

Quais são os tipos de apropriação musical que você investiga, tema de sua palestra hoje?

Eu estava em Nova York em 1982, quando a cena de hip hop no Bronx e no Harlem começava. Os DJs criavam novas músicas, em cima de outras, pré-existentes; os metrôs eram cobertos com pichações; à noite você ouvia o som do “booming bass” dos sistemas de som dos carros. Era uma apropriação literal dos sons de outras pessoas; do espaço público; da linguagem. E essas práticas de apropriação têm acontecido em todo o mundo, gerando formas locais de apropriação, como o kuduro em Angola ou o funk no Brasil. Eu estou interessado nesta distribuição global das apropriações, e na compreensão de como ela muda de acordo com as condições locais.

E como elas mudam?

O hip hop é uma forma, assim como o reggae e o dub são outra forma, ou o tecnobrega, no Brasil. Ou as “versões” de um ritmo ou canção em particular, que se proliferam infinitamente em novas faixas se tornaram uma das práticas básicas de apropriação na cultura digital. O que há de mais poderoso na cópia, na apropriação, na versão, não é que ela seja pessoal, única, mas específica. Um sampler contém algo de autêntico, de vivo, e envolve algo da cultura local que só pode emergir de um grupo específico de pessoas.

Toda música é uma apropriação?

A apropriação está em toda parte. A nossa História é uma história de apropriação. O colonialismo nas Américas é, em si, um enorme “empenho apropriativo”, assim como foi o comércio de escravos, que constituiu as grandes diásporas africanas. Talvez este seja um exemplo do que crítico Eve Kosofsky Sedgwick chama de “leitura de reparação”: a apropriação como “prática reparadora”. Nos EUA, estudiosos como Jayna Brown têm enfatizado esta “prática reparadora” dos estilos musicais africanos.

O hip hop seria uma espécie de vingança estética dos colonizados?

Sim. É um tipo de “contra-apropriação”. Um dos dilemas das sociedades pós-coloniais é em qual direção tomar essa apropriação. É por isso que é tão interessante para mim que a house music tenha se tornado tão popular na África do Sul depois do fim do apartheid. Como se houvesse uma necessidade de afirmar a diáspora através da apropriação de um estilo musical particular e redefini-lo.

A apropriação está em toda parte. A nossa História é uma história de apropriação. O colonialismo nas Américas é, em si, um enorme “empenho apropriativo”, assim como foi o comércio de escravos, que constituiu as grandes diásporas africanas

Quais são as maiores formas de apropriação musical hoje em dia?

A maioria das formas de apropriação se torna hoje parte de um mercado de mainstream. Estamos famintos por novas formas de apropriação. O comunismo falhou para a maioria das pessoas, o mercado livre não está indo tão bem... Tecnologicamente, nossa capacidade de fazer e compartilhar nunca foi tão grande. Mas como viver juntos e apoiar-nos uns aos outros por meio destes novos tipos de distribuição e produção?

Ou: como pagar quem é copiado?

É uma questão que parece não ter resposta. Pelo menos não antes que se responda uma questão muito mais ampla acerca da organização da sociedade e da distribuição das necessidades e desejos humanos. Não são só os artistas que precisam de ser pagos; são os trabalhadores, são os pobres que trabalham em fábricas ou em áreas rurais. A industrialização é uma economia baseada na produção em massa de cópias; e essa é a nossa sociedade da informação.

O que está em debate hoje em dia quando falamos de apropriação?

O foco é realmente a ideia de propriedade. O neoliberalismo global é em grande parte construído em torno da ideia de propriedade privada. Os direitos humanos são considerados para garantir a cultura e a identidade como uma forma de propriedade privada. A “apropriação” vai contra esta noção de propriedade — que implica a possibilidade ou necessidade de partilha e redistribuição. Claro, o capitalismo global é, em si, altamente “apropriável”. Houve uma reação contra a estética de apropriação nos últimos anos porque os direitos dos povos marginalizados estão muitas vezes sendo garantidos através do direito de propriedade. É compreensível, mas torna mais difíceis as práticas de partilha e da construção de uma noção de “domínio público” mais efetiva.

O que veio pesquisar no Brasil?

Estou muito interessado na música que o Maga Bo faz, como um tradutor ou mensageiro dos sons pelo mundo (DJ, produtor, engenheiro de som e etnomusicólogo americano-brasileiro faz músicas com colagens de estilos de diversos países). Também é muito intrigante o “Bahia bass” do Lord Breu, com poderosos ritmos sintetizados (o movimento une artistas que fundem gêneros baianos com sons eletrônicos). Eu também estou curioso pelas cenas de rock independente e alternativo no Brasil, que inclui o Metá Metá, de São Paulo. Ainda me interessa a improvisação experimental e livre de cenas que estão florescendo em espaços como Áudio Rebel, em Botafogo. Em todos esses casos, quero entender como as redes globais estão sendo formadas em torno de cenas de subcultura sonora, e a possibilidade de novos tipos de “contra-globalização” através deles.

Sobre o que trata seu novo livro?

Em “As políticas da vibração” eu exploro a ideia de que no núcleo da música e das culturas musicais há uma ontologia de energia e vibração. Cenas como a da dancehall são formas conscientes de moldar a energia e as formas vibratórias do corpo. Pesquiso a maneira pela qual a exposição à potência de vibração resulta em uma espécie de erotismo (pelo movimento coletivo e de jogo de corpos), mas também resulta em surtos de violência. É um trabalho que está me ajudando a pensar de forma diferente sobre o que é a música e por que ela é tão poderosa.

E por que é tão poderosa?

A música, quando bem feita, nos leva ao coração do ser. E faz isso com elegância, consensualmente. Não é arbitrária ou aleatória, e qualquer um pode aprender a tocar música de uma forma poderosa e bela (esta é uma das lições do punk). A música é uma forma de som, que é uma forma de vibração. Como meu mentor Catherine Christer Hennix diz, o universo é um campo de vibração (um campo quântico, entre outros). Com a música, nós nos sintonizamos a este fato, e isso é alegre, mesmo quando uma determinada peça de música (o blues, por exemplo) expressa profunda dor ou sofrimento.

Source : Globo Online | 2016-03-21 10:00:00.0

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