Bandas e Artistas de Kuduro

País : Angola Cabo Verde

O kuduru nasceu em 1996 na Angola. Ele foi criado por Tony Amado.
O Kuduru (tradução do português de "bumbum duro") é uma mistura potente de ritmos tradicionais da percussão angolana à 140Bpm (Descendente do samba brasileiro) e das batidas eletrônica de influência house. Sobre esta base de arranjos inesperados, os Kuduristas colocaram seus textos reivindicatórios. O Kuduru é uma produção eletrônica totalmente africana, um estilo musical único no mundo, 100% angolano.
Para acompanhar estes novos ritmos, Tony Amado também criou uma dança, a batida dura e sensual. Alternando descidas e balanços languidos, esta dança constitui um espetáculo fascinante.

Videos do Kuduro

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Notícia : Bandas e Artistas de Kuduro

RIO — Há cerca de um ano, um músico angolano foi preso em Luanda por ler um livro. Detido pela polícia do regime do MPLA junto a outros 16 amigos que discutiam em grupo a obra “Da democracia à ditadura”, do cientista político americano Gene Sharp, o rapper Luaty Beirão deu início a uma greve de fome na cadeia, em protesto à condenação por “atos preparatórios para rebelião” e “associação criminosa”. Durante 36 dias, tempo que resistiu sem comer, sua história correu o mundo em manifestações de solidariedade. Foram petições, vigílias e manifestos de apoio — no Brasil, artistas como Mano Brown (um dos ídolos de Luaty), Emicida, Chico César, Maria Gadu, Gaby Amarantos, Negra Li, MC Marechal, Rincon Sapiência e Kamau aderiram à causa. Luaty ficou confinado até junho deste ano, quando o governo decretou anistia aos presos políticos.

Ao longo de todo este tempo, o rapper conseguiu burlar a vigília e escrever um diário, que ocupou dois cadernos. O primeiro ele conseguiu fazer sair do presídio em meio aos jornais levados pelas visitas. O segundo foi interceptado e perdeu-se. As 125 páginas do material que resistiu acabam de ser lançadas em Portugal com o título “Sou eu mais livre, então: diário de um preso político angolano” (Tinta da China), que em breve chegará também ao Brasil.

— A mente não gosta de estar desocupada — comenta Luaty, por telefone, de Luanda, pouco antes de sair para o ensaio do primeiro show que fará depois da soltura. — Todo este caderno escrito abrange apenas poucos dias da prisão. Eu teria escrito muito mais se deixassem.

Neste “Memórias do cárcere” angolano, Luaty conta em detalhes o momento em que foi preso, a rotina na cadeia, as conquistas para si mesmo e os outros detidos, como o aumento da frequência dos banhos de sol e da ração de água semanal (quando chegou, tinha direito a apenas 1,5 litro de água a cada dois dias, para tomar banho, lavar pratos, talheres e roupas).

ISOLADO NA SOLITÁRIA

“Fui transportado de uma forma que me fez sentir como uma espécie de Hannibal Lecter meets David Copperfield: de noite, num minibus, dentro de um cubículo de metal que parecia um caixão na vertical, algemado e com meus parcos pertences amontoados aos meus pés”, escreve ele.

Isolado na ‘‘mombaka’’, a solitária, no mesmo bloco dos homicidas e violadores, convivendo com ratos e baratas, Luaty conta que começou a greve de fome quase espontaneamente, ao recusar o “matabicho” (café da manhã) servido na prisão, com medo de ser envenenado. Até decidir interromper de vez a alimentação para chamar a atenção para as reivindicações do grupo. A um custo emocional arriscado, a tática deu certo. Questionado sobre os perigos de expor num livro o sistema prisional do país, Luaty reflete:

— Fomos anistiados sendo inocentes. Vamos continuar a expor o nosso sistema judicial. Não acho que seja mais perigoso o que tenho feito do que o que já fizemos antes. Quanto mais expomos, mais me sinto protegido, pois mais gente sabe o que acontece em Angola. Vários países pressionaram pela nossa anistia.

No diário, o rapper também compartilha as leituras feitas na prisão (devorou obras do conterrâneo José Eduardo Agualusa), faz reflexões existenciais e comentários musicais (há até um set inteiro de rap montado para uma futura mixtape), rascunha letras de rap e esboça um romance. Num trecho, comenta que quando ouvia de longe o som da TV, sabia que era noite, pois os carcereiros assistiam à novela “Avenida Brasil’’. Era o irônico som do kuduro da abertura que dava as horas a ele.

Também registra as músicas dos presos (“Já nos comeram a carne, estão a nos comer também os ossos/ queremos o dinheiro do petróleo/ é nosso”), e os “louvores de cadeia”, estrofes cantadas em uníssono por um coro de mais de cem presos, o que o emocionava bastante:

— Todo angolano é artista. A falta de emprego, a necessidade de sobrevivência, a criatividade aqui é genética. Tudo virava kuduro. Eu pensei até em pedir as letras dos louvores, e assim as punha alinhada em versos, e publicar este livro com um CD. Mas pá, os caras estão ali a sonhar em ser livres, não estão pensando nisso. Mas ainda quero voltar lá e fazer um documentário.

TRECHO

“Acho isso muito bonito mesmo”

Todas as manhãs, depois do matabicho, é hora das orações, normalmente girando em torno do tema do arrependimento. Parecem atribuir ao cigarro uma característica demoníaca da qual se devem afastar. Parecem muito engajados na sua reconversão... Até acabar a missa. Imediatamente a seguir voltam ao mercado de cigarros e entregam-se a animadas sessões de batucadas que em qualquer outra prisão do mundo seriam consideradas um ato de rebelião e travadas pela força. Acho isso bonito mesmo. É o momento em que se desfazem as desavenças.

Source : Globo Online | 2016-11-07 15:59:00.0

RIO — Há cerca de um ano, um músico angolano foi preso em Luanda por ler um livro. Detido pela polícia do regime do MPLA junto a outros 16 amigos que discutiam em grupo a obra “Da democracia à ditadura”, do cientista político americano Gene Sharp, o rapper Luaty Beirão deu início a uma greve de fome na cadeia, em protesto à condenação por “atos preparatórios para rebelião” e “associação criminosa”. Durante 36 dias, tempo que resistiu sem comer, sua história correu o mundo em manifestações de solidariedade. Foram petições, vigílias e manifestos de apoio — no Brasil, artistas como Mano Brown (um dos ídolos de Luaty), Emicida, Chico César, Maria Gadu, Gaby Amarantos, Negra Li, MC Marechal, Rincon Sapiência e Kamau aderiram à causa. Luaty ficou confinado até junho deste ano, quando o governo decretou anistia aos presos políticos.

Ao longo de todo este tempo, o rapper conseguiu burlar a vigília e escrever um diário, que ocupou dois cadernos. O primeiro ele conseguiu fazer sair do presídio em meio aos jornais levados pelas visitas. O segundo foi interceptado e perdeu-se. As 125 páginas do material que resistiu acabam de ser lançadas em Portugal com o título “Sou eu mais livre, então: diário de um preso político angolano” (Tinta da China), que em breve chegará também ao Brasil.

— A mente não gosta de estar desocupada — comenta Luaty, por telefone, de Luanda, pouco antes de sair para o ensaio do primeiro show que fará depois da soltura. — Todo este caderno escrito abrange apenas poucos dias da prisão. Eu teria escrito muito mais se deixassem.

Neste “Memórias do cárcere” angolano, Luaty conta em detalhes o momento em que foi preso, a rotina na cadeia, as conquistas para si mesmo e os outros detidos, como o aumento da frequência dos banhos de sol e da ração de água semanal (quando chegou, tinha direito a apenas 1,5 litro de água a cada dois dias, para tomar banho, lavar pratos, talheres e roupas).

ISOLADO NA SOLITÁRIA

“Fui transportado de uma forma que me fez sentir como uma espécie de Hannibal Lecter meets David Copperfield: de noite, num minibus, dentro de um cubículo de metal que parecia um caixão na vertical, algemado e com meus parcos pertences amontoados aos meus pés”, escreve ele.

Isolado na ‘‘mombaka’’, a solitária, no mesmo bloco dos homicidas e violadores, convivendo com ratos e baratas, Luaty conta que começou a greve de fome quase espontaneamente, ao recusar o “matabicho” (café da manhã) servido na prisão, com medo de ser envenenado. Até decidir interromper de vez a alimentação para chamar a atenção para as reivindicações do grupo. A um custo emocional arriscado, a tática deu certo. Questionado sobre os perigos de expor num livro o sistema prisional do país, Luaty reflete:

— Fomos anistiados sendo inocentes. Vamos continuar a expor o nosso sistema judicial. Não acho que seja mais perigoso o que tenho feito do que o que já fizemos antes. Quanto mais expomos, mais me sinto protegido, pois mais gente sabe o que acontece em Angola. Vários países pressionaram pela nossa anistia.

No diário, o rapper também compartilha as leituras feitas na prisão (devorou obras do conterrâneo José Eduardo Agualusa), faz reflexões existenciais e comentários musicais (há até um set inteiro de rap montado para uma futura mixtape), rascunha letras de rap e esboça um romance. Num trecho, comenta que quando ouvia de longe o som da TV, sabia que era noite, pois os carcereiros assistiam à novela “Avenida Brasil’’. Era o irônico som do kuduro da abertura que dava as horas a ele.

Também registra as músicas dos presos (“Já nos comeram a carne, estão a nos comer também os ossos/ queremos o dinheiro do petróleo/ é nosso”), e os “louvores de cadeia”, estrofes cantadas em uníssono por um coro de mais de cem presos, o que o emocionava bastante:

— Todo angolano é artista. A falta de emprego, a necessidade de sobrevivência, a criatividade aqui é genética. Tudo virava kuduro. Eu pensei até em pedir as letras dos louvores, e assim as punha alinhada em versos, e publicar este livro com um CD. Mas pá, os caras estão ali a sonhar em ser livres, não estão pensando nisso. Mas ainda quero voltar lá e fazer um documentário.

Source : Globo Online | 2016-11-06 10:23:29.0
Claudia Leitte dividiu um momento divertido com os seus fãs no fim fim da tarde desta quarta- ...
Source : Terra Brasil | 2016-10-12 20:47:10.0

RIO - O movimento de renovação do fado sacudiu, como nenhum outro, a música portuguesa nos últimos anos. Banda formada em 2006 pelos irmãos Pedro e Luís José Martins, com sua prima Ana Bacalhau e ainda José Pedro Leitão (que depois se casaria com Ana), o Deolinda não ficou de fora da dança, mas seguiu em frente, com novos passos.

Pela primeira vez no Rio (ele se apresentou em 2013 em Pernambuco e São Paulo), o quarteto é a grande estrela da Festa dos Santos Populares Portugueses, evento de música, gastronomia, arte popular e literatura, gratuito, que acontece de sexta a domingo, na Praça XV e no Paço Imperial. O grupo faz na sexta, na praça, o show do seu quarto álbum, “Outras histórias”, lançado com sucesso em fevereiro em Portugal.

— Enquanto nossos dois primeiros álbuns iam beber à tradição do fado, mas sem ser fado, no terceiro, “Mundo pequenino”, começamos a olhar de Portugal para o mundo. Fomos nos deixando influenciar pelos sons e pelas culturas dos países em que íamos fazer concertos — conta Ana, cantora do Deolinda, em entrevista por telefone. — “Outras histórias” é um álbum da maturidade, em que sentimos confiança para arriscar. As canções desse disco pediam coisas diferentes. De fato, há um lote delas que não tem lá tanto fado, ou nada de fado, mas que traz a influência da música tradicional portuguesa, uma predominância de percussão que está dentro de uma tradição.

Os elementos alienígenas despontam numa série de canções do novo disco, indica Ana Bacalhau:

— Há um cheirinho à bossa na “Canção aranha”, um baião no refrão do “Bom partido”, uma orquestra meio inspirada no “A day in the life” dos Beatles em “Nunca é tarde” e, se calhar, a maior experiência de todas, que foi ter convidado um DJ, o Riot, do Buraka Som Sistema (grupo português que se baseia no kuduro angolano), para pôr uns beats eletrônicos de funaná, que é um ritmo tradicional de Cabo Verde, por cima de uma canção tocada com nossos instrumentos acústicos (“A velha e o DJ”). Ficou uma coisa maravilhosa, mas Deolinda mesmo.

Uma característica que o grupo gosta de exercitar em suas canções (todas de Pedro Martins) é a da crônica, como se vê bem no novo disco em “Bom partido”, que fala sobre uma tal moça que pede aos santos para que lhe encontrem um marido.

— É um lado muito característico do Deolinda, esse do olhar sobre o mundo que nos rodeia, das histórias do cotidiano — diz a cantora. — Tem também a história do casal que está zangado, mas partilha no sofá uma manta (de “Manta para dois”). Uma situação comum que, se calhar, não pensávamos que pudesse dar numa música. Em geral, as canções falam do amor de coisas elevadas, do amor em uma forma abstrata, mas gostamos de pegar essas coisinhas do dia a dia e transformá-las em músicas.

"SOMOS POLITIZADOS"

A crônica do Deolinda, porém, algumas vezes esbarra na política, como foi o caso de “Parva que sou” (“que mundo tão parvo/ onde para ser escravo é preciso estudar”), música que causou rebuliço em 2011, em meio à crise política e econômica enfrentada por Portugal.

— Foi um pouco inesperado, a canção não veio em nenhum disco, nós a tocamos em dois concertos importantes, no Coliseu de Lisboa e no do Porto — relata Ana. — A reação do público foi absolutamente emotiva, as pessoas ouviam a letra e aplaudiam. Depois, a canção começou a passar de mão em mão nas redes sociais e houve até uma manifestação feita em março em que ela foi a trilha sonora dos protestos contra todas as dificuldades enfrentadas por alguém que começa a sua vida profissional. O que, infelizmente, existe ainda hoje.

Deolinda, Corzinha de Verão

Segundo a cantora, o Deolinda tem uma postura crítica em relação a tudo aquilo que a cerca:

— Somos politizados, a cidadania é importante para nós. Portanto, é natural que isso passe para a música que fazemos. Neste novo álbum, por exemplo, temos uma canção chamada “Bote furado” — conta. — A situação em Portugal esteve muito difícil até há pouco tempo, ainda atravessamos algumas dificuldades econômicas, ainda estamos às voltas com algumas regras de austeridade impostas pela União Europeia, mas estamos neste momento respirando um pouquinho mais de alívio com o novo governo, que é mais atento ao humanismo e às questões sociais, que freia um pouco o ímpeto neoliberal. Estamos um pouquinho mais serenos para enfrentar o futuro.

Com fãs brasileiros da importância de Fafá de Belém (que já cantou em seus shows uma música do grupo, “Ele passou por mim e sorriu”), o Deolinda espera que a visita ao Rio renda frutos.

— Sabemos que temos um grupo de fãs no Brasil, para lá da comunidade portuguesa, que estava torcendo há muito tempo para que voltássemos. Tomara que esteja no nosso destino encontrar com músicos brasileiros — torce a cantora.

Deolinda

Onde: Praça XV, Centro (veja programação do festival no site santospopularesportugueses.com.br).

Quando: Nesta sexta, às 21h.

Quanto: Entrada franca.

Source : Globo Online | 2016-06-08 11:00:00.0

RIO — “O que torna a música tão poderosa?”, parece se perguntar o tempo inteiro o inglês Marcus Boon, que chegou ao Rio esta semana para pesquisar cenas musicais independentes, como a que fervilha a Audio Rebel, em Botafogo; e para dar a palestra “Vanguardas, Underground e Pirataria” nesta segunda-feira, às 18h30m, no Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS), que tem entrada franca. Pesquisador musical, professor de História Cultural da University of York, em Toronto, e colunista da revista de música underground “The wire”, Marcus está sempre em busca desta resposta em todos os estudos que faz. Seja ao investigar as vantagens da “cultura da cópia” contemporânea no livro “In praise of copying” (segundo ele, o grande poder das apropriações musicais de hoje em dia são as novas formas de compartilhamento que geram); ou ao estudar os poderes que a vibração da música têm sobre o nosso corpo, gerando performances ora eróticas, ora violentas, tema de seu próximo livro, “As políticas da vibração”. Ele tenta responder a si mesmo nesta entrevista ao GLOBO: “A música bem-feita nos leva ao coração do ser”.

Quais são os tipos de apropriação musical que você investiga, tema de sua palestra hoje?

Eu estava em Nova York em 1982, quando a cena de hip hop no Bronx e no Harlem começava. Os DJs criavam novas músicas, em cima de outras, pré-existentes; os metrôs eram cobertos com pichações; à noite você ouvia o som do “booming bass” dos sistemas de som dos carros. Era uma apropriação literal dos sons de outras pessoas; do espaço público; da linguagem. E essas práticas de apropriação têm acontecido em todo o mundo, gerando formas locais de apropriação, como o kuduro em Angola ou o funk no Brasil. Eu estou interessado nesta distribuição global das apropriações, e na compreensão de como ela muda de acordo com as condições locais.

E como elas mudam?

O hip hop é uma forma, assim como o reggae e o dub são outra forma, ou o tecnobrega, no Brasil. Ou as “versões” de um ritmo ou canção em particular, que se proliferam infinitamente em novas faixas se tornaram uma das práticas básicas de apropriação na cultura digital. O que há de mais poderoso na cópia, na apropriação, na versão, não é que ela seja pessoal, única, mas específica. Um sampler contém algo de autêntico, de vivo, e envolve algo da cultura local que só pode emergir de um grupo específico de pessoas.

Toda música é uma apropriação?

A apropriação está em toda parte. A nossa História é uma história de apropriação. O colonialismo nas Américas é, em si, um enorme “empenho apropriativo”, assim como foi o comércio de escravos, que constituiu as grandes diásporas africanas. Talvez este seja um exemplo do que crítico Eve Kosofsky Sedgwick chama de “leitura de reparação”: a apropriação como “prática reparadora”. Nos EUA, estudiosos como Jayna Brown têm enfatizado esta “prática reparadora” dos estilos musicais africanos.

O hip hop seria uma espécie de vingança estética dos colonizados?

Sim. É um tipo de “contra-apropriação”. Um dos dilemas das sociedades pós-coloniais é em qual direção tomar essa apropriação. É por isso que é tão interessante para mim que a house music tenha se tornado tão popular na África do Sul depois do fim do apartheid. Como se houvesse uma necessidade de afirmar a diáspora através da apropriação de um estilo musical particular e redefini-lo.

A apropriação está em toda parte. A nossa História é uma história de apropriação. O colonialismo nas Américas é, em si, um enorme “empenho apropriativo”, assim como foi o comércio de escravos, que constituiu as grandes diásporas africanas

Quais são as maiores formas de apropriação musical hoje em dia?

A maioria das formas de apropriação se torna hoje parte de um mercado de mainstream. Estamos famintos por novas formas de apropriação. O comunismo falhou para a maioria das pessoas, o mercado livre não está indo tão bem... Tecnologicamente, nossa capacidade de fazer e compartilhar nunca foi tão grande. Mas como viver juntos e apoiar-nos uns aos outros por meio destes novos tipos de distribuição e produção?

Ou: como pagar quem é copiado?

É uma questão que parece não ter resposta. Pelo menos não antes que se responda uma questão muito mais ampla acerca da organização da sociedade e da distribuição das necessidades e desejos humanos. Não são só os artistas que precisam de ser pagos; são os trabalhadores, são os pobres que trabalham em fábricas ou em áreas rurais. A industrialização é uma economia baseada na produção em massa de cópias; e essa é a nossa sociedade da informação.

O que está em debate hoje em dia quando falamos de apropriação?

O foco é realmente a ideia de propriedade. O neoliberalismo global é em grande parte construído em torno da ideia de propriedade privada. Os direitos humanos são considerados para garantir a cultura e a identidade como uma forma de propriedade privada. A “apropriação” vai contra esta noção de propriedade — que implica a possibilidade ou necessidade de partilha e redistribuição. Claro, o capitalismo global é, em si, altamente “apropriável”. Houve uma reação contra a estética de apropriação nos últimos anos porque os direitos dos povos marginalizados estão muitas vezes sendo garantidos através do direito de propriedade. É compreensível, mas torna mais difíceis as práticas de partilha e da construção de uma noção de “domínio público” mais efetiva.

O que veio pesquisar no Brasil?

Estou muito interessado na música que o Maga Bo faz, como um tradutor ou mensageiro dos sons pelo mundo (DJ, produtor, engenheiro de som e etnomusicólogo americano-brasileiro faz músicas com colagens de estilos de diversos países). Também é muito intrigante o “Bahia bass” do Lord Breu, com poderosos ritmos sintetizados (o movimento une artistas que fundem gêneros baianos com sons eletrônicos). Eu também estou curioso pelas cenas de rock independente e alternativo no Brasil, que inclui o Metá Metá, de São Paulo. Ainda me interessa a improvisação experimental e livre de cenas que estão florescendo em espaços como Áudio Rebel, em Botafogo. Em todos esses casos, quero entender como as redes globais estão sendo formadas em torno de cenas de subcultura sonora, e a possibilidade de novos tipos de “contra-globalização” através deles.

Sobre o que trata seu novo livro?

Em “As políticas da vibração” eu exploro a ideia de que no núcleo da música e das culturas musicais há uma ontologia de energia e vibração. Cenas como a da dancehall são formas conscientes de moldar a energia e as formas vibratórias do corpo. Pesquiso a maneira pela qual a exposição à potência de vibração resulta em uma espécie de erotismo (pelo movimento coletivo e de jogo de corpos), mas também resulta em surtos de violência. É um trabalho que está me ajudando a pensar de forma diferente sobre o que é a música e por que ela é tão poderosa.

E por que é tão poderosa?

A música, quando bem feita, nos leva ao coração do ser. E faz isso com elegância, consensualmente. Não é arbitrária ou aleatória, e qualquer um pode aprender a tocar música de uma forma poderosa e bela (esta é uma das lições do punk). A música é uma forma de som, que é uma forma de vibração. Como meu mentor Catherine Christer Hennix diz, o universo é um campo de vibração (um campo quântico, entre outros). Com a música, nós nos sintonizamos a este fato, e isso é alegre, mesmo quando uma determinada peça de música (o blues, por exemplo) expressa profunda dor ou sofrimento.

Source : Globo Online | 2016-03-21 10:00:00.0

PRAIA - Uma caminhada por Praia, capital de Cabo Verde, vale por uma aula prática sobre as idas e vindas da língua portuguesa ao longo da História. No centro da cidade, um platô de onde se vê o Oceano Atlântico, casinhas de arquitetura colonial que poderiam estar em Paraty exibem letreiros como Loja Elegância, Padaria Pão Quente, Farmácia Africana. Basta descer uma ladeira, porém, para chegar a uma grande feira de rua onde se negocia de tudo — porcos e galinhas vivas, bugigangas eletrônicas, tecidos de Senegal, Gana e Guiné — em meio a gritos de “moia, moia, moia”, a palavra para “desconto” no idioma crioulo, o mais falado nas ruas do país. É o Mercado Sucupira, batizado em homenagem à terra de Odorico Paraguaçu na novela “O bem-amado”.

Link Cabo Verde

Essa história de trocas culturais é o pano de fundo do sexto Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, que termina hoje, em Praia. Ao longo de três dias, o evento promovido pela União das Cidades Capitais da Língua Portuguesa (UCCLA) reuniu mais de 30 autores de nove países. A maioria já ratificou o acordo, em vigor desde 1º de janeiro no Brasil, mas em muitos locais ele ainda é aplicado de forma inconsistente, ou sequer foi implementado, como no caso de Angola e Moçambique. As experiências dos escritores mostram que o ideal do acordo, de aproximar os 250 milhões de falantes nativos de português, enfrenta desafios mais complexos do que a unificação da ortografia.

— Grafar uma palavra com uma letra a mais ou a menos não vai resolver os problemas do português em Angola, como as dificuldades do ensino e a falta de leitura. Essas são as questões reais — diz a poeta e historiadora angolana Ana Paula Tavares, de 63 anos, autora de mais de dez livros, que teve uma antologia de poemas publicada no Brasil, “Amargos como os frutos” (editora Pallas, 2012).

Radicada em Portugal, onde o acordo vigora oficialmente desde maio de 2015, Ana Paula não é contra a nova ortografia, embora estranhe quando num de seus versos aparece a palavra “afeto”, em vez de “afecto”. Ela conta que o governo angolano criou uma comissão para implantar o acordo, mas ainda estuda como dar conta da convivência entre o português e vários idiomas tradicionais dos povos banto de Angola. Para a escritora, do mesmo modo que palavras de origem banto, como “cachimbo” e “carimbo”, foram incorporadas à língua portuguesa, a mistura de idiomas feita hoje por músicos angolanos de kuduro não pode ser ignorada:

— O português está a se reinventar todos os dias.

IDIOMA FALADO POR APENAS 5% NO TIMOR LESTE

Grafar uma palavra com uma letra a mais ou a menos não vai resolver as dificuldades do ensino e a falta de leitura. Essas são as questões reais

O arquipélago de Cabo Verde tem um lugar central na história do idioma. Ali foi fundada em 1462 a primeira cidade europeia dos trópicos, Ribeira Grande, conhecida como Cidade Velha. A 15 quilômetros de onde hoje fica Praia, ela foi por séculos um dos principais entrepostos para o comércio de escravos. Um pelourinho no centro do povoado serve de lembrete aos visitantes sobre a história violenta do colonialismo e da língua portuguesa.

O idioma crioulo cabo-verdiano surgiu da mescla entre a língua dos colonizadores e a dos escravos trazidos da África Ocidental. Isso é visível em canções clássicas em crioulo, como “Sodade”, famosa na voz de Cesária Évora: “Quem mostra’ bo/ Ess caminho longe?/ Ess caminho/ Pa Sã Tomé”. Um dos principais romancistas do país, Germano Almeida, de 70 anos, é fã de Eça de Queiroz e Jorge Amado (principalmente “Mar Morto” e “Jubiabá”), mas diz que sua maior influência foram histórias contadas por antepassados numa mistura de crioulo e português. O acordo ortográfico entrou em vigor em Cabo Verde em outubro de 2015, mas Germano não se empolga com o tema.

— Só peço que me avisem onde botar os acentos — brinca Germano, que defende a importância da língua portuguesa para o país. — O crioulo é a língua oral de Cabo Verde, a que toda a gente fala, mas precisamos muito do português também, ele é fundamental na nossa história e literatura. Isso deveria ser reforçado nas escolas.

O crioulo é a língua oral de Cabo Verde, mas o português é fundamental na nossa história e literatura. Isso deveria ser reforçado nas escolas

Embora seja hoje um autor de destaque da língua portuguesa, com boa recepção crítica em Portugal, Germano só teve um romance lançado no Brasil, “O testamento do Sr. Napumoceno”, há 20 anos, pela Companhia das Letras. Ainda assim, é um dos poucos autores do evento já publicados no país. O poeta Arménio Vieira, por exemplo, primeiro cabo-verdiano a ganhar o Prêmio Camões, em 2006, e um dos homenageados do encontro, continua inédito em solo brasileiro.

— Fui ao Brasil lançar o livro e me pareceu que a literatura africana era uma ilustre desconhecida. Mas acredito que isso tem mudado, com mais estudos sobre o assunto — avalia Germano.

Representante do Timor Leste no evento, o romancista Luís Cardoso também tem apenas um livro no Brasil, “Réquiem para um navegador solitário” (Língua Geral, 2010). A língua portuguesa foi banida do Timor em 1975, quando o pequeno país, que ocupa metade de uma ilha no Oceano Índico, conquistou a independência de Portugal mas foi logo ocupado pela Indonésia. O idioma voltou a ser liberado em 2002, com o fim da ocupação.

Mais jovem do que o próprio acordo ortográfico, assinado em 1990, o Timor aderiu ao protocolo em 2009. Mas hoje a adequação às novas regras é uma preocupação menor do que a própria sobrevivência do português no país, onde ele é falado por apenas 5% da população e é o quarto idioma oficial, ao lado do inglês, do indonésio e do tétum, uma língua local muito influenciada pelo português — o vocabulário tétum tem palavras como “democracia” e “liberdade”, conta o escritor.

LUSOFONIA É UMA “PALAVRA PARADOXAL”

Hoje, ‘lusofonia’ é o conjunto dos falantes de português, com todas as suas diferenças. É isso o que estamos a celebrar

Nascido em 1959, numa família timorense onde se falavam esses e outros idiomas não oficiais, Cardoso escolheu escrever em português. Radicado em Portugal desde a ocupação indonésia, é autor do primeiro romance lusófono timorense, “Crônica de uma travessia”, de 1997.

— O português é a minha língua literária — diz.

O historiador português Miguel Real define “lusofonia” como uma palavra “paradoxal”. Na Idade Média, ela se referia apenas aos portugueses, diz. Depois de séculos sem uso, voltou nos anos 1970, após as independências das ex-colônias africanas, com um viés conservador, de valorização da influência portuguesa e dos valores morais europeus. Mas também já deixou de ser isso, diz Real:

— Hoje, “lusofonia” é o conjunto dos falantes de português, com todas as suas diferenças. É isso o que estamos a celebrar nesse encontro.

*Guilherme Freitas viajou a convite da União das Cidades Capitais da Língua Portuguesa (UCCLA)

Source : Globo Online | 2016-02-03 09:00:00.0

RIO - O último final de semana antes do carnaval começa com tudo. O Céu na Terra promete trazer a África para as ladeiras de Santa Teresa e literalmente levar os foliões ao céu com sua energia colorida. O cortejo começa às 8h, na Praça Odilo Costa Neto, e segue até o Largo das Neves. Este ano, o bloco vai tocar Marrabenta, ritmo musical do sul de Moçambique e vestir seus tradicionais bonecos de Olinda com trajes africanos. Tudo para trazer um pouquinho do continente africano ao carnaval carioca.

A marrabenta será apresentada durante o desfile pelo saxofonista moçambicano Timóteo Cuche acompanhada por coreografias elaboradas por Juliana Manhães.

— Trazer a África para o Céu na Terra foi uma sugestão do nosso trombonista Sergio Castanheira. Ele já esteve por lá algumas vezes e, numa dessas, conheceu o Timóteo Cuche. Como é sempre bom ter novidades, surgiu a ideia da ponte musical Brasil x Moçambique. A esposa do Sérgio, que fez doutorado em dança na África, criou uma coreografia com o som moçambicano. Vai ser bem legal, bem diferente — antecipa um dos organizadores do bloco Péricles Monteiro.

A professora, Juliana Manhães, ressalta que os próprios integrantes do bloco vão dançar a coreografia criada por ela.

— A gente criou movimentos bem simples, de mexer mesmo. O ritmo marrabenta, conhecido também como a dança do amor, é um deslizar de pés, muito sensual. Os ritmistas vão tocar e dançar, bem como é feito em Moçambique. A dança lembra um pouco o Kuduro, sabe? É uma dança mais misturada, urbana. Vamos fazer vários movimentos fáceis para os foliões pegarem rápido. Com certeza ninguém vai achar difícil — diz.

O interesse pelo ritmo foi tão grande, que Juliana vai ministrar um aula na Fundição Progresso.

— Quem acompanhou os ensaios, gostou muito. Dia 3, vou dar uma aula de Marrabenta, hibridizando com outros ritmos africanos.

O cortejo será todo dedicado a Moçambique. A bateria vai parar de tocar e, entre palmas, será puxada a música Elisa Gomara Saia, na língua materna de Timóteo.

— Com certeza o cortejo será o momento mais emocionante. O grande barato do desfile deste ano é a mistura entre a folia e a pesquisa. O Timotéo também é professor. Então, além dos ensaios práticos, tem também uma conversa sobre a relação do Brasil e Moçambique. Os foliões podem esperar muita diversão e cultura — conta o trombonista do bloco, Sergio Castanheira.

Conhecido pelo colorido das fantasias dos foliões, o Céu na Terra conta com cem ritmistas. Além do ritmo moçambicano, os foliões vão curtir também marchinhas, frevo, ciranda, maxarrancho e, claro, muito samba.

— Timóteo vai tocar umas seis músicas no ritmo Marrabenta, mas fica com a gente o desfile inteiro. Ele, inclusive, trouxe capulanas (pano tradicional de Moçambique muito utilizado por mulheres de lá) para vender — conta o organizador.

Apesar da retomada dos bondes de Santa Teresa, ainda não será este ano que o Céu na Terra voltará a transformar o transporte em alegoria de carnaval, como fazia antes do acidente em 2011, que deixou seis mortos e 56 feridos e paralisou o serviço.

— Nós saímos nove anos seguidos no bondinho, antes do acidente. Fizemos carnavais incríveis em cima dele e adoraríamos retomar a tradição. Mas acho um pouco prematuro querer voltar a desfilar com o bonde, pois ele ainda está em fase experimental.

Source : Globo Online | 2016-01-28 10:00:00.0

Links : Bandas e Artistas de Kuduro

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