La Réunion (Île de la Réunion)

Musique réunionnaise : maloya roulèr kayamb sikat tariwaz — patrimoine UNESCO.

Idiomas : français (off.), créole réunionnais.

História da música renaunaise

Da cana-de-açúcar às turntables, da plantação ao MaMA 2026 — La Réunion, essa ilha vulcânica de 2 512 km² a 800 km de Madagascar, é um laboratório de fusões sonoras. O maloya, música dos escravos africanos e malgaxes, está inscrito no patrimônio imaterial da UNESCO desde 2009. O séga, herdeiro crioulo das mesmas raízes, marca os casamentos e as noites da ilha. E hoje, uma nova geração de artistas, de Sueilo a Lise Van Dooren, exporta essas sonoridades das cenas parisienses até os festivais do Oceano Índico.

Dos campos da escravidão aos ritmos do maloya e do séga

La Réunion nasceu do tráfico. Entre 1773 e 1810, cerca de 50 000 pessoas deportadas da Madagascar e do litoral leste da África foram reduzidas à escravidão nas plantações de café, depois de cana-de-açúcar[1]. Lá nasceu uma nova música, que fusionou as percussões africanas, as melodias malgaxes e as estruturas rítmicas europeias.

Os escravos perpetuavam os rituais de suas culturas de origem nos servis kabaré — cerimônias de veneração dos ancestrais — onde o tambor rolante (oulèr), o triângulo, o kayamb (agogo feito de cana) e o pikèr (facão batido na mão) assumiam o papel do coral e da melodia[2]. Falava-se então de tchéga, termo colonial que designa tanto a dança quanto a música dos escravos negros.

Após a abolição de 1848, a música dos negros dividiu-se em duas vertentes. O maloya — palavra de origem malgaxe que evoca a tristeza, o mal-estar, o lamento[3] — permaneceu confinado aos cemitérios e às cerimônias do kabaré, muito ligado ao culto dos ancestrais para ser aceito pela sociedade colonial. O séga, por outro lado, criou-se mais profundamente: integrou influências europeias, instrumentos ocidentais e deu origem à canção crioula, forma mais festiva e profana[4]. O termo séga substituiu oficialmente o maloya no final do século XIX no discurso colonial — mas os renaunais continuam a praticar ambos[5].

Você sabia? O tambor rolante (oulèr) do maloya é feito a partir de um velho tonel de 60 litros, cujas lâminas de madeira curvadas são mantidas por três anéis de ferro. O princípio é próximo do ka na Guadalupe e dos tambores atabaques na África Ocidental: a mesma árvore, diferentes continentes.

Firmin Viry e Danyèl Waro: os precursores que levaram o maloya ao público

Firmin Viry, nascido em 1935 em Saint-Pierre, foi o primeiro a fazer cantar o maloya em público. Trabalhador dos campos de cana-de-açúcar, aprendeu a fabricar os instrumentos tradicionais graças a Gustin Miza, um moçambicano[6]. Em 1959, propôs o primeiro maloya cantado e dançado em espaço público, no cinema Rio de Saint-Denis — um ato de resistência cultural[7]. Próximo do Partido Comunista Reunaunais, Viry também era militante: suas canções denunciavam o desemprego, a injustiça social, a alienação cultural. O PCR publicou seus primeiros discos de vinil em 1976[8].

Danyèl Waro, nascido em 1958 nos campos de cana perto de Saint-Pierre, descobriu o maloya aos 18 anos assistindo a um concerto de Firmin Viry organizado pelo PCR. Filho de fazendeiro e descendente de colonos franceses, vivia um duplo legado que expressava em crioulo[9]. Músico, poeta, luthier (fabrica seus próprios instrumentos), venceu o WOMEX Award em 2010 por seu combate a favor da música renaunaise[10]. Sua mensagem é clara: « O maloya me tirou da filosofia cartesiana. Colocou-me em harmonia com La Réunion, com o povo, com nossa língua[11]. »

Essas duas figuras — Viry, o camponês-militante, Waro, o poeta-luthier — impuseram o maloya como música de dignidade e identidade. Seu legado repousa sobre princípios que Bender chama de re-africanização, ou seja, a absorção de instrumentos e formas ocidentais por uma prática ritual e rítmica africana[12]. O maloya renaunaise faz exatamente isso: reinventa a África no Oceano Índico.

A proibição (1960-1981): uma música julgada subversiva

Na década de 1970, o maloya tornou-se uma arma política. O PCR, que lutava pela autonomia da ilha (ou até a independência), usava-o como hino de união. Mas as autoridades francesas viam nessa música — cantada em crioulo, ritmada por tambores, associada ao kabaré — uma ameaça direta à ordem colonial.

Em 20 de maio de 1972, o prefeito de La Réunion tomou um decreto proibindo o maloya em toda a ilha[13]. Os concertos foram dispersados, os instrumentos quebrados, os cantores presos. Firmin Viry conta: « Há 33 anos, eu teria sido preso por cantar assim[14]. » A proibição só foi levantada em 1981, quando François Mitterrand chegou à presidência da República. Os arquivos do PCR, incluindo os registros de Firmin Viry feitos em 1976 durante o 4º congresso, testemunham esse período[15].

Essa repressão não foi isolada: na Madagascar, a música malgaxe era controlada; nas Caraíbas, os tambores eram sistematicamente proibidos aos escravos (o que daria, junto com as garrafas e cabeças de tartaruga, as percussões de Trinidad)[16]. Em La Réunion, a proibição do maloya ecoou com a proibição dos tambores em Cuba, na Guadalupe e no Haiti[17].


A renascença (1980-2009): do PCR à UNESCO

A abolição da proibição em 1981 marca o início de uma renascença. O maloya sai dos campos de cana e das cerimônias do kabaré para invadir as salas de concerto, os festivais e a rádio. O Conservatório à rayonnement régional da Reunião integra o maloya ao seu ensino. Em 2009, a UNESCO inscreve o maloya na Lista representativa do património cultural imaterial da humanidade, reconhecendo uma música nascida da escravatura como vetor de reivindicações políticas e ilustração dos processos de mestiçagens culturais[18].

Hoje, cerca de 300 grupos de maloya são registados na ilha[19]. O género mestiça-se: o maloya-rock, o maloya-reggae (sobrenome malogué), o maloya-jazz, o maloya-fusion. Nomes como EsoËno, Bô Misa, Mané e Ésoéno perpetuam a tradição enquanto a renovam.

A cena contemporânea: de Sueilo ao MaMA

A juventude reunenense não se contenta em preservar: ela reinventa. Sueilo (Louise Benard, nascida em Paris mas criada em Trois-Bassins) encarna esta nova vaga. Formada na EMA de Saint-Leu, ela funde afrobeat, shatta, bouyon e amapiano num estilo afro-urbano[20]. Os seus sucessos Geisha, Marie & Ginger e Fé attention contam o amor, a independência e a poder feminino. Em 2025, ela atua no Sakifo Festival e em turnê nas Francofolies[21].

O jazz contemporâneo faz o mesmo: o Lise Van Dooren Quartet mistura textos em crioulo e em inglês com arranjos jazz, enquanto Jozefinn’ Austral View explora as mesmas fronteiras[22]. O rap reunenense, com duos como Savage Mirror, visa o Canadá e a Ásia[23].

O Marché des Musiques Actuelles (MaMA) em Paris tornou-se um trampolim: em outubro de 2026, sete artistas reunenenses lá apresentaram shows, acompanhados pelo FRAM (Fonds Régional d’Aide à la Mobilité), que subvenciona 120 000 a 140 000 euros de passagens de avião por ano[24]. O Sakifo Festival, criado em 2004 em Saint-Leu e instalado desde então em Saint-Pierre, reúne anualmente 40 000 pessoas e 50 artistas — incluindo cabeças de cartaz internacionais como Ibrahim Maalouf, Jain e Protoje em 2024[25].

Um futuro ritmado

A música reunenense é um espelho da sua ilha: uma fornalha de línguas, rituais e resistência. O maloya, nascido nos campos de cana, ainda canta a dignidade. O séga, tornado canção crioula, anima casamentos e bailes noturnos. E as novas gerações — Sueilo, Lise Van Dooren, os rappers do MaMA — exportam estas sonoridades para Paris, Londres, Montreal. Como diz Danyèl Waro: « O maloya pôs-me em harmonia com La Réunion, com o povo, com a nossa língua[26]. » A ilha pulsa, e o mundo ouve.

Fontes

Mapa — La Réunion (Île de la Réunion)

Artistas

Compilações