Algérie

Musique algérienne : raï, chaâbi, hawzi, malouf gharnati, kabyle, chaoui, musique sahraouie.

Idiomas : arabe (off.), berbère, français

L’Algérie en mélodies : de la Casbah às charts mundiais

O raï, nascido nas ruas de Orã, foi inscrito no Património Mundial da UNESCO em 2022. Mas ele representa apenas uma faceta de um panorama musical argelino de extraordinária diversidade — da música arabo-andalusa, herdada de Al-Andalus há oito séculos, ao hip-hop berbere que agora faz dançar Paris, Lisboa e Toronto. Vamos ver como a Argélia, cruzamento mediterrânico, transformou as suas influências em criações únicas.1

A música argelina é frequentemente reduzida, no estrangeiro, ao raï — este género popular nascido nos anos 1920 em Orã. Contudo, o país alberga pelo menos cinco tradições principais que coexistem e influenciam-se mutuamente: a música arabo-andalusa2, o chaâbi urbano, o raï, a música kabyle berbere e os cantos sahraouis. Cada uma conta uma história do país — colonialismo, resistência identitária, globalização — e cada uma produziu figuras internacionais.

Dos primeiros discos ao raï: os precursores e o nascimento do género (1900-1970)

A história registada da música argelina começa no início do século XX, principalmente em Alger. A cidade, metrópole mediterrânica com múltiplas comunidades (musulmana, judia, europeia), é o crisol que dá origem ao chaâbi (« popular »), um estilo urbano que modera as regras rigorosas da música arabo-andalusa para se adequar à vida quotidiana dos bairros populares.3

A figura fundadora é Hadj M’hamed El Anka (1907-1978), de nome real Mohammed Idir Halo, nascido na alta Casbah de Alger. Aluno de Cheïkh Mustapha Nador, grande mestre da música arabo-andalusa, ele inova ao introduzir instrumentos novos — banjo, darbouka, piano — e criando a mandole argelina, uma meia-mandolina com braço alongado, trabalhada com o luthier espanhol Jean Bellido.4 Em 1928, ele grava os seus primeiros discos de 78 rotações na Columbia Records e participa na inauguração da Rádio Alger. Em menos de uma década, torna-se o maior nome da canção argelina, apelidado « o Cardeal » pela majestade da sua presença cénica, interpretando cerca de 360 poemas e produzindo perto de 130 discos.

Mas Alger não é o único foco musical. Em Constantine (este), o ma’luf, variante andalusa local, perpetua-se nas cerimónias familiares. No sul, a música das oásis de Ouargla e Touggourt, o Staifi, mistura ritmos árabes e africanos; as flautas sahraouis — tashinsik e teiharden — acompanham os cantos nómades do povo peul. Cada região desenvolve a sua própria paleta sonora.

No oeste do país, em Orã (Wahrani), surge outro estilo: o raï, palavra do árabe argelino que significa « opinião » ou « conselho ».5 Os primeiros cantos raï aparecem nos anos 1920 num contexto colonial duro: trabalhadores agrícolas perdem as suas terras em benefício de colonos europeus, e as mulheres cheikhat — cantoras rurais de origem beduína — compõem textos que exprimem essa precariedade, misturando amor, álcool e crítica social. A cheikha Rimitti el Reliziana (1900-2004), figura tutelare, canta em darija (árabe dialectal) com uma flauta gasba e um tambor guellal, interpretando por vezes em público para homens — um tabu para a época.6

O raï tradicional (anos 1930-1950) permanece confinado às festas de casamento, aos cafés-concerto e aos cabaré da Corniche oranise. O raï moderno emerge nos anos 1970, impulsionado por grupos urbanos que adicionam acordeão, saxofone, guitarra elétrica, caixa de ritmo e sintetizador. Messaoud Bellemou, trompetista de Aïn Témouchent, forma uma orquestra que moderniza a música folclórica oranise; Chaba Fadela, oriunda desta orquestra, torna-se uma das primeiras estrelas femininas do género.7

Sabia isto? As primeiras imagens de músicos argelinos circulam na Europa já nos anos 1910 sob a forma de postais coloniais. As fotografias de concertos de música andalusa ou chaâbi nos parques de Alger provavelmente foram o que a maioria dos franceses jamais ouviu da música argelina nessa época.8


O raï conquista o mundo (1980-2000)

A virada política chega na Argélia independente. O regime promove a cultura árabe clássica e marginaliza as línguas locais; o raï, cantado em darija de Orã misturado com espanhol, francês e berbere, é frequentemente excluído dos meios de comunicação estatais.9 Isso não impede que conquiste a atenção da juventude. No início dos anos 1980, a juventude de Orã e Sidi Bel-Abbès exporta o raï para Argel, depois Paris, com produções de baixo custo em cassete. Em 1982, o produtor Rachid Baba Ahmed moderniza o som com teclados eletrônicos; em 1985, o Coronel Hosni Snoussi, figura liberal do regime, programa estrelas do raï no Festival da Juventude em Argel, abrindo caminho para o reconhecimento nacional.10

A globalização do raï ocorre através de três gerações de artistas. Cheb Khaled (nascido em 1960), apelidado de « o Rei do Raï », funde raï, jazz e pop com seu álbum Kutché (1988) produzido por Safy Boutella na gravadora Pomme Music-Sony; Cheb Mami (1957-2019) experimenta duetos internacionais e grava com Sting o single mundialmente conhecido “Desert Rose”; Faudel e Rachid Taha levam a fusão mais longe, misturando raï com rock e punk. Rachid Taha, que chegou à França aos dez anos, forma o grupo Carte de Séjour nos anos 1980 e depois cria o coletivo 1,2,3 Soleils com Khaled e Faudel — um símbolo da diversidade cultural francófona.11

O drama atinge na metade dos anos 1990, quando a guerra civil argelina eclode: dois raïstars são assassinados por islamistas, Cheb Hasni em 1994 e Rachid (Mimouni) no mesmo ano. Vários artistas deixam o país.12 Paradoxalmente, essa violência reforça a reputação do raï como música de resistência e liberdade. Em 2022, a UNESCO inscreve o raï no Patrimônio cultural imaterial da humanidade, reconhecendo que é « um meio de transmitir a realidade social sem tabu nem censura » e que seu « mensagem de liberdade e transgressão tornou-se universal ».13

A voz berbere: música kabyle e movimentos identitários

Enquanto o raï conquista o mundo, outra tradição — a da Kabylie, região montanhosa ao norte de Argel — carrega uma mensagem de afirmação identitária que ressoa muito além das fronteiras do país. A música kabyle (ou amazigh), cantada em tamazight, língua berbere, tem como função primordial preservar uma língua e uma cultura frente à dominação do árabe na Argélia pós-independência.14

Idir (nome de palco de Hamid Aït Ater, nascido em 1948) impõe-se desde 1967 com “A Vava Inouva”, um título que se tornou hino geracional ouvido por milhões de argelinos e traduzido em sete idiomas. Sua voz frágil aliada a uma poesia engajada faz dele uma das figuras mais populares da canção berbere. Lounis Aït Menguellet (nascido em 1950) desenvolve uma estética poética ainda mais aperfeiçoada: cada canção é um trabalho de memória e defesa da língua kabyle. « A canção sempre carregou nos braços a alma kabyle », declarou ele.15

A geração seguinte, a de Lounès Matoub (1956-1998), apelidado de « o Rebelde », assume um tom mais confrontacional: denuncia a censura linguística, cita o soberano berbere Jugurtha em seus textos e é assassinado em 1998 em circunstâncias controversas.16 A música kabyle não é apenas militante; também é pop moderna. O grupo Takfarinas, ativo desde os anos 1980, eletrifica o estilo berbere aproximando-o da pop internacional, enquanto Massissa continua a exportar a canção kabyle para as salas europeias.17

O cenário contemporâneo: Soolking, Sami Galbi e o raï nova geração

Se as décadas de 1990-2000 veem o raï perder terreno frente ao hip-hop mundial, o século XXI assiste a um novo sopro. Soolking (Abderraouf Derradji, nascido em 1989 em El Hammamet, subúrbio de Argel) tornou-se, aos 35 anos, um dos artistas francófonos mais ouvidos do mundo, com mais de oito bilhões de streams acumulados desde 2018. Originário de uma família de imigrantes argelinos — viveu sem documentos nas ruas de Paris em sua juventude —, Soolking mistura rap, R&B, pop e raï numa produção que faz dançar milhões de pessoas. Seus sucessos “Meleğim” (certificado diamante pela SNEP), “Suavemente” (143 milhões de visualizações no YouTube) e “Casanova” (também diamante na França) conquistaram a França, Espanha, Países Baixos e Itália.18

O próprio raï renasce: Sami Galbi, jovem artista nascido na Argélia, explora um raï electro híbrido apresentado em 2026 nas Escalas de Saint-Nazaire. A gravadora Capitol Music assina Soolking e faz do raï o sal da pop internacional. O cenário argelino da diáspora também se enriquece: Lynda Bounoua, El Anou e DjeLlDa encarnam um rap argelo-kabyle que recicla os mesmos temas identitários de seus predecessores kabyles.

Um futuro plural

A história musical argelina é uma história de mestiçagens. A música arabo-andalusa, herdeira do Al-Andalus, nutriu o chaâbi; o chaâbi e o raï compartilham a Casbah e a rua; o raï exportou palavras árabes para os clubes franceses; a música kabyle impôs o tamazight nas ondas; e a diáspora argelina, em Paris, Toronto e Londres, recicla tudo isso num hip-hop que fala de memória colonial e orgulho. A Argélia, país de 45 milhões de habitantes e sete milhões de diáspora, continua a exportar artistas que moldam os gêneros mais populares do planeta — não imitando, mas fundindo. O raï, « opinião », permanece o melhor nome possível para uma música que não cessou de dar voz aos que se queria calar.


Sources


  1. UNESCO, « Raï, popular folk song of Algeria », inscrito na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade, 2022. https://ich.unesco.org/en/RL/rai-popular-folk-song-of-algeria-01894 ↩︎

  2. « Musics of Algeria: Selected Recordings », Review of Middle East Studies, Cambridge University Press. https://www.cambridge.org/core/journals/twentieth-century-music/article/seeing-music-in-early-twentieth-century-colonial-algeria/70682F4BC3DF1BFB5B6438BFDFABD591 ↩︎

  3. Mohamed Balhi, « Le secret du raï réside dans sa spontanéité », Pan African Music, relatado em « Il était une fois le raï ». https://pan-african-music.com/il-etait-une-fois-le-rai ↩︎

  4. Wikipedia, « Hadj El Anka ». Nasceu em 20 de maio de 1907 na Casbah de Argel, faleceu em 23 de novembro de 1978. https://fr.wikipedia.org/wiki/Hadj_El_Anka ↩︎

  5. « Musiques d’Algérie, mondes de l’art et cosmopolitisme », Revue Européenne des Migrations Internationales, vol. 67, n° 1, 2003. https://www.persee.fr/doc/rint_0294-3069_2003_num_67_1_1012 ↩︎

  6. Wikipedia, « Raï ». Cheikha Rimitti el Reliziana (1900-2004). https://en.wikipedia.org/wiki/Ra%C3%AF ↩︎

  7. « On the Origins of Pop Rai », Music Journal of Contemporary Culture, Brill, 2024. https://brill.com/view/journals/mjcc/12/1/article-p7_3.xml ↩︎

  8. Jonathan Glasser, “‘Seeing’ Music in Early Twentieth Century Colonial Algeria », Twentieth-Century Music, Cambridge University Press. ↩︎

  9. Banning Eyre, « Khaled and the myth of rai », Foreign Policy, 10 de setembro de 2010. https://foreignpolicy.com/2010/09/10/khaled-and-the-myth-of-rai/ ↩︎

  10. « L’épopée de la chanson raï », Persée, 2003. https://www.persee.fr/doc/rint_0294-3069_2003_num_67_1_1012 ↩︎

  11. Wikipedia, « Khaled (musician) ». « Cheb Khaled » significa « Jovem Khaled » em árgeo argelino. https://en.wikipedia.org/wiki/Khaled_(musician) ↩︎

  12. « L’épopée de la chanson raï », Persée, 2003. « Cheb Hasni e Rachid [Mimouni], assassinados. » ↩︎

  13. UNESCO (cf. nota 1). ↩︎

  14. Karen R. Fisk, « Identité et altérité dans la chanson kabyle engagée des années 1990 », insaniyat.crasc.dz. ↩︎

  15. Karim Ouaras e Nabil Boudraa, « Interview with Lounis Aït Menguellet », Tamazgha Studies Journal, primavera 2024. https://www.tamazghastudiesjournal.org/articles-spring2024-issue-01-article17 ↩︎

  16. « Identité et altérité dans la chanson kabyle engagée », CRASC. Lounès Matoub (1956-1998), assassinado em 25 de maio de 1998. ↩︎

  17. « Il était une fois le raï », Pan African Music. Takfarinas: evolução da música kabyle para a pop moderna. ↩︎

  18. « ‘Misery gives us strength’: Soolking, the rap voice of young Algeria », The Guardian, 19 de maio de 2020. Arab News, 26 de agosto de 2022. https://www.theguardian.com/music/2020/may/19/misery-gives-us-strength-soolking-the-rap-voice-of-young-algeria ↩︎

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